Seminário Jovens e Trabalho reúne pesquisadoras, coletivos e jovens no Sesc Bom Retiro

| Por Maria Soares e Wesley Matos, da Agência Jovem de Notícias de São Paulo |

Qual é o lugar do trabalho nas trajetórias de formação de adolescentes e jovens no Brasil?

Essa foi a temática da primeira mesa do seminário Jovens e Trabalho: Dilemas, Invenções e Caminhos, que aconteceu no Sesc Bom Retiro nos dias 13 e 14 de setembro. Com uma agenda ampla, o evento trouxe organizações e coletivos que atuam junto às juventudes, além das maiores pesquisadoras do tema no Brasil.

O painel “Jovens, trajetórias de formação e trabalho” contou com a participação de Maria Carla Corrochano, doutora em Educação pela USP e responsável pela elaboração da Agenda Nacional do Trabalho Decente para a Juventude, e da cientista social Regina Novaes, uma das principais pesquisadoras das juventudes no Brasil.

Segundo as pesquisadoras, a falta de direitos trabalhistas que dialoguem com as juventudes e as entendam em suas diversidades, somado à decisão do segundo setor por não contratar adolescentes em situação de jovem aprendiz, resultam na ascensão do trabalho irregular e na precarização do trabalho para as juventudes, que acabam caindo na informalidade.

“Os jovens de 15 a 17 anos são os que mais trabalham ilegalmente. São poucos os que estão inseridos em situações de aprendizagem ou de estágio. Sobre este grupo, recaem situações precárias de trabalho, predominando o trabalho sem carteira e o não remunerado”, conta Regina Novaes, lembrando da ainda forte presença do trabalho escravo no Brasil.

A desigualdade geracional

Desamparados de políticas efetivas para inserção no mercado de trabalho e de escolas que dialoguem com a realidade do jovem trabalhador, meninos e meninas que não conseguem trabalhar são taxados de “geração nem nem” – nem trabalham, nem estudam. Essas tipificações geracionais, muitas vezes reforçadas pela mídia, reduzem de forma simplista as condições juvenis e resultam em políticas pouco inclusivas e representativas.

Assim, o mundo do trabalho é marcado pela desigualdade geracional. Enquanto jovens permanecem sem trabalho descente, por conta da falta de políticas públicas de profissionalização e inserção e da pouca experiência, trabalhadores mais velhos permanecem em seus postos, consolidando a hierarquia geracional.

O Estatuto da Juventude, aprovado em 2013, é um marco legal importante na luta pelos direitos das juventudes, mas ainda apresenta lacunas que impactam diretamente o direito à profissionalização, ao trabalho e à renda, garantido legalmente pelo documento.

Hoje, deve-se pensar as juventudes considerando sua pluralidade, suas diversidades. Mais do que nos perguntar o que querem os jovens, devemos ouvi-los. “É preciso, além dos acordos governamentais e das necessárias mudanças na mentalidade do empresariado, ouvir também os coletivos e organizações juvenis, que já andam experimentando novas práticas”, disse Regina.

Ela também atentou o público ao fato de que ser jovem na atual conjuntura é enfrentar diversos medos, tais como o medo de não se conectar, o medo de morrer e o medo de sobrar, este último fortemente conectado ao desemprego. Em sua tese, Regina nos mostra que esses medos são grandes marcas das juventudes brasileiras, e variam em intensidade de acordo com o meio em que o indivíduo está inserido.

Como consequência da insegurança e desamparo das novas gerações, vemos também um largo crescimento de doenças e distúrbios mentais e afetivos, como a depressão e a ansiedade, cada vez mais presentes em todos os contextos sociais e econômicos. Assim, sendo o trabalho um tema latente que mobiliza e preocupa milhares de jovens no Brasil, deve ser discutido não apenas no meio acadêmico, mas compartilhado e atribuído a toda sociedade brasileira.

 

Este texto é resultado da cobertura educomunicativa do seminário Jovens e Trabalho: Dilemas, Invenções e Caminhos, realizada por adolescentes e jovens do projeto Agência Jovem de Notícias, em parceria com o Sesc São Paulo. O programa Agência Jovem de Notícias em 2017 é realizado pela Viração Educomunicação, em parceria com o Fundo Municipal da Criança e do Adolescente São Paulo.

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