Quem é você? Um (re)olhar sobre si

Esses tempos olímpicos podem parecer mais uma questão de diversão e descontração, mas para mim é também de reflexão.

Por Erik Martins

Ouça este conteúdo na íntegra

Quem é você?

Digo, quem é você para além do que tentaram fazer com você?

Em tempos de grandes eventos esportivos, como essas olimpíadas, volto a me fazer essa questão.

Entenda, eu sou muito fã de esportes. Gosto de torcer, vibrar, da ansiedade de ver aqueles atletas passando pelos desafios. E, apesar de algumas pessoas passarem dos limites , com seu rancor e agressividade descabidos, gosto do sentimento de cumplicidade que fica no ar… ao menos com quem está torcendo com você.

Mas nem sempre foi assim. Pouco antes de entrar na adolescência fui me afastando do mundo dos esportes. Isso por causa da masculinidade tóxica que eu via no meio.

Tanta violência e imposição de valores, atitudes que não condizem comigo. Me via espremido, invalidado e até correndo perigo.

E não só com os esportes. A bem da verdade, foi uma tentativa de silenciamento geral. Eu sou extrovertido, sabia? Eu gosto de me comunicar. Se você me conhece, vai me dizer agora que isso é óbvio. Mas não era.

A tentativa era geral. De silenciar minha voz, meus gestos e minha presença que por si só já era contestadora naquele espaço que ‘não era meu’. Ao menos, que eu não sentia ser meu (e que não fizeram muito esforço que fosse; muito pelo contrário, na verdade).

Imagem de Andrew Martin por Pixabay

E fui me calando. E me anulando. E saindo daquele espaço que um dia já senti prazer em estar.

Mas a vida é curiosa, e por mais que tentasse eu mesmo ser meu carrasco, me impedindo de me comunicar, uma outra parte aqui dentro era radicalmente contrária, e começou a se expressar. E como! Pouco a pouco, foi tomando volume, intensidade e espaço, até irradiar de mim para o mundo.

Foi um longo caminho (está sendo ainda), mas necessário. Entender que força é essa minha – que eu sou – e que tanto foi silenciada, mas que ainda assim teimava em não se calar. Quebrando todas as barreiras e chegando até a redescobrir os esportes.

Parece simples. Mas não é.

Penso em tantas pessoas que, assim como eu, foram reprimidas. E quantas não conseguiram superar os obstáculos impostos.

E por isso reafirmo tanto a necessidade de representatividade. E também de autoconhecimento.

Por vezes podemos nem perceber, pode ser um comportamento tão simples, o famoso “sempre foi assim”. Mas foi por quê? E foi para que?

Esses tempos olímpicos podem parecer mais uma questão de diversão e descontração, mas para mim é também de reflexão.

É momento de vermos grandes modelos, como Rebeca Andrade, a nova medalhista da ginástica artística, e refletirmos sobre o tanto que eles simbolizam. Rebeca, por exemplo, passou pela situação de pobreza na infância, com sua mãe e seus seis irmãos. Às vezes chegava a caminhar duas horas para chegar na quadra de treino, e foi preciso um verdadeiro esforço coletivo para que ela pudesse seguir com seu sonho.

A ginasta Rebeca Andrade com suas medalhas. Foto: Ricardo Bufolin/CBG – Fotos Públicas

E o que dói é que não precisava ser assim. Não precisava de toda essa luta. Mas “a César o que é de César”, e Rebeca realmente é uma guerreira por ter superado os empecilhos e alcançado esse sonho tão especial para ela.

Foi preciso muita determinação e muita coragem para dizer para si mesma que não ia aceitar a limitação que a sociedade queria impor a ela.

Isso tudo pra gente ter que ouvir ainda falas como a de Hamilton Mourão, nosso vice-presidente militar, de que casas de mães solo são fábricas de desajustados. Não Mourão, você está errado. O desajustado é você!

Desajustada é essa sociedade que quer nos encaixar num padrão que não condiz com quem a gente é. Que quer destruir sonhos e personalidades pelo simples desejo de deixar tudo como está. Porque é mais cômodo para vocês assim.

E ver Rebeca alcançando brilhantemente esse espaço é uma afronta às ditas regras tradicionais. Por isso me orgulho e a tenho como exemplo. Não só ela, na verdade, mas todas as pessoas que decidem dar um basta nessa tentativa de silenciamento.

A ginasta Rebeca Andrade apresenta suas medalhas. Foto: Ricardo Bufolin/CBG – Fotos Públicas

E hoje eu ocupo meus espaços com firmeza ao mesmo tempo que com ternura; nos esportes torço, comemoro, choro – como chorei de felicidade pela conquista da Rebeca Andrade. E na vida vou sendo cada vez mais eu, me permitindo ser a voz que tanto tentaram calar.

E você? Quem é você? Quem é você para além do que quiseram fazer de você?

Imagem de Gerd Altmann por Pixabay 

Ver +

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *