Sobre Manifestações e Bizarrices na Política

Um comentário sobre as manifestações antirracismo no mundo e as bizarrices da política brasileira.

Por Victor Augusto Capellari

Casos de violência policial excessiva, como o que acometeu George Floyd, resultando em sua morte, são evidências de um problema social de longa data, que não atinge apenas os Estados Unidos, como mostra a repercussão do ocorrido.

Peço licença para fazer uma análise sob meu ponto de vista, e aqui não cabe fazer avaliação sobre o próprio George Floyd, mas sim sobre as consequências do ocorrido. Sua morte provocou um movimento histórico de protestos que atravessou as fronteiras dos Estados Unidos, atingindo Austrália, Inglaterra, França e outros países.

Algumas dessas manifestações evoluíram de forma violenta, como os incêndios nos Estados Unidos, uma verdadeira revolta pública, o que pode ser explicado pelo conceito de efeito mola:

Quando um grupo sofre repressão por muito tempo, pressionado como uma mola, acaba por se liberar de forma agressiva, por causa de toda a energia acumulada, indo a extremos, antes de se estabilizar.

Logo, essas respostas do efeito mola, mesmo que se mostrem radicais, são totalmente compreensíveis, mesmo que se tornem munição para aqueles que se opõem às reivindicações de tal grupo.

O difícil do racismo estrutural é que muitas pessoas não percebem que, por ser algo incrustado na sociedade com o passar do tempo se tornou parte do comportamento, através da máxima da repetição.

Ser racista não é algo legal, todos concordam, já passamos da época em que a escravidão era aceita socialmente, mas ainda assim temos ecos dessa época, como o próprio caso de George Floyd mostra.

Infelizmente, com o foco saindo da cena de sua morte, e passando para os incêndios nos Estados Unidos, muito dificilmente os protestos convidam a reflexão sobre as ações que os motivaram. Pelo contrário, irão servir de validação para o racismo estrutural.

Para quem espera então uma iniciativa do governo, Donald Trump parece fazer uma conta: ele pretende agradar apenas seu eleitorado, que é naturalmente conservador. Para agradar sua base e de olho em uma reeleição, Trump ‘pinta’ o movimento como um bando de desordeiros e também nada faz para solucionar o problema original. O atual presidente dos Estados Unidos teve uma pequena parcela de votantes afro-americanos na sua eleição para presidente, e o número deve diminuir no próximo pleito.

Podemos traçar um paralelo com a situação brasileira, que também entrou na onda de protestos, por motivos claros para quem estuda o passado de nosso país, ou é sensível à sua realidade.

No Brasil, passamos por uma onda que não é puramente conservadora, ela também é uma onda negacionista e retrógrada, que faz apologias ao nazismo e outros movimentos ditatoriais. O problema deste discurso é que quem o assume precisa de um inimigo para combater, o que ajuda a manter a polarização entre esquerda e direita no país.

Para entender melhor, imagine tal cenário: um rapaz começa a insultar outro, até o ponto que o insultado se revolta, pois não aguenta mais ouvir as barbáries de seu insultador, que agora mediante a resposta revoltosa se faz de vítima.

O caos e o show-off que inundou a política são estratégias para não falar de assuntos realmente importantes, são cortinas de fumaça: brigamos nas redes e ficamos revoltados a cada nova frase grotesca e surreal de políticos e autoridades, enquanto a ineficiência no combate à pandemia continua, por exemplo.

Afinal, já que a população parece se interessar por política, o truque é isolar esse interesse em debates furados e atrasados. Isso não significa que devemos compactuar com manifestações neonazistas, mas sim agir para que se faça justiça, assim como no caso de George Floyd e de tantas vítimas brasileiras.

Se iniciativas mais incisivas existissem a mais tempo, como mudanças na educação de base e punição para os racistas, o barril de pólvora não teria explodido justamente nesse momento de pandemia.

Sei que não apresentei nenhuma resposta rápida, mas não existem respostas messiânicas: como já devíamos ter aprendido, o que nos resta é buscar mudanças práticas para melhorar nossa realidade, no lugar de apenas mitar no facebook.

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