“Quero que os jovens pensem e cresçam comigo”

Com 15 anos, a fotógrafa Julia Cavalcante começa a participar do projeto Geração que Move em São Paulo, na região do Grajaú

Por Unicef Brasil

Julia mora no Grajaú, na Zona Sul de São Paulo, desde os oito anos, quando se mudou de Itapecerica, no interior do Estado, após a mãe casar-se novamente. Aluna do ensino médio da Escola Estadual Hilda Vieira, Julia concentra suas atividades no bairro onde mora. “Se eu não tivesse vindo pra cá, as oportunidades não teriam sido as mesmas, não teria tanto acesso às coisas que eu tenho hoje”, reflete a jovem, e conclui: “a cultura do meu território me abriu vários caminhos”.

“Eu descobri que aqui no meu território também existem atividades culturais muito boas”

Desde que chegou ao Grajaú, Julia participa de atividades culturais e cursos de arte em um centro de convivência religioso perto de casa. Iniciativa de sua mãe para preencher seu tempo livre com qualidade, Julia encontrou ali acesso a diversas linguagens artísticas e descobriu sua paixão pela fotografia.

“Foi onde comecei a descobrir o que eu queria. Hoje faço uns rolês de fotografia, eventos e fotos para artistas do Grajaú. Quero seguir esse rumo”.

Até antes da quarentena por causa da pandemia de Covid-19, participava ativamente da vida cultural da região, frequentando o centro comunitário, peças de teatro, exposições, rodas culturais, estudando jornalismo, cinema e tecnologia digital em cursos gratuitos oferecidos em outras regiões da cidade.

Foi nessa busca pela arte e por diversificar sua formação que conheceu a OSC Viração, aos 13 anos. Desde então não largou mais. Por meio da Viração, Julia pode desenvolver seus talentos artísticos e inserir-se em uma nova rede de contatos e informações. “Os cursos da Viração são muito importantes pra minha formação, muitos colegas precisam disso, têm uma mente brilhante, mas não aproveitam a oportunidade porque não ficam sabendo das possibilidades que existem”.

A busca por reconhecer iniciativas e equipamentos do seu território aumentou depois que Julia pôde desbravar novas regiões da cidade. Nessas andanças, principalmente pelo centro da cidade, onde mora a avó, teve a oportunidade de conhecer equipamentos culturais importante de São Paulo. Contudo, o resultado da ampliação do acesso à cidade foi a nova perspectiva sobre a sua região. “Comecei a priorizar mais o meu bairro, descobri que aqui no meu território também existem atividades culturais muito boas”.

O apreço de Julia pelo bairro onde mora passa não apenas pelas oportunidades culturais oferecidas, mas também pelo espírito guerreiro de seus habitantes. “Aqui, em alguns lugares, é bem triste a realidade das pessoas. A casa pode estar caindo, mas as pessoas estão mostrando suas artes, empreendendo. Me identifico bastante com o jeito das pessoas daqui”. A jovem ressalta que o bairro é muito movimentado e tende a dizer que se sente segura. Mas, ao refletir um pouco mais, lembra: “não posso sair com qualquer roupa e minha mãe tem receio de eu sair à noite”, concluindo que a violência existe, mas não marca seu cotidiano. O que a incomoda é a necessidade de pegar diversos meios de transporte para chegar às regiões onde realiza seus estudos extracurriculares. Durante a semana, antes da quarentena, após a escola, salta de ônibus para trem, de trem para metrô. Julia conclui: “é cansativo, mas não é perigoso, o ponto de ônibus é perto da escola e da minha casa”.

Agora em 2020, em meio à epidemia do novo coronavírus, Julia começou a participar do projeto Geração que Move, desenvolvido pelo UNICEF em parceira com a Fundação Abertis e a Arteris, no Rio de Janeiro e em São Paulo. No Rio, o projeto é realizado com a Agência Redes para Juventude, enquanto em São Paulo a parceria técnica é com a OSC Viração.

Julia quer expandir seus conhecimentos e partilhá-los com a juventude de seu território. Ela destaca a relevância de pautar temas que afetam sua geração, mas acabam sendo naturalizados, pois não são debatidos na escola. Os encontros estão “abrindo nossa mente”, diz ela, “seria muito necessário para outras meninas pretas”. Por meio da produção de fotos e vídeos, Julia vislumbra colocar em cena questões que aprendeu para “promover a troca de ideias e mover as pessoas, fazer com que reflitam sobre isso também”. Para ela, o projeto tem grande potencial de fazer a diferença, pois tem os jovens como protagonistas. “E a juventude tem mais esperança na transformação do mundo”.

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