Rio é ouro em ‘desmobilidade’ urbana

O lugar que abrigou a última edição dos Jogos Olímpicos faz com que os cidadãos lutem sem conseguir o direito à cidade 

Por Vitória Rodrigues de Oliveira

Há um ano e meio, vivi um dos meus grandes momentos antes da Organização Mundial da Saúde declarar a situação de pandemia de coronavírus: pela primeira vez, pude conhecer uma cidade grande além da minha. Graças ao Chama na Solução, projeto do UNICEF implementado pela Vira (inclusive foi lá que conheci essa ONG maravilhosa!), fui botar meus pés em São Paulo.

Como a formação acontecia no MobiLab, eu tinha que pegar metrô, né? O choque já começou quando vi que o bilhete era muito mais barato que no Rio, mas o bagulho foi chocante mesmo quando me deparei com o mapa de linhas e estações.

Ao contrário de SP, no Rio de Janeiro tudo o que temos é uma coisa reta:

Mapa do metrô do Rio de Janeiro

Desde que pisei na capital paulista, fiquei ainda mais pensativa sobre o meu lugar. Peguei metrô muito lotado e filas inacabáveis por lá, assim como há no Rio, e depois de tanto pensar, cheguei à complexa (e óbvia) decisão de que o metrô do Rio nos leva de lugar algum até lugar algum.

Na segunda cidade mais populosa do país, um transporte metropolitano de massas se restringe a apenas a zona norte e a zona sul da cidade do Rio. Ponto. Se você mora em Campo Grande, na zona oeste da cidade, e trabalha no Flamengo, provavelmente vai ter que se enfiar na lata de sardinha que são os trens da Supervia, estes que possuem altos intervalos de tempo, vagões sucateados e falta de segurança. Chegando ao metrô, pagar o belo preço de R$5,80, uma das maiores tarifas do país.

Em outro cenário, caso trabalhe na Barra da Tijuca, você provavelmente será refém do BRT. Se você não o conhece, de forma resumida, é um sistema de transportes via ônibus biarticulado, que percorre alguns pontos da cidade do Rio através de uma faixa exclusiva de trânsito. Esse sistema, assim como os outros, facilita as nossas vidas, sim, mas possuem problemas como falhas, buracos na via, superfaturamento, calotes e tantos outros.

Segundo uma pesquisa feita pelo aplicativo Moovit, o Rio tem a pior mobilidade urbana entre as cidades analisadas. 10% dos entrevistados gastam mais de duas horas de suas vidas no transporte público, e quem mora na Região Metropolitana fica, em média, 67 minutos se locomovendo. 

Mas bem, voltando pro momento de imaginação, bora pensar que você mora em Belford Roxo, Baixada Fluminense, e tem que trabalhar na Cinelândia, região central do Rio. Só que não basta você morar em Belford Roxo, você mora bem longe da estação de trem, que é o único transporte sob trilhos que chega por aí.

Pra poder ganhar a sua grana, você vai ter que pegar um ônibus pra chegar até a estação, um trem lotado para chegar até a estação de metrô mais próxima e então embarcar num vagão da SuperVia. Até aí, você já gastou muito tempo, e fica cansado, desmotivado e sem vontade de trabalhar. Mas a sua empresa pouco se importa com a saúde do trabalhador. Seu rendimento cai, te demitem, daí você fica sem emprego e sem comida na mesa.

Tudo é bem ruim. Isso porque eu nem falei de quem precisa pegar Barca ou da situação de quem mora fora da região metropolitana carioca.

Um ponto muito crucial a se pensar é a gente olhar bem pra como a (des)mobilidade urbana afeta quem trabalha, quem estuda, quem precisa se locomover. No meio desse ano, a Supervia resolveu aumentar o valor da tarifa de R$4,70 para R$5,90. São 80 centavos a mais, um aumento que compromete 25% da renda de quem recebe um salário mínimo.

Sei que não é legal comparar São Paulo com Rio: mesmo a gente ficando atrás na quantidade de população se compararmos com os paulistas, não é a mesma coisa, as necessidades não são as mesmas e o próprio metrô de quem fala “ô, meu” não suporta a própria quantidade de demanda. Mas eu te pergunto: como que pode, um lugar como o meu, que abrigou uma Copa do Mundo e a última edição dos Jogos Olímpicos em um curto espaço de tempo te levar de lugar algum até lugar algum?

Essa pergunta é bem fácil de ser respondida.

Pouco choca quando os administradores das empresas de transportes metem a mão no dinheiro do povo, com a falta de integração entre modais, superfaturamento de obras, sucateamento da infraestrutura e tantas outras coisas que nem consigo listar por serem muitas.

No meio da pandemia de Covid-19, com o distanciamento social sendo uma das medidas essenciais para evitar a contaminação do novo coronavírus, as pessoas são espremidas, todas juntas. É como se fosse uma festa do vírus, um prato cheio para que ele consiga infectar e matar os mais vulneráveis, que são os mais pobres. Isso inclui a minha família, e quem sabe a sua que agora lê isso aqui.

Foto de Yan Marcelo Carpenter, que viralizou nas redes sociais nos últimos dias

Linhas ‘somem’, janelas são atingidas por pedras e tiros. Você não tem segurança.

No meio dessa guerra pelo direito a se locomover, de ter acesso à cidade, as pessoas ainda brigam com elas mesmas. É uma correria pra sentar depois de um dia cheio de trabalho, uma gritaria para que homens não usem o vagão feminino, um estresse para que parem de ouvir uma música ensurdecedora.

Tudo isso faz com que a gente se torne, cada vez mais, uma sociedade adoecida.

É curioso pensar que o acesso aos transportes públicos seja um problema no Rio, algo bem falho, sem planejamento. De fato, é. Faz com que a gente fique pior, passando mais tempo sem a família e tendo sempre que dar o melhor no trabalho para que você não termine no setor de Recursos Humanos.

Mas, olhando bem e pensando com cuidado, tá tudo sendo muito bem executado, na verdade. Os gestores tentam evitar problemas, sim, mas fazer com que os mais pobres passem por eles faz parte da essência da gestão, do planejamento, do problema.

Algum dia, espero que São Paulo tenha um transporte melhor, assim como o Rio de Janeiro, e todo cantinho nesse planeta. Conseguir andar minimamente bem de ônibus, trem, metrô, barca, o que seja, significa que você consegue acessar espaços de lazer, esporte, cultura. É disso que a gente precisa.

O direito à cidade não é apenas sobre a gente conseguir acessar recursos urbanos com qualidade. Que a gente consiga mudar essa realidade coletivamente e construa cidades melhores para todes, onde viver [bem] não seja sinônimo de mercadoria.

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1 Comentário

  • Excelente reportagem, é um absurdo que o RJ tenha o transporte público mais caro do país e seja ao mesmo tempo um dos piores!

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