Show de marionetes nos ministérios

Os ministérios técnicos escalados pelo presidente podem até ter trazido um fio de esperança no começo. Na realidade, uma sucessão de erros, mandos e desmandos marca a atuação ministerial em todas as pastas

Por Victor Capellari

A promessa de ministérios técnicos fez nascer um fio de esperança de que as decisões do governo seriam tomadas por pessoas que têm conhecimento e experiência na área em questão, levando em consideração a realidade. 

A indicação do engenheiro e astronauta Marcos Cesar Pontes para o na época Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicação (a pasta de comunicação foi transferida) reforçou essa sensação, mesmo com outros nomes de ministros não gerando a mesma sensação. 

Entretanto, a demissão do Ricardo Falcão como diretor do INPE (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais) mostrou que não seria bem assim. As decisões técnicas estão sujeitas a mandos e desmandos da realidade paralela que dominou o Brasil. 

A saga do Ministério da Saúde no enfrentamento à pandemia iria reforçar essa sensação e destruir a noção de ministérios técnicos. 

Primeiro, o ministério foi comandado por 2 médicos: Luiz Henrique Mandetta, que foi exonerado devido a desgastes de sua relação com o presidente, e Nelson Luiz Sperle Teich, que pediu demissão após o discurso do presidente contrariar o seu acerca do uso da cloroquina – um remédio sem comprovação científica contra o Covid-19 em pacientes com sintomas leves de coronavírus e da adoção de políticas de isolamento horizontal 

O especialista em logística, Eduardo Pazuello, que era o segundo no comando do ministério, assumiu a pasta como interino e depois como ministro, mantendo uma relação clara com o presidente: um manda e o outro obedece. 

O que era dito nos discursos do presidente, como a defesa da cloroquina, que foi um dos motivos da demissão de Nelson Teich, nas mãos de Pazuello, logo se transformava em ação oficial do Ministério da Saúde. 

Na época, eu fiz um vídeo falando um pouco sobre o assunto, como o sonho de ter ministérios técnicos tinha morrido, apontando que até mesmo pesquisas estavam sendo descartadas se não combinasse com a visão de mundo do governo. Esse foi o meu primeiro vídeo para o YouTube:

Um dos últimos acontecimentos, uma investigação da Polícia Federal sobre a possível omissão do ministro da saúde em relação à falta de oxigênio para pacientes com covid-19 no estado do Amazonas e erros na administração, como a “troca” no número de doses enviadas para os estados do Amazonas e Amapá, levaram a uma pressão pela mudança de ministro que depois de muita resistência foi aceita. 

A chegada do novo ministro da saúde, o médico Marcelo Antônio Cartaxo Queiroga Lopes, fez renascer a esperança de ter novamente um ministério técnico nesse momento tão crítico de enfrentamento da pandemia, no qual ultrapassamos os Estados Unidos no número de mortes por Covid.

Infelizmente seu discurso de que vai manter a postura de seu antecessor nos traz outra vez para a realidade, só existem duas posturas de ministro. 

A postura Marcos Pontes, que depois de demitir o diretor do INPE desapareceu dos holofotes, ou a postura adotada por Ricardo de Aquino Salles, atual ministro do Meio Ambiente, e Ernesto Henrique Fraga Araújo, atual Ministro das Relações Exteriores, de não só concordar com a realidade paralela como também participar e endossar. Em outras palavras, o ministro se cala ou grita em sintonia com o presidente. 

Essa pandemia, entre outras coisas, nos mostrou de forma clara e evidente que políticas públicas precisam ser feitas com base na realidade e com dados científicos. Agora só nos resta esperar e fazer pressão pelo fim da realidade paralela na qual nos encontramos e pela preservação da vida humana.

Imagem de Alex Yomare por Pixabay

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