Série: Mulheres no lar de outras mulheres: direitos, dificuldades, submissões e conquistas – 4

Mais uma latina: a exploração sob o olhar das relações migratórias sul – norte. Este é o quarto texto da série de reportagens que conta histórias de mulheres migrantes

Por Jenny De La Rosa e Pedro Neves, do Núcleo de Migrações da AJN

As migrações europeias ao continente Americano, sucessivas desde seu descobrimento, e posterior colonização, passaram por períodos específicos. Um deles, após o término da escravidão no Brasil. Momento no qual se permite e se incentiva a entrada de imigrantes europeus, principalmente portugueses e italianos, com objetivos específicos, como o apoio ao crescimento da nova República e, sistematicamente, um interesse explícito pelo que se denominou de branqueamento da população, junto a um forte tom assimilacionista, negando as raízes afro descendentes e indígenas, ou pelo menos ocultando-as.

Por outro lado, a Europa é sempre uma possibilidade de emigração para os habitantes e descendentes das mais diversas comunidades populacionais que aqui se instalaram e formaram suas famílias. Acordos com Portugal e Itália facilitam a saída dos brasileiros que desejam se aventurar no velho continente e, claro, os descendentes de Portugueses, por exemplo, que com nacionalidade portuguesa podem morar não só nesse país, como naqueles suscritos ao tratado da União Europeia.

Porém, estes direitos jurídicos nem sempre significam que as pessoas emigrantes tenham uma recepção assegurada para o seu recomeço de vida no lugar de origem dos seus antecessores, há uma espécie de amnésia sobre as antigas migrações, criando ciclos de xenofobia e exploração, mas, quando o estado coloca em exercício as políticas públicas criadas para populações de fora das suas fronteiras, parece que há um caminho que pode ser percorrido.

Na penúltima reportagem da série “Mulheres no lar de outras mulheres”, apresentamos Maria Marinheira Amaral, brasileira que se mudou para a Alemanha e encontrou no trabalho doméstico uma oportunidade de sobreviver no país europeu.

A história de Maria

Maria tem em sua família a migração muito presente: “Meu pai é um português que emigrou para o Brasil sem nada, inclusive sofreu trabalho escravo infantil. Aos 11 anos, ele trabalhava em um bar apenas em troca de comida. Por essa condição, meu pai nunca conseguiu concluir a escola, essa era a visão que eu tinha sobre a migração e os migrantes”, conta.

Muitos anos depois, ela teve sua própria experiência migratória em uma situação bem diferente de seu pai:

Eu vim para a Europa em julho de 2018 com duas graduações, falando três idiomas, experiência profissional e ainda como mãe de uma menina de 5 anos. Os oito primeiros meses eu passei sem a minha filha, justamente por causa do medo do desconhecido. Seria muito mais fácil passar por esses perrengues sozinha

Maria escolheu a Alemanha porque tinha um amigo que morava em Berlim, e lhe ofereceu um mês de hospedagem até conseguir um emprego:

Meu único objetivo era juntar dinheiro para trazer minha filha em um ambiente o mais estável possível. Na minha cabeça, isso não seria tão difícil, afinal, tenho cidadania europeia por causa do meu pai

Porém, a brasileira percebeu que a questão da língua se transformou em um dos entraves para encontrar trabalho: “Com isto, aos poucos, percebi que a documentação pouco importava”, desabafa. “Me foi oferecido um trabalho que eles chamam de trabalho negro, que é o trabalho irregular”, completa.

Costurando a exploração

Não importava se eu era alemã, portuguesa ou brasileira, foi a maior exploração que já sofri na minha vida. Nunca imaginei que alguém poderia fazer propostas como a que recebi, assim como nunca me imaginei aceitando esse tipo de proposta

Maria desembarcou na Alemanha com 300 euros no bolso, o suficiente para se manter nas primeiras semanas: “Eu me inscrevi em um site para trabalhar como babá, isso porque já havia pesquisado que uma profissional do ramo ganha em média 15 euros por hora, com registro e todos os direitos trabalhistas garantidos”, conta.

A primeira proposta que chegou no site foi de uma mulher portuguesa casada com um alemão. A mensagem dizia: “Olha, muito provavelmente você não vai aceitar minha proposta, eu vi seu currículo e experiências profissionais. Eu posso lhe oferecer 500 euros por mês para trabalhar 5 vezes por semana em uma média de 8 a 10 horas por dia”. Para Maria, o mais bizarro da situação foi ela começar o discurso prevendo que ela não iria aceitar a proposta: “Eu não tinha para onde ir, estava inclusive sem dinheiro para ir ao mercado. Por isso, aceitei”, conta.

Nesse meio tempo, ela consegue se hospedar na casa de outro amigo, já que esse salário ainda não garantia o suficiente para um aluguel.

No início, ela sempre teve horário para começar a trabalhar, mas nunca para terminar:

Eu só podia ir embora quando a mãe chegasse do trabalho, eu cuidava de uma criança de apenas 5 meses. Na primeira semana, ela estava super gentil, fez até um tradicional bacalhau português para mim. Eu me sentia bem, apesar do baixo salário

Mas aí a situação começou a mudar ainda no primeiro mês de trabalho: “O desentendimento inicial aconteceu quando eu pedi um adiantamento, porque realmente estava sem dinheiro nenhum. Ela disse que não iria me dar, mas que em vez de dinheiro me daria itens de higiene pessoal. Isso me fez sentir muito constrangida”, conta Maria.

Depois disso, aconteceu o episódio mais constrangedor de sua vida: “Eles não tomam água da torneira, mas sim água com gás. Naturalmente, ainda mais por ser verão, eu tomava a água, não via problema nisso. A dona da casa, então, percebeu isto, e veio falar comigo. Ela me mostrou uma jarra, bem bonita inclusive, e disse que deveria tomar água da torneira“, desabafa.

Para mim foi um desaforo, muito além de beber ou não água da torneira, eu estava sendo desconsiderada. Por rebeldia e indignação, eu não quis aceitar isso, até porque não era uma família humilde, tratava-se de profissionais renomados na Alemanha. Moradores de uma cobertura em um dos bairros mais chiques de Berlim. Ver a forma que me tratavam, o salário que ofereciam, tudo que estava acontecendo, é onde a gente vê a luta de classes da forma mais gritante, se eu posso explorar, por que não explorar? Eles poderiam me registrar, pagar melhor, seguir a lei, mas viram a oportunidade de explorar alguém

O lado emocional lhe machucava muito, ainda mais por estar sem sua filha e procurando formas de se estabilizar para dar as condições para ela ir: “Enquanto ela estava no Brasil sendo cuidada por minha mãe, eu cuidava do filho da colonialista, é assim que eu me sentia”, diz. “Imaginei a índia brasileira, que recebeu os primeiros espelhos dos portugueses, que deixou de defender a terra por causa da novidade, e aí vocês conhecem a história”, completa.

Ela foi demitida depois desse episódio da água. Uma semana depois do ocorrido, voltou à casa da família para receber o salário que lhe deviam, mas recebeu apenas 350 euros: “A justificativa dela era que foram descontados 150 euros das águas que tomei”, diz.

Por não ter contrato, Maria não tinha nada a fazer e reivindicar seus direitos, o sonho de alugar um apartamento e levar sua filha adiou-se.

A política pública, do papel à praxis

Depois do episódio lamentável, ela conseguiu um trabalho como babá pelo governo alemão por meio de um programa que oferece oportunidades para mães solteiras: “Eu tenho holerite que garante todos os meus direitos, além de algumas facilidades burocráticas. Ou seja, uma experiência completamente diferente”, compartilha.

Este emprego lhe garantiu vários auxílios, como plano de saúde, assistência para mobiliar seu apartamento, entre outros: “Com a estabilidade que o estado garante, até mudei o certo preconceito que eu tinha a respeito dos alemães, eu descobri o lado mais humano dessa cultura e está sendo bacana”, diz. “Eu senti muito na pele esses dois lados da moeda, o trabalho irregular, com alguém que nem cumpre a palavra, e o trabalho regularizado, com todos os direitos garantidos”, completa.

A escola, uma experiência intercultural

Oito meses depois da sua chegada na Alemanha, ela finalmente conseguiu levar sua filha e colocá-la em uma escola bilíngue:

Eu era professora de espanhol no Brasil e, coincidentemente, uma escola perto da minha casa aqui em Berlim era bilíngue: alemão e espanhol. Para mim, esse lugar era o paraíso. Lembro de passar na frente e imaginar minha filha estudando lá

Ela fez a inscrição na escola pública logo que chegou na Alemanha, em julho de 2018, antes mesmo de conseguir levar a filha: “Nessas escolas bilíngues, a maioria das professoras são latinas, o salário das professoras é um dos mais altos do mundo, ainda assim, faltam professores. Com isso, muitas professoras são latinas. Por exemplo, a diretora dessa escola é cubana, a professora da minha filha é argentina e outra é boliviana”, compartilha. “Aqui as latinas nos juntamos e nos ajudamos, há forte rede de apoio entre a comunidade”, completa. 

Hoje, sua filha já canta, faz piadas em espanhol e tem muitas amigas de todos os cantos do mundo. O interessante é que essas escolas são procuradas por famílias também alemãs, gerando diversidade e criando um ambiente multicultural. São escolas de período integral, onde fazem todas as refeições, com alimentação orgânica. 

O direito de ir e vir

Além dessa realização, Maria está esperando um filho, vai se casar em agosto e sua filha está sendo alfabetizada em três línguas:

Eu não tenho expectativa nenhuma de voltar ao Brasil, gosto muito de pensar que eu tenho a possibilidade de morar em diversos países. Outro motivo são as últimas eleições presidenciais, eu quis fugir do Brasil por ser um ambiente muito hostil para a liberdade que eu faço questão de viver, especialmente com a minha filha

Maria valoriza muito a diversidade em Berlim, as pessoas de diferentes partes do mundo que conheceu e a ótima relação de convivência:

A cidade criou esse ambiente com vários nichos, em harmonia, meus próprios preconceitos caíram por água abaixo. Alguns amigos brasileiros, inclusive, vieram como refugiados e agora são residentes. Diferente do sul do país, que existe muito preconceito e xenofobia, a capital é bem agregadora

A cidade alemã tem muito vivo o passado nazista, com placas que lembram os nomes dos judeus que foram mortos no genocídio, outro fator que chama a atenção de Maria: “Eu sou descendente de judeus, e é impressionante ver essa memória: há velas, flores, e a frase ‘não esquecer para não repetir’ em todo canto, a memória está viva, eles mantem isso vivo”, compartilha.

Para finalizar, Maria deixa uma reflexão que fez e faz constantemente na Alemanha:

Se o lugar onde você nasceu não te permite ser o que você é, não tem porque ficar. Às vezes, a migração denuncia aquilo que está calado nas fronteiras do estado, e isso é fundamental para que realidades duras possam mudar.

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