Somos todas Alex: uma análise da violência contra jovens LGBT

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Vinícius Alves, Esther Silveira, Dediane Souza e Alessandro Melchior, militantes do movimento LGBT* | Imagem: UN News Centre/CC via Agência Brasil

O Brasil, nas últimas semanas, viu estampada nos noticiários a morte do jovem Alex. Vários artigos e análises foram publicados na mídia alternativa e tradicional, bem como nas redes sociais. A sociedade inteira falou sobre o caso do garoto afeminado que, por sucessivas vezes, foi espancado pelo próprio pai. O último espaçamento, no entanto, o levou à morte.

Por parte do Estado, vimos silêncio, o que no contexto de violência experimentado hoje por jovens não-heterossexuais significa uma omissão perigosa e preocupante.

O próprio Governo Federal recebe, sistematiza e produz, desde 2011, denúncias e relatórios sobre as violações de direitos humanos da população LGBT no Brasil. As denúncias são recebidas pelo Disque 100 – o Disque Direitos Humanos e serviram para a produção de dados sobre as violências às quais estamos expostos cotidianamente.

Só em 2012, o Executivo Federal registrou 3.084 denúncias que tratavam de 9.982 mil violações de direitos humanos contra a população LGBT, envolvendo 4.851 vítimas e que apontaram aos governos 4.784 suspeitos. Três desses índices (denúncias, vítimas e suspeitos) tiveram aumento de mais de 100% em comparação aos dados de 2011. O índice de violações sofreu um aumento de 46,6%, quando comparada ao ano anterior. Exatos 61,16% de todas essas denúncias de violações registradas pelo Disque 100 foram feitas por pessoas entre 15 e 29 anos em 2012. Índice que representava 47,1% dos casos em 2011.

O caso de Alex, o jovem afeminado do Rio de Janeiro, tomou dimensão nacional. Porém, quantos casos de espancamento dentro do próprio ambiente familiar contra jovens homossexuais – que nos dados dos relatórios correspondem a 38,63% das denúncias – não apenas permanecem invisíveis como também são negligenciados pelas esferas federal, estadual e municipal.

Cenário preocupante e desafiador

lgbt_interna_ajnGuillaume Paumier/Flickr 

A homofobia experimentada no Brasil tem repercutido na vida de todas nós, sejamos heterossexuais, lésbicas, gays, travestis, transexuais ou bissexuais. Preocupa-nos os crescentes dados de violência contra nós jovens LGBT. Igualmente nos tira o sono o extermínio de nossa juventude negra e de periferia, as profundas desigualdades de classe e a violência a que está exposta toda a juventude brasileira na sociedade de consumo a que ascendemos. Todo esse cenário nos desafia a construir respostas nas ruas, nas organizações e nos poderes.

Do ponto de vista dos poderes, iniciamos uma discussão entre o Conselho Nacional de Juventude (Conjuve) e o Conselho Nacional LGBT. Começamos realizando uma primeira reunião desses dois colegiados em São Paulo, estado que apresentou um aumento de 107% de casos de violência registrados no último relatório.

Elaboramos em dois dias de oficina a construção de dois processos complementares. O primeiro deles será a tentativa de pactuar, pela combinação de ações emergenciais entre os ministérios, uma resposta imediata às violações de direitos humanos sofridas pela população LGBT jovem. Mobilizaremos até 3 de abril, via Conjuve e CNCD, um conjunto de ministérios para iniciar o diálogo, que será o primeiro momento em que sentiremos a disposição governamental, especialmente do Executivo, em construir uma agenda de respostas emergenciais sobre esses casos de violência.

Não queremos mais jovens, assim como Alex, sendo assassinados dentro de suas próprias casas, por seus familiares, decorrendo de uma opção desumana de não enfrentarmos a esses contextos e esses discursos de violência. Por isso, entendemos a necessidade de fortalecer a ocupação de mais ambientes públicos de sociabilidade entre jovens LGBT também no sentido de criar uma cultura pública de convivência com a diversidade humana.

A cidade de São Paulo tem sido pioneira nessas discussões, reafirmando o espaço público como o local de construção da cidadania, de discussão e organização política. Percebendo isso, discutimos a ideia de, por meio da arte e da cultura, protagonizar um espaço importante de experiências e trocas no período que antecede à Parada do Orgulho LGBT da capital paulista.

Realizaremos um circuito de cultura e arte da juventude LGBT, dando mais um passo no reconhecimento da nossa pluralidade e na valorização da nossa diversidade. Esperamos que essa iniciativa, promovida no Largo do Arouche até o período da Parada, sirva como espaço de troca, busca e informação para a construção de cidadania.

Continuaremos a lutar nas redes, nas ruas, nas organizações e junto a todos os poderes por uma sociedade justa, nos colocando no debate democrático e cobrando a responsabilidade com nossas vidas. Somos todas Alex! Somos todas Lucas Fortuna! Somos todas Alexandre Ivo! E, viver sem violência, é um direito fundamental do qual não abrimos mão.

*com adaptações para a Agência Jovem de Notícias

Bruno Ferreira
Jornalista, professor e educomunicador. Responsável pelos conteúdos da Agência Jovem de Notícias e Revista Viração.

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