Quiseram tocar o céu, mas terminaram no chão

No meio de uma guerra sem precedentes com uso de arma de fogo, as crianças cariocas morrem vítimas do descontrole das autoridades de segurança pública.

Por Vitória Rodrigues de Oliveira

Imagine que você foi convidado a visitar a cidade maravilhosa do Brasil: o Rio de Janeiro. É tudo lindo, é tudo maravilhoso. As ruas estão limpas, as coisas estão funcionando e a vista do seu quarto é de frente para o mar. As áreas verdes tão próximas, os mais conceituados centros culturais bem na palma da sua mão. A elite intelectual carioca está próxima de você. Precisar se locomover em transportes públicos lotados é algo fora de cogitação. Você, claramente porque tudo é claro, está na zona sul.

E as crianças? Onde está o chamado futuro da nação? Cadê o tal do progresso?

Longe da ordem da zona mais privilegiada da cidade, Leônidas Augusto tinha 12 anos de idade quando estava indo ao supermercado com a sua avó no dia 09 de outubro de 2020. Como qualquer criança, tinha sonhos: queria ser advogado para se mudar, com a família, do Complexo de Favelas da Maré. Ele não pôde vivenciar o amanhã porque a bala de fogo, que se diz perdida, tem como alvo a raça, classe e localidade. E ela nunca chega na Vieira Souto.

Leônidas não foi o único. Como ele, só neste ano que ainda nem acabou, Anna Carolina, João Vitor, Luiz Antônio, João Pedro, Douglas Enzo, Rayane Lopes, Kauan Vítor, Ítalo Augusto, Maria Alice. Indo pra escola, brincando, no portão ou dentro de casa: a segurança não existe se você for uma criança pobre, fora do cerne privilegiado da cidade da beleza e do caos.

Segundo a ONG Rio de Paz, 69 crianças foram mortas a tiros no Estado do Rio de Janeiro. Isso porque este dado é baseado em apenas coberturas jornalísticas. E as crianças que foram ainda mais apagadas do que todas essas? Onde elas estão? E as estatísticas? Saber sobre esses seres de direito é menos prioridade que atirar na cabecinha?

Nas respostas do Governo do Estado do Rio, é sempre dito que é oferecido suporte jurídico e psicológico. Fico me perguntando: assassinatos são tão normais ao ponto de gerar apatia por quem deveria nos proteger?

Gerado pelo caos da naturalização da morte, muitas das famílias das vítimas da necropolítica ficam sem saber exatamente o que houve porque a investigação é interrompida, assim como essas vidas aqui mencionadas.

Temos, sim, solução para toda a dor gerada a partir desta violência e ela precisa ser implementada agora.

Erros do passado e do presente não faltam: especialistas estão aí, os moradores querem ser ouvidos. A curto prazo, é possível investir em políticas públicas de preservação da vida. A longo prazo, sabemos bem sobre a transformação que a educação gera.

Para que mais nenhuma criança seja brutalmente assassinada, o que mais ninguém que vive a insegurança aguenta é ver as mesmas falhas estratégias repetidas.

Pode parecer clichê, mas violência não se combate com violência.

Você, que tá lendo e foi transportado para a zona sul no começo do texto, lembre-se que o Rio de Janeiro vai muito além de seus cartões postais e, que apesar de toda a necessidade de desnaturalizar o que não é natural, o centro está e é na periferia.

Arte: Vitoria Rodrigues de Oliveira / Reprodução

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1 Comentário

  • Parabéns Vitória, por muitos jovens enganjados nas situações sociais de nossa pátria.

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