Saindo das redes virtuais

Por Socorro da Costa e Maurício de Paula

SÃO LUÍS, MA – O cenário das grandes manifestações no Brasil estimulou sua realização em outras cidades e capitas. Em São Luís, MA, as últimas semanas de junho foram marcadas pela presença de milhares de pessoas nas ruas, não para celebrar os jogos da copa das confederações, mas sim para pressionar os governantes para o bom planejamento e uso dos recursos públicos.

Uma característica destas manifestações é que todas elas contam com a mobilização de seus participantes pelas redes sociais; o curioso é que muitas manifestações em São Luís já haviam sido organizadas por este mecanismo, mas todas com números inferiores a 500 participantes, embora houvesse muitas confirmações no evento virtualmente.

Configurado como um movimento autônomo dos cidadãos que estão cansados com o descaso do poder público, as manifestações tiveram um caráter suprapartidário, uma pulverização de causas que abordavam questões locais e a nível nacional, entre as quais: transporte público, mobilidade urbana, fim da PEC 37 e 33, da cura gay, saúde, educação, transparência na gestão e administração pública, fora Sarney, além de outras reivindicações. Todas demonstradas através de cartazes e refletindo muito a cultura do virtual, com hashtags ou referências a sites.

Em São Luís, a primeira manifestação foi chamada de “Vem Para Rua” e contou com a participação de 20 mil pessoas. A segunda, “Acorda Maranhão”, contou com 30 mil e a teceira, “São Luís Acordou”, levou às ruas cerca de 5 mil pessoas. Acredita-se que o cenário brasileiro em que outras capitais também estavam reivindicando direitos tenha contribuído para motivar as pessoas a deixarem os espaços virtuais e virem às ruas.

“Há extrema insatisfação com a situação social e política do país, do ponto de vista social a população quer serviços públicos de melhor qualidade. Não adianta as pessoas terem emprego e salário se a vida nas cidades não tem qualidade e as pessoas não podem desfrutar de serviços públicos a contento. Essa insatisfação tem como alvo a classe política por que a população identifica que são os gestores públicos que não cumprem seu papel de planejar e administrar as cidades como deveriam e que, pelo contrário, promovem uma farra com o dinheiro público. A copa das confederações e o aumento de vinte centavos na passagem em São Paulo apenas agravaram esse quadro”, diz o cientista social Bruno Rogens, mestre em ciências sociais e professor da Universidade Estadual do Maranhão.

Bruno destaca ainda por que essas manifestações tomaram grandes proporções: “as manifestações do Fora Collor foram insatisfações represadas de quem lutou contra a ditadura e acabou vendo José Sarney como primeiro presidente civil assumindo a presidência depois do golpe de 1964, portanto, eram manifestações contra o processo de transição democrática mal feito no fim dos 80 e inicio dos 90. As manifestações do junho de 2013 foram manifestações de quem já viveu 25 anos de redemocratização e acha que os avanços que o país conquistou foram insuficientes. A estabilização monetária e a distribuição de renda foram importantes mas insuficientes para que se pudesse afirmar que os direitos de cidadania no Brasil estavam em seu pleno vigor, portanto são manifestações por um lado pelo aprofundamento da democracia e por outro de questionamento das próprias instituições representativas que mostram um profundo desgaste no país”.

Outro elemento interessante deste movimento é o fato de tirar de casa pessoas que nunca estiveram em manifestação deste caráter. É o caso de Leandro Almeida, 24 anos, universitário, que diz: “minha primeira impressão foi de que o povo foi incentivado a partir das manifestações de São Paulo e Rio de Janeiro, mas além de agregrar os pedidos nacionais, as insatisfações regionais também foram lembradas”.

Subsequente às manifestações que levaram multidões para as ruas, eclodiram na cidade diversas manifestações menores, nas comunidades periféricas e na zona rural, onde estas apresentavam seus problemas particulares. Com essas pressões, o poder público municipal abriu um canal de diálogo, onde os manifestantes apresentaram suas reivindicações e posteriormente a prefeitura apresentou propostas e encaminhamentos para a solução de algumas problemáticas. É prematuro ainda especular o que de fato mudará, mas enquanto essas mudanças não se tornam concretas a população continua nas ruas, mesmo que em números menores.

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