“Slam é lugar de fala, uma arte de resgate” – entrevista com Mariana Félix

Em entrevista à Agência Jovem de Notícias, a poeta, slammer, escritora e apresentadora comenta sobre a expressão política desse movimento e sobre seus trabalhos.

Por Mariana Assis

No ano de 1984, em Chicago, nasceu o Poetry Slam, criado por artistas e trabalhadores que frequentavam um bar sob o objetivo de compartilhar entre si e popularizar a poesia performática. Segundo Roberta Estrela D’Alva, responsável por introduzí-lo no Brasil, podemos caracterizá-lo como uma competição de poesia falada, um espaço para livre expressão poética, uma ágora onde questões da atualidade são debatidas ou até mesmo mais uma forma de entretenimento. Essa “batalha de letras”, como também é chamado, tornou-se um movimento social, cultural e artístico que tem ocupado os mais variados espaços das cidades para a expressão e apreciação de poesias.

Para além de um acontecimento poético, os Slams são espaços de resistência que permitem o compartilhamento de reflexões acerca de temas pungentes na sociedade. As performances das poesias além de partirem do princípio individual de expressão de quem a escreve, são compartilhadas sob o objetivo de despertar uma tomada de consciência e até mesmo de ação política em quem as escuta. No contexto brasileiro, o movimento toma forma na expressão e enfrentamento às desigualdades que afetam a nossa sociedade a partir de temáticas como racismo, misoginia, machismo, preconceitos, intolerância, entre outras contidas nas poesias.   

Segundo Mariana Félix, o Slam é um espaço onde a voz de quem não é escutado em diversos outros lugares na sociedade é ecoada. Esse movimento de livre expressão poética viabiliza que questões da atualidade sejam debatidas e possibilita que pessoas alcancem essas narrativas e se identifiquem.

Em entrevista à Agência Jovem de Notícias, Mariana comentou sobre o impacto do Slam em sua vida, bem como a potência que a poesia falada representa não só aos poetas, como também a quem ouve.

Confira a nossa conversa:

Afinal, o que é a poesia para você?

Poesia é tudo o que a gente sente, é tudo o que a gente vive, o resto é literatura. Na minha poesia Você já foi poesia hoje?, tem um momento em que eu digo o que é e dou vários exemplos. Entre eles, falo que poesia é a vidraça quebrada de uma instituição bancária por uma pedra que estava no meio do caminho. Poesia é o agora.

Qual o papel da Arte enquanto expressão política ao seu ver?

Para mim, em todas as artes fazemos um retrato histórico do momento que estamos passando. A Arte é sempre política.

Quando a gente aprende História no colégio, vemos que os artistas registraram o contexto em que viviam através da literatura, do teatro, das artes plásticas, da música, entre outras formas. Nada contra quem faz arte pela arte, mas sou mais adepta à ideia de que ela tem que ser um ato político, tomando posicionamento. A Arte que eu faço é extremamente política exatamente pelas coisas que eu falo.

O que o Slam, enquanto movimento artístico que tem um caráter político, representa em sua trajetória enquanto artista e mesmo enquanto pessoa?

Representa local de fala. O Slam foi a primeira vez em que eu fui ouvida pelas pessoas. Antes do Slam, minha opinião nunca importou. As pessoas não me ouviam, eu era quase invisível. O Slam me fez escutada pela primeira vez.

O Slam, então, é como um grito, uma atitude de resistência que visa o externar e o compartilhamento dos sentimentos. Por assumir esse caráter político, aqui no Brasil podemos considerá-lo enquanto um espaço de enfrentamento às desigualdades sociais? Como você acha que o Slam impacta na agenda cultural das periferias?

Quando você vai a um Slam, você ouve n tipos de narrativas feitas pelas pessoas que viveram a história que contam. Elas são as próprias protagonistas. Os poetas e as poetas escrevem sobre vários tipos de violências. Muitos amigos já estavam há tempos no tráfico e largaram tudo para escrever. Acaba sendo uma arte de resgate. É uma nova opção de vivência. Muda a vida tanto dos poetas quanto das pessoas que vão ouvir.

Para a periferia, o Slam foi e é muito importante. Está mudando muitas vidas, mudou a minha. A maioria dos poetas que participam do Slam é da periferia, o que dá voz para muita gente. Por isso falo que o Slam é local de fala, lá você ouve muito sobre a vivência dos negros, periféricos, entre outros, dando visibilidade para pessoas que eram invisíveis.

A Poesia Marginal surgiu durante o período da ditadura no Brasil. É uma ferramenta política e de sobrevivência, um grito de resistência. Como você vê a cena num possível governo do Jair Bolsonaro?

Olha, eu ainda acredito nas palavras, pois se não eu já tinha pego em armas. Mas, no atual momento político, nós, como artistas, tentamos fazer nossa parte, espero que seja o suficiente. E, caso dê errado, vamos continuar resistindo, falando o que a gente diz, sendo o que a gente quer, em nome da liberdade de todos, porque eu não pretendo deixar de fazer o que eu faço por medo. Eles já roubam tanta coisa da gente e eu não quero que roubem a minha coragem. Então, independente do resultado das eleições, eu vou permanecer fazendo o meu trabalho, tenho muita consciência do que digo e vou continuar resistindo até o final na esperança de tempos melhores.

O que te motivou a escrever a poesia em que você trata dos motivos para que não votem no Bolsonaro?

Eu fiz a poesia para tentar argumentar com as mulheres, somos a maioria no país, nosso voto vai ser bem determinante na eleição. Eu quis que as mulheres entendessem que votar nele é aceitar a violência, é como se apanhássemos e continuássemos com o  opressor. Ele fala mal da gente, debocha, silencia. Votar nele é um paradoxo. Fiz a poesia para ter esse debate com as mulheres. Ele só deixa herdeiros na política, só isso que faz.

Em se tratando das mulheres, na poesia Dói, o seu tapa me dói você chama atenção para a necessidade de refletir sobre diversas músicas que nos enquadram em lugares opressores. Quando você começou a refletir sobre essas questões?

Eu acabei fazendo essa poesia porque eu dançava essas músicas, as quais eu falo na poesia, mas nunca havia problematizado. Depois de adulta, problematizei e vi que eram músicas muito ruins. A gente está reproduzindo isso sem reflexão, então fiz a poesia para que o nosso ouvido fique atento e apurado para essas músicas que nos violentam tanto.

Como foi o processo de conscientização sobre violências tão naturalizadas? Os Slams influenciaram nele?

Foi muito valoroso, salvou minha vida. Antes eu não me considerava uma mulher negra pois minha mãe me dizia que eu era branca, por exemplo. Eu nasci parda, então eu não era nem preta e nem branca. Eu não me via como mulher negra. Mas quando comecei a frequentar saraus e os Slams, vi sobre as nossas identidades, raízes. Então, acabei me localizando nesse lugar, o que salvou minha vida. Eu acabei entendendo as várias violências que tinha sofrido e passei a não aceitá-las mais, a não naturalizá-las.

Você tem dois livros publicados: “Vício” e “Mania”. Poderia nos contar um pouco sobre eles?

O Mania eu publiquei primeiro. Decidi publicá-lo porque eu já tinha muitas crônicas, daí passei a escrever as poesias e me vi na necessidade de registrar, já que eu tinha muito conteúdo. Pensei que uni-los seria a melhor forma de deixar um registro disso.

Tive muitas dificuldades no início porque não sabia como publicar um livro. A gente é ensinada para ser uma boa esposa, entre outras coisas, mas ninguém ensina a gente a publicar um livro. Então, senti muita dificuldade, mas aprendi muito no percurso.

Com o Mania, fiz um rateio no Facebook para conseguir o dinheiro para publicar. Consegui metade do dinheiro e, a outra, tirei do bolso. No ano seguinte, publiquei Vício. Tinha uma série que eu escrevia no Facebook que se chama Sexo, Drogas e Femininos e transformei em livro também, reunindo poesias, crônicas e dissertações em formato de coluna, tipo de jornal e de revista. Em dezembro sairá o meu terceiro livro, vai se chamar Sobre Feminismo e Outros Amores.

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