São Paulo Território Digital debate o feminismo na internet

Feministas de diversos lugares da cidade reuniram-se para debater questões de gênero, classe social e o ciberativismo

 

Convido quem está fazendo essa leitura a uma reflexão que não precisa levar mais do que um minuto: quantas vezes, ao longo do dia, você recebe no seu feed de notícias, um título que traz mulher e violência na mesma linha? Uma, duas, três vezes? Mais. Sejam elas expostas ou não, a violência física, psicológica e verbal contra a mulher existe e precisa de mais espaços para ser vista, ouvida e lida. Um desses lugares é a internet, que além de dar visibilidade diariamente para elas, promove encontros, debates, passeatas, manifestações, diálogos e mais uma série de ações que contribuem para o empoderamento feminino.

Não é iniciativa das mulheres deste século fazer com que a sociedade as enxergue como igual à figura masculina. No Brasil, o movimento feminista teve início no século XIX e era voltado para questões como o direito ao voto e à vida pública. Já no século XX, com o nascimento da Federação Brasileira pelo Progresso Feminino, o objetivo era lutar pelo sufrágio feminino e pelo direito ao trabalho sem a autorização do marido. É errado, pois, dizer que as mulheres acordaram, afinal elas nunca dormiram. As lutas por direitos iguais estiveram presentes, inclusive, na ditadura militar no Brasil. Os jornais Brasil Mulher (1975-1979), Nós Mulheres (1976-1978) e Mulherio (1981-1987) junto às mulheres da época, lutavam pelo direito do prazer feminino e contra a violência sexual, além de serem contra a ditadura.

Estes determinados períodos são chamados de ondas. A primeira onda, nascida no século 19, a segunda, em 1970 e, em seguida, a terceira, que começa nos anos 1990 e traz, ao longo do tempo, novos canais de comunicação e o chamado ciberfeminismo (movimento iniciado pela experimentação do feminismo e a arte visual). Organizado pela Unesco, em 1995, o Simpósio Internacional Sobre a Mulher e Os Meios de Comunicação, serviu para que o espaço da internet fosse exigido oficialmente pelo movimento feminista, que criava cada vez mais consciência do dever político na esfera da comunicação. A partir daí, o feminismo passa a perceber, no mundo virtual, um lugar de atividades e expressões coletivas, que eram desconhecidas até então. Com novos significados, uma abrangência maior de espaços alternativos e com maior visibilidade, o feminismo vê a possibilidade da maior divulgação e demandas diferentes daquelas que a mídia tradicional costuma mostrar.

Ainda no ano de 1995, aconteceu a quarta Conferência da Mulher, em Pequim, na China, e o resultado foi um acordo com o objetivo de alcançar a igualdade de gênero e eliminar a discriminação contra as mulheres e meninas em todo o mundo, além de ser exposta a necessidade de estimular e reconhecer as redes de comunicação das mulheres. O documento chamado “Declaração e Plataforma de Ação de Pequim” é um roteiro para o avanço de igualdade e do empoderamento das mulheres nos países. Encontros como este levaram a muitas iniciativas e possibilidades para a criação de redes feministas na internet, dando possibilidades no avanço dos processos tecnológicos, para que a ampliação dos movimentos políticos e de gênero acontecessem de fato.

A Roda #5 do SP Território Digital, aconteceu no dia 12 de julho de 2016, no prédio da Prefeitura de São Paulo e trouxe o tema “feminismo digital” para ser debatido pela população, em sua maioria, feminina. O evento abre espaços para análises críticas e colaborativas sobre a cultura digital na cidade, com o objetivo principal de evidenciar processos insurgentes e caminhos possíveis. Dessa forma, a discussão mediada por criadoras de conteúdos feministas na web, foi feita a partir de pontos que precisam ser discutidos além do mundo virtual. Assuntos e questões precisam ser levantados coletiva e presencialmente, para que outras demandas possam surgir e serem, da mesma forma, discutidas.

feminismodigital
Mulheres no evento “Feminismo Digital”

Um desses pontos é o ódio ao feminismo. Por que ele existe? Talvez porque venha trazer à luz assuntos esquecidos pela mídia e pela sociedade sobre a população que mais sofre exclusão social e preconceito: mulheres, LGBT, negros, pessoas com deficiência. A ideia de que as mulheres querem ter mais poder que o homem também pode ser um fator crucial neste pensamento, quando, a verdade, a luta é pela igualdade. De forma inconsciente, as mulheres procuram ocupar o menor espaço possível, enquanto os homens ocupam tudo que estiver disponível, e isso não é natural.

Os discursos e ações são frutos de uma estrutura cultural que coloca a mulher como frágil, sensível e inapta para realizar funções de chefia, por exemplo. Baseando-se em casos como este, a mediadora Renata Teixeira, criou a página Não Tem Conversa no Facebook. “A nossa percepção é a de que todos os espaços públicos, rodas de conversas, palestras, são, majoritariamente, masculinas. O sistema funciona como uma rede, trazendo homens brancos, nas mesmas formações de liderança. Nosso incômodo partiu daí e passamos a questionar a falta das mulheres em espaços que só os homens ocupam, que apenas eles têm voz”. Assim, o grupo criado na internet é usado para marcar encontros de mulheres para irem até o local da palestra e lá questionarem a ausência da figura feminina nos discursos. O “Não tem Conversa” foi inspiração para outra página de sucesso, o “Nem Tenta Argumentar” que trata de questões raciais.

A mulher é oprimida pelo machismo. A mulher negra é violentada também pelo racismo e a mulher negra e pobre sofre com a violência que a segrega por sua condição social, além da sua cor e seu gênero. O feminismo negro é fundamental para encarar as diferenças panorâmicas e para suprir as necessidades, que antes eram ignoradas. A agente da São Paulo Aberta, Regiane Soares, descobriu-se feminista negra há alguns anos ao ler escritoras do movimento negro. “Sempre fui de movimentos sociais, mas não do movimento negro. O feminismo negro pega o conceito interseccional para poder entender a estrutura social. Daí você entende que classe está ligado a raça e que raça está ligada a questão do machismo, gênero, sexualidade. Quando uma mulher é preta e periférica, não tem como falar de apenas uma dessas opressões. Quando eu descobri o feminismo negro, descobri que uma coisa está ligada a outra. A classe no Brasil tem cor e ela é preta. E quem é a base da pirâmide? A mulher”. A agente também alerta para os papeis da mulher nas redes sociais, “é preciso relatar como você é tratada nos espaços públicos. Ao invés de postar uma selfie, conte como foi recebida no SUS (Sistema Único de Saúde), por exemplo”.

 

Mídia e machismo

“Padrasto apaixonado mata enteada”, “Homem comete crime passional por não aceitar fim de relacionamento”. Manchetes como esta são encontradas diariamente em jornais sensacionalistas impressos, virtuais e televisivos. O caso Eloá, ocorrido em 2008 foi noticiado amplamente pelos meios midiáticos de uma forma diferente que seria hoje em dia. Caso clássico de feminicídio, mas que nenhum momento foi visto por esse ângulo. Mais do que isso: os jornais enalteciam Lindemberg Alves, romantizando o cárcere privado que resultou em suicídio. A criadora do curta Quem matou Eloá, Lívia Perez, viu os noticiários de uma forma que a impressa não mostrou, e seu filme tenta desconstruir a visão que foi deixada na época. “Fiquei muito chocada com a repercussão do crime e a forma como a reportavam. E eu não encontrava opiniões como a minha. Era como se eu tivesse a opinião mais bizarra de todas. Quando encontrei um texto na Analba Teixeira, militante feminista, negra e nordestina, que trazia todos os pontos que eu já havia me identificado, resolvi formar a ideia, mas não via como viabilizar. Afinal, eu iria falar mal das principais emissoras do país e de um assunto que não iria interessar a mídia. Eu precisava falar disso. Foi quando surgiu o edital “Carmen Santos Cinema de Mulheres” e fui contemplada. As discussões de racismo, feminismo, sociais, precisam ser passadas pela mídia, que é concentrada, conservadora, racista e machista”. O curta que conta a história de Eloá Cristina ganhou repercussão primeiro fora do país, para só depois ganhar um pouco mais de força aqui no Brasil.

Diferente do caso de Eloá, ocorrido há 8 anos, o estupro coletivo no Rio de Janeiro ganhou força e espaços para discussões, até pela forma que foi noticiado. “Suposto estupro” era a frase que aparecia nos jornais mesmo com todas as evidências que havia acontecido um caso de violência sexual. A partir daí, foram criados diversos movimentos virtuais, que resultaram em passeatas, manifestações e discussões acerca do assunto. Um desses movimentos é o 33 Dias Sem Machismo, criado por Gabriele Costa. Ela diz que o machismo também recai sobre as mulheres, que se veem cercada de opiniões culturais do que é ser mulher. “Lançamos desafios diários para que as pessoas começassem a reparar atitudes sutis impregnadas de machismo. Em um dia, 1 milhão de pessoas haviam sido impactadas com o primeiro desafio. Mulheres da América Latina se solidarizaram e mandaram seus relatos de violência doméstica e estupro. Professoras usaram os desafios para aplicar em sala de aula, empresas aderiram também de forma espontânea”. Para Gabriele, encontros como este que o São Paulo Território Digital propõe, servem para formar alianças e se fortalecer ainda mais. Ao final da campanha, 10 milhões de pessoas haviam sido atingidas.

O abuso é algo naturalizado e bastante comum. “Natureza Feminina” não existe. São construções sociais, frutos de processos históricos e culturais, que é preciso desconstruir todos os dias. Inseridos de forma sutil, ganham visibilidade na mídia quando um caso é amplamente divulgado como o caso do cantor Biel, de 21 anos, que além de reproduzir discurso machista para uma jornalista, carregava mais falas de racismos, preconceitos, homofobia e transfobia. Há um Biel em cada esquina e é preciso continuar na luta, no mundo virtual e real, para que um por um se desconstrua.

 

Jornalista de coração pela Universidade São Judas Tadeu, a Adriele precisa explorar os assuntos cada vez mais e continuar tentando descobrir o motivo de seu coração pulsar cada vez mais forte com as pequenas coisas da vida.
Tenta explicar em palavras para as pessoas o que está acontecendo cotidianamente e é por isso que escrever é seu maior desafio.

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