Somente uma educação que inclua todos trará fim aos preconceitos

No Dia Nacional de Luta pela Educação Inclusiva, uma reflexão sobre o sistema de ensino brasileiro, pautado em meritocracia, que exclui pessoas negras, pobres e com deficiência em nome de privilegiar “as melhores cabeças”.

Por Victor Capellari

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O dia 14 de abril é reconhecido como o Dia Nacional de Luta pela Educação Inclusiva. Então, aproveitando a deixa, vamos falar um pouco sobre a temática. Por que todos devem ter acesso à educação? Pode parecer óbvio, mas vamos discorrer.  

Muitos dos preconceitos e dificuldades de desenvolvimento que assolam nosso país tem sua raiz na falta de acesso à educação de qualidade.

Vamos voltar à abolição da escravatura, por exemplo: óbvio que foi uma grande conquista, mas foi realizada sem nenhum cuidado ou preocupação para com os agora ex-escravos, que por falta de emprego e de acesso à educação ficaram numa situação de classe muito inferior na sociedade. 

Naquela época, existia o mito travestido de ciência de que pessoas negras pertenciam a uma classe inferior da raça humana, eram burros, nada confiáveis, não eram o tipo de perfil de um funcionário ideal; então era óbvio que teriam menos chance de ser contratados.

Muitos acabavam arrumando um empregos que pagavam menos, em vários casos para seus antigos donos, mas o que causou o pior estrago a longo prazo foi a falta de educação de base.  

Acabamos por criar um círculo vicioso na nossa sociedade. Crianças que são filhos de pais com hábito de leitura têm mais chance de desenvolver o mesmo hábito e isso só aumenta quando os pais leem para os filhos, ou leem junto com os filhos.

Se os ex-escravos e seus filhos, ou qualquer outra classe da sociedade, não têm acesso a escolas, até mesmo sem saber ler, a chance de seus descendentes gostarem de ler será menor, o que serve para reforçar o preconceito de que pertencem a uma classe inferior.Aqui se esbarra em outro fenômeno: o Efeito Pigmaleão, também chamado de profecia auto-realizável, que mostra o efeito que o ambiente e o que pensam sobre você, têm no desenvolvimento de cada indivíduo.

Pesquisadores fizeram uma prova para alunos de uma escola no início do ano letivo, depois nomearam de forma aleatória um grupo de alunos e falaram para os professores que aqueles eram os melhores da turma. No final do ano, os pesquisadores fizeram outra prova, e a surpresa é que aqueles que foram apontados como os melhores realmente desenvolveram-se melhor, pois os professores deram mais atenção para aqueles que julgaram ser mais promissores. 

Mas não se trata só de toda criança ter acesso à escola, mas também de adequar o ensino de acordo com o aluno, a equidade no sistema educacional respeitando as diferenças de gênero, classe, etnia, deficiência, entre outras. 

Imagem em preto e branco mostra três crianças em sala de aula. Em foco, uma criança negra usando cadeira de rodas.
Educação inclusiva. Foto: Prioridade Absoluta/Instituto Alana – reprodução

Esse ter contato com pessoas e pensamentos diferentes educa a todos, pois ensina como conviver numa sociedade plural, multiétnica e multicultural como o Brasil. A mediação pedagógica amplia seu universo, funcionando como uma simulação do mundo complexo fora dos muros das escolas, e servindo a favor da desconstrução de preconceitos, estigmas e estereótipos.

Para refletir ainda mais sobre essa temática, gostaria de recomendar um vídeo famoso do Atila Iamarino sobre meritocracia e o tabuleiro de Galton:

Em outras palavras, a educação tem o poder de mudar vidas, porque mostra ao indivíduo que ele não está limitado como a sociedade insinua, e ensina a conviver e respeitar as diferenças, permitindo a evolução para um mundo melhor.

Imagem em fundo amarelo mostra duas peças de quebra cabeça que se encaixam.
Imagem de Ayush Shakya por Pixabay 

A audiodescrição deste conteúdo foi feita por Juliane Cruz.

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