Série: Mulheres no lar de outras mulheres: direitos, dificuldades, submissões e conquistas – 3

No terceiro texto da série, a história positiva de Yucunda Carmona, a mexicana que conheceu o mundo cuidando de crianças

Por Jenny De La Rosa e Pedro Neves, do Núcleo de Migrações da AJN

Segundo a Organização Internacional do Trabalho (OIT), o trabalho doméstico está configurado como o cuidado de pessoas e a realização de tarefas de manutenção dos lares. Uma das diferentes profissões que se enquadram neste grupo são as babás, trabalho destinado principalmente ao sexo feminino e que têm como origem a escravidão e servidão, muito ligado à conquista européia das Américas.

Mulheres indígenas e afro descendentes até os dias de hoje representam o número mais abrangente neste setor trabalhista, e isto acentua a discriminação e a precarização de uma atividade que, no Brasil, é legislada pela LEI COMPLEMENTAR Nº 150, DE 1º DE JUNHO DE 2015.

Porém, nem sempre  a existência da lei significa a aplicabilidade da mesma, marginalizando mulheres e mães na manutenção de uma desigualdade que, dentro das migrações internacionais, se evidencia nas denominadas cadeias globais de cuidados. As mulheres geralmente se movimentam de cidades ou países pobres para as grandes metrópoles ou zonas de alto poder adquisitivo. De forma geral, decretos, leis e regulamentações difíceis de serem aplicadas nos diferentes países não chegam a estas trabalhadoras imigrantes, as tornando vítimas de exploração e violência.

Mas, acima da lei, está a possibilidade de se deparar com humanos que querem oferecer o bem. Isso pode parecer uma utopia, mas às vezes pode acontecer. Neste contexto, trazemos a terceira história da série “Mulheres na casa de outras mulheres”, que demonstra como uma relação de respeito entre empregador e empregado pode sim fazer de uma atividade discriminada, uma profissão e uma oportunidade de desenvolvimento pessoal.

Yucunda Carmona, a mexicana que conheceu o mundo cuidando de crianças

Esta história positiva aconteceu com Yucunda Hernández Carmona, nascida em Las Chapas Norte, no Município de Libres, no México:

Esta profissão me deu vários prazeres, o principal foi compreender meu papel na criação de crianças e como isso influenciou no crescimento e amadurecimento delas. Além disso, tive a oportunidade de conhecer o mundo, diferentes culturas e crescer individualmente

Apesar de sua vida ter se transformado como cuidadora de crianças, profissão que exerce há 35 anos, Yucunda chegou a cursar veterinária:

Venho de uma família humilde e, sendo a mais velha entre seis irmãos, tive a chance de chegar ao início da universidade. Porém, eram tempos difíceis por causa da minha renda familiar muito baixa, então parei de estudar ainda no início do curso

A caminhada

Depois parar a faculdade, Yucunda decidiu que ia tentar a vida na capital e migrou para a Cidade do México. Na época, ela tinha apenas 16 anos e conseguiu uma oportunidade de emprego como babá de três crianças: “Percebo que ganhar dinheiro significava ser capaz de ajudar meus pais a ter uma vida melhor”, conta.

O que a jovem Yucunda não imaginava é que ficaria trabalhando nessa casa por 15 anos, sempre dando seu melhor e, acima de tudo, considerando as crianças como seus próprios filhos. Além disso, foi nesse período que conheceu seu parceiro de vida.

Com as três crianças crescidas, a mexicana recebeu a notícia que uma família precisava de uma babá para cuidar de duas meninas e, sem pestanejar, foi à entrevista de emprego e, no dia seguinte, começou a trabalhar. Nesta casa, ela permaneceu por oito anos e teve a primeira oportunidade de viajar para fora de seu país, ela conheceu Amsterdã, na Holanda, e Istambul, na Turquia: “Conheci a cervejaria Heineken, as luxuosas lojas de diamantes, o incrível museu de Vincent Van Gogh”, conta.

Depois desta primeira experiência, as viagens não pararam. Yucunda conheceu e morou no Brasil, EUA e Canadá, entre outros:

Tive muita sorte em fazer disso uma verdadeira profissão. Sou satisfeita de todas as formas, nenhuma outra profissão me deixaria sentir tão completa. É muito valioso pelo mero (simples) fato de deixar uma memória em cada pessoa que conheci durante minha vida

Os direitos das trabalhadoras domésticas

Dada tamanha experiência na área e tendo conhecido trabalhadoras domésticas pelo mundo, o que chama a atenção de Yucunda é como alguns países não reconhecem sua profissão:

No México, ter o status de emprego era muito distante, porém, conhecendo outros países fui reconhecendo que ser babá é sim um trabalho digno e que as trabalhadoras domésticas têm seus direitos

Segundo ela, apenas em 2019 que seu país conseguiu fazer um acordo para registrar, oferecer garantias em relação à saúde e acesso a uma aposentadoria modesta. Ela desabafa:

Por muitos e muitos anos isso não era possível. No México, trabalhar em uma casa, de qualquer maneira ou forma, sempre foi visto com desprezo (para não dizer o pior) e, portanto, muitos de nós somos maltratados, como se houvessem seres humanos de primeira e segunda classe

Seu grande sonho é que esta visão deixe de existir e que todos os trabalhadores domésticos sejam valorizados com garantias e, o mais importante, respeito: “É o mínimo. Precisam respeitar a nossa integridade e que sejamos vistos por uma perspectiva digna de sermos reconhecidas”, diz Yucunda.

Leia também os dois primeiros textos da série:

No primeiro texto, conhecemos Natividad Obeso, mulher migrante peruana, fundadora e presidente da Associação de Mulheres Migrantes e Refugiadas na Argentina (AMUMRA), organização que protagonizou a aprovação da Lei de Migrações na Argentina e liderou o GOR na América-latina, para entender a importância do movimento e a realidade migratória no sul global com o coronavírus.

No segundo texto da série de reportagens, conversamos com Diana Soliz, diretora do Sindicato de Trabalhadores Domésticos do Município de São Paulo (STDMSP), a primeira migrante sindicalizada por aqui.

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1 Comentário

  • ¡ Muchas felicidades a Yucunda ( Yoko, de cariño ) ! … tuve el gusto y el honor de conocerla a ella y a su esposo Jaime en Sao Paulo, Brasil … es una mujer ejemplar que ha sabido desarrollar su potencial de aprendizaje, y adaptación a cualquier circunstancia … para ella no existen los limites.

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