Sobre o valor da Circularidade: a vida é cíclica

No artigo XII, o último da série dos valores afro-brasileiros, uma dobradinha poética para apresentar a CIRCULARIDADE. Na primeira parte, Ygor Daniel reflete sobre as circularidades e seus atravessamentos na vida social. Já Duda Malvão, reflete de modo circular sua trajetória como alguém que foi impactada pela circularidade presente na arte. 

Por Ygor Daniel e Duda Malvão (@gudihudoficial @movanosoficial)

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A vida é cíclica e ensina

Circularidade: caráter ou qualidade do que é circular. Mover-se de modo contínuo, voltando sempre ao ponto de partida.

Quando criança, quero barba, ouço: “saia, os adultos estão conversando!” quando adulto: “fiz ela ontem e já tá assim, que saco” – percebo o quão banal é a conversa. Quero uma casa pra simplesmente andar pelado por ela.

São crianças como você… o que você vai ser quando você crescer?

Aquele que à noite estava desabando em lágrimas, ao amanhecer, acorda com um sorriso largo e contagiante. O velho papo da Fênix ou de livros de autoajuda. Mas, tirando a cafonice, acredito que de fato, como um velho sábio já dizia “chifre constrói caráter“. Empregando isso ao tema deste texto, vemos que uma hora ou outra você irá passar por dificuldades, e com o aprendizado das mesmas é que você saberá lidar quando a situação se repetir.

Você passará por provações até o dia da sua morte e, no final, o que importa não é o que a vida faz com você, e sim o que você faz com o que a vida faz com você.

Do pó viemos e ao pó retornaremos” mostra também o ciclo da vida em geral, sendo o pó, fragmento estelar que constitui todos nós e todas as coisas, e o retorno, à morte, mas não só no sentido terreno da coisa – caixão, cremação, disputa de bens pós-óbito e por aí vai. Morte como fim de tudo, quando junto com a gente, o planeta devolve o que lhe foi cedido ao universo. Sobra até para o próprio universo, discussão mais difundida na teoria do Big Bang.

Em uma ramificação da teoria, encontra-se um estudo que questiona: e se no lugar de ter nascido da singularidade com o Big Bang, o universo fosse algo que sempre existiu? E que ao chegar num tal tamanho, voltasse ao ponto de origem e passasse pelo mesmo processo através de eras?

A mesma propriedade encontramos nas substâncias da terra, ciclo da água, ciclo do carbono, ciclo da vida, ciclos… ciclos…. ciclos!

Infinity Symbol by Pride-Flags – Deviant Art

Não, calma! Eu não estou enlouquecendo! E essa infinidade de cursos e circuitos os quais eu citei uma pequeníssima parcela provam, ou pelo menos tentam provar que… 

Volte ao início, releia esse texto e você entenderá o que digo!

***

Uma história sobre o valor da Circularidade

O valor afro-brasileiro Circularidade tem uma movimentação sem início e nem fim, e se repete fazendo com que as pessoas se comuniquem e passem energia até que essa roda tenha um significado intenso. A vida é um grande exemplo de circularidade. Chamamos de movimento cíclico porque a todo momento mudamos nosso pensamento, humor, forma de agir e se comunicar. Tem dias que estamos mal conosco mesmos e sem querer tratamos com grosseria o próximo, e no outro dia acordamos querendo ser alguém melhor com um novo foco, sentindo-se bem e muito positivo.

Provando que a vida é um movimento cíclico, ao analisar minha vida, trago um pouco sobre o que eu gosto: a dança de rua. Movimento nascido nos anos 70 pelas ruas de Nova York, com o breaking, estilo de dança que foi criado pelas comunidades negra e latina com o intuito de dar outro foco para a mente dos jovens fazendo com que diminua a violência, e a disputa agora seria por territórios atrás da dança.

Essa ideia foi tão boa que teve um movimento cíclico se espalhando pelo mundo e tornou-se potência da arte, música e dança. O Breaking chega no Brasil, mais especificamente em São Paulo, por Thaíde, no início da década de 80, e começam a se reunir grupos de dançarinos para treinar e batalhar. O breaking era geralmente dançado através do hip-hop e breakebeat. Ao passar por esse grande movimento circular positivo, hoje essa dança é um esporte mundial, com dançarinos profissionais disputando torneios por todo o mundo.

Nas comunidades do Rio de Janeiro, entre dançarinos amadores, foi relacionado junto com o funk algumas formas de passinho, como por exemplo a cruzada e o rabisco com os pés, que se tornaram muito famosos. Com o apoio das comunidades e a determinação dos dançarinos amadores foi fundado um grande evento de duelo chamado “passinho foda”, lugar onde dançarinos vão para renovar suas forças a cada batalha, trazer novos passos, fazer novas amizades e se juntarem para levar o passinho a outras pessoas.

Dançarinas e dançarinos de rua fazem o possível para passar emoção através da sua arte. A fila de espera é uma grande roda ou meia lua em volta do dançarino da vez, com pessoas jogando positividade na interação. O passinho chega na minha vida no ano de 2015, aos meus 14 anos, no momento em que passava por situações de rejeição por não conseguir me adequar a alguns grupos sociais e se mantém até hoje. Chega fazendo revolução na minha trajetória e me mostrando outro caminho. Me trouxe amigos e me fez perder alguns.

A dança me ensinou que devemos viver intensamente um dia após o outro, pois hoje eu posso perder a batalha, mas amanhã eu acordo com novas ideias, novos passos para o público, com energia para vencer.

O passinho vai além de soltar o ritmo e dançar de qualquer jeito como muitos pensam. O passinho tem sentimento e ensina! Me ensinou que a vida é feita de altos e baixos, mas sempre devo pensar que amanhã é dia de tentar novamente e melhor.

Cena do filme A batalha do passinho / MIS – reprodução

Para moradores de comunidade, a dança de rua chega com a melhor intenção do mundo e vemos o resultado disso quando a batalha de passinho se torna mundial, e gritamos: A favela venceu!! Jamais diga que o preto favelado só tem futuro dentro de um carro blindado sendo levado como bandido! Executamos os passos com estilo solto, nas ruas, às vezes, sem camisa e sem chinelo, com os pés diretamente no chão para sentir a energia do lugar e vibração.

O passinho veio para nos dizer que o mundo gira e nossa vez vai chegar!

Ygor Daniel e Duda Malvão são atores do Grupo MovaNos, que a partir de abril de 2021 passou a se chamar Gudi Hud Escola de Teatro. Quer conhecer mais o trabalho deles? Acesse a página do MovaNos ou a página da GudiHud no Facebook. Quer falar com eles? Envie um e-mail para movimentonosso@gmail.com

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