Quem inventou que o mais velho é o mais sábio?

O adulto nem sempre sabe ouvir.

Por Vitória Rodrigues de Oliveira

Uma das primeiras vezes que questionei um adulto foi quando precisei ficar longe da minha mãe enquanto estava na escola. A funcionária me disse “porque sim”. Eu nunca entendi aquele porque sim, mas um tempo depois entendi que era pro meu desenvolvimento pessoal, para iniciar a ideia de autonomia, entre tantas outras coisas.

Fui crescendo, crescendo, até chegar na pré-adolescência, essa época em que a gente começa a entender que a vida tem mais responsabilidade do que imaginávamos; quando “ser maior” já não parece tão mais legal. A gente aprende que logo os boletos vão começar a chegar, que vamos chorar e que as nossas palavras podem decidir rumos.

Não tão facilmente (para entender leia meus outros textos na Agência Jovem!), eu descobri que o protagonismo juvenil é fundamental para que tenhamos sociedades mais justas. É impossível ter um país melhor pra todo mundo se todo mundo não tem a sua voz ouvida, acolhida e amplificada – desde que ela não venha a ferir os direitos humanos.

Já que o que nós, jovens, temos a dizer é tão importante, porque os velhos adultos seguem decidindo tudo por todes? 

Durante três meses, eu tive a grande oportunidade de ser multiplicadora da campanha Cada Voto Conta, da Rede NOSSAS. Essa foi apenas uma das diversas iniciativas para fazer com que jovens tirassem seus títulos eleitorais, iniciando esse primeiro passo na história da democracia. Demais, né?

Mas ao longo desse processo, vi muita gente por aí questionando porque pessoas tão jovens podem votar e decidir pelo futuro do país, sendo que não tiveram, ao menos, “um emprego e uma conta para pagar”.

Para pessoas adultas é muito fácil afirmar isso, pois elas estão no parlamento, por exemplo. Nós estamos?

Os jovens que queremos ver transformando o país com políticas públicas e encarados como pessoas comprometidas com a mudança também podem mudar a forma com que somos respeitados enquanto seres que sabem pensar criticamente. Sabe pensar? Não é porque eu sou mais nova que não sei. E é aí que eu quero chegar.

Eu lhe contei essa história toda de eu questionar, da política, da representatividade e tudo mais. Agora é a hora que o fio se conecta, porque quero começar do começo: a nossa casa.

Dentro de casa é onde passamos o tempo crescendo, estudando, nos envolvendo em projetos, lendo o que houve na política nacional. E se agora nós aparecemos nas reportagens de TV falando de política, educação e mudanças climáticas, por exemplo, nós também podemos ser ouvides em casa? 

Briga entre mãe e filha. Imagem: Shutterstock

Todo mundo, num momento de desentendimento com a família, já ouviu que temos que respeitar a pessoa com maior idade, porque chegaram antes de nós e devemos ter respeito. 

Quem inventou que o mais velho é o mais sábio?

Se você discorda do seu avô, te mandam calar a boca. Se você pensa diferente do seu tio, você é uma criança mal criada. Se você ousa falar que não quer obedecer um pensamento do seu pai, você não tem qualquer honra e está traindo sua família. 

É o acontecimento do adultocentrismo, que ocorre quando toda a razão e racionalidade naquele ambiente é, claro, do adulto presente. Os nossos avós aprenderam isso, e eles ensinaram o mesmo para os seus pais e tentam reproduzir o mesmo pra gente, que é mais jovem, mas isso já não cola mais.

Dizem que para conhecer uma pessoa basta dar a ela governança [poder], e é verdade.

Que tipo de pressão é essa que nos ensina a mentir para não decepcionar as expectativas de quem cuida da gente? Que tipo de sociedade é essa onde um adolescente não tem direito a opinião e tem de aceitar tudo calado e com base na porrada não apenas física?

Discussão entre pais e filho. Imagem: https://supermamy.maminka.cz/ – reprodução

Tudo isso começa em casa (sei que é um problema sistêmico, ok) e vai se espalhando na escola – onde fundar um grêmio não parece tão necessário; na faculdade, onde sentimos medo de falar pro professor que ele não deveria pegar tão pesado, e segue até o ponto de não sabermos o que fazer com o nosso próprio voto, porque nós nunca estamos certos. 

Certos estão sempre os mais velhos, com ideias velhas, pensamentos velhos e mentes velhas.

Esse não é um texto que passa pano para atitudes erradas que todo jovem toma quando é jovem, mas um texto que convoca todo mundo a pensar como tem agido em relações pré-estabelecidas de poder.

É sempre difícil ouvir o não do outro, mas que tal pensarmos coletivamente em como lidar melhor com discordâncias e com o acolhimento das novas gerações? Nós jovens não vivemos muito, mas justamente por isso podemos ter pensamentos inovadores, diferentes, transformadores.

Ainda somos os mesmos e vivemos como os nossos pais!

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1 Comentário

  • É relativamente fácil sentar e escrever críticas as gerações anteriores. Mas aonde estava a juventude no ano de 2019, quando a decisão do “trabalhar até morrer” (como se diz) foi aprovada? Afinal, as novas gerações terão que conciliar, o trabalhar em torno de 4 Décadas num Mercado de Trabalho cada vez mais “achatado” frente ao Auto Atendimento, Aplicativos e Automação onde até uma Equipe Médica em sala cirúrgica já se restringe, geralmente, ao Cirurgião e um robô! Estamos em Ano Eleitoral e ainda os jovens se preparam em votar, apenas; quando nós, maiores de 50 anos, poderemos ter a oportunidade de votar em jovens “sábios”!!!

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