Sobre a retórica preconceituosa que inverte a realidade

Enquanto os intolerantes falseiam a realidade, grupos minorizados são penalizados. E assim a democracia perde força, pessoas são desacreditadas e feridas.

Por Erik Martins

Ouça este conteúdo na íntegra

Em pleno Mês do Orgulho… eu estou revoltado! Me desculpem, eu queria trazer um texto leve ou que tratasse de conscientização de forma artística pelo fim do preconceito. Mas não dá! Às vezes a gente precisa trazer a realidade de forma “nua e crua”.

Essa semana – na semana em que esse texto foi escrito – fomos pegos de surpresa nas redes sociais com uma notícia desoladora. Um menino de 11 anos, estudante do 6º ano do Ensino Fundamental da Escola Estadual Aníbal de Freitas, em Campinas (SP), foi vítima de uma pressão psicológica absurda por parte de pais e funcionários da instituição. Isso porque no grupo de WhatsApp da turma, ele sugeriu que fosse feito um trabalho com a temática do mês do orgulho LGBT+.

Logo após a mensagem com a proposta, o menino recebeu uma enxurrada de críticas de adultos que fazem parte do grupo, dizendo que aquilo era um absurdo e que ele deveria apagar a mensagem. Uma pessoa chegou a dizer que ele deveria ser excluído do grupo.

A irmã do menino, em relato do caso feito em sua página no Facebook, contou que uma mulher que se intitula coordenadora da escola ligou para a criança às 20h30min da sexta-feira, dizendo que seu comentário no grupo era absurdo, que ele deveria excluir e que precisava de tratamento.

Trecho do relato escrito pela irmã do garoto no Facebook, após a denúncia de preconceito em Campinas — Foto: Reprodução/Facebook

Vendo que o menino estava chorando, a irmã pediu explicações. Foi aí que soube do ocorrido. Então, pegou o telefone para argumentar, e ela mesma foi questionada – a coordenadora apontou que a proposta de trabalho escolar não seria adequada.

Apesar de a família ter registrado boletim de ocorrência e da Secretaria de Educação do Estado de São Paulo dizer que irá enviar um supervisor de ensino para apurar o caso, além de uma equipe do programa Conviva SP para “apoiar o estudante, sua família e a comunidade escolar”, como dizem em nota, o estrago está feito.

O menino ficou muito abalado, chorando e até ficando sem comer. Um psicológico em frangalhos por propor uma pesquisa escolar sobre uma pauta mundialmente conhecida.

Não é um caso isolado, infelizmente

E esse não é um fato isolado, pelo contrário. Somos constantemente confrontados com as mais diversas expressões de preconceitos LGBTfóbicos todos os dias, em todos os ambientes. Em nenhuma situação se justifica, mas em pleno Mês do Orgulho, recebermos notícias como essa é de revirar o estômago. E de certa forma, essa dor é ao mesmo tempo um alívio porque pelo menos há casos noticiados, quando sabemos bem que a realidade fora da mídia é muito mais violenta.

O Brasil é o país que mais mata pessoas LGBTQIA+ no mundo e carece de educação, de políticas públicas e que os dados alarmantes sobre essa parcela da população sejam tratados com a devida responsabilidade. Com um governo abertamente preconceituoso, que não se mobiliza pela equidade social, estamos vivenciando um aumento na violência da população LGBTQIA+.

Mas pelo menos há notícias. Mas pelo menos não são todas as pessoas LGBTIA+ que são violentadas de alguma forma e têm seus psicológicos destruídos pelo preconceito.

Mas pelo menos?

Nós estamos cansados de “pelo menos”!

Todos temos direito a uma vida plena e saudável; nós queremos fazer esse direito valer. Não queremos ter a respiração cortada quando lemos uma notícia como a que foi exposta acima, como quem fica na dúvida se chora ou se fica aliviado por pelo menos ter sido evidenciada.

Direitos humanos não deveriam ser uma pauta entre direita e esquerda políticas, e sim um consenso de preservação unânime. Deveriam ser pauta escolar!

Mas o que estamos presenciando é uma tentativa de deturpação destes valores. A retórica preconceituosa inverte a realidade, dizendo que esses direitos são uma tentativa de um grupo se privilegiar, que preconceito é sim liberdade de expressão, e tantos outros absurdos que têm sido proferidos.

Enquanto os intolerantes falseiam a realidade, grupos minorizados são penalizados. E assim a democracia perde força, pessoas são desacreditadas e feridas.

Em nossa sociedade, retrógrada, cisgênero e patriarcal, somos marcados constantemente por traumas desde nossas infâncias, simplesmente por sermos quem somos. E ainda assim descobrimos nossas forças – como sujeitos e como grupo – para quebrar as correntes que nos limitam e sermos quem realmente somos.

E chegamos ao cúmulo de uma criança de 11 anos não conseguir sugerir uma pesquisa escolar – sobre uma pauta que movimenta o mundo todo e que deveria ser acolhida pela comunidade escolar para esclarecer dúvidas, desfazer preconceitos e transformá-los em conhecimento e respeito pelo que é diferente – sem sofrer violência psicológica.

Ao retrocesso, a resistência

Bandeirão sobre o público na Parada SP. Associação Parada LGBT de São Paulo / Divulgação

Não vamos permitir retroceder em nossa existência; nossa história é marcada por resistência. Depois que vimos o quanto somos potentes unidos, e o quão transformador é sentir quem se é, se perceber, descobrimos o que é viver.

E quando se descobre a força pessoal e a capacidade que temos de iluminar o mundo, não tem como aceitar menos.

Se você é aliado/aliada, que bom. Por favor, venha, fique à vontade. É bom poder contar com mais pessoas em nossa causa. Vamos juntos construir um presente melhor e mais saudável para nós.

Mas eu peço que não finja ser aliado quando de fato não é. Nesse mês é comum vermos várias marcas e pessoas dizendo apoiar, mas tudo marketing, tudo estratégia para conseguir o chamado pink money. Nós queremos apoio nessas datas, mas não só; a nossa luta é constante e dura todo o ano. Então, venha, entre, seja um aliado. Mas não finja ser quem não é de verdade, pois já estamos fartos.

Quanto ao menino que foi ofendido por sugerir uma pesquisa escolar, eu espero do fundo do meu coração que ele fique bem, que se cure e não passe por isso nunca mais.

E é por isso que nós lutamos: para que ninguém passe mais por situações como essa ou qualquer outra forma de preconceito.

O direito de ser quem se é não deve ser subjugado a delírios arrogantes de egos inflados. E sobre isso não retrocederemos. Somos pessoas como quaisquer outras, tentando conviver em sociedade, acertando e errando, vivendo e aprendendo. Avançamos em nossa busca por nosso lugar na sociedade, por respeito, pelo direito de viver, e ainda há muito para conquistarmos. Não desistiremos de nossos direitos.

Ver +

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *