A quantidade de jovens em busca de emprego aumenta no país

Açougueiro, frentista, garçonete, desossador, mecânico de diesel, copeiro(a), locutor de supermercado, balconista de salgados, atendente de fast food, auxiliar de serviços gerais, camareira, porteiro, vendedor externo. Essas são algumas das vagas oferecidas pelo projeto “Portela dá Trabalho”, balcões de empregos que já numeram a 42ª edição na quadra da escola de samba de Madureira, no subúrbio do Rio de Janeiro. Por necessidade e sem expectativas de continuar os estudos, o público jovem vindo da Baixada, Subúrbio e Zona Oeste frequenta o evento em peso. Tal cena é o reflexo da crise brasileira de desemprego que prejudica principalmente a faixa etária entre os 18 e 24 anos.

De baixo de um sol a pino e munidos de seus documentos, esses jovens saíram de suas casas ainda na madrugada para conseguirem um bom lugar na fila que dá a volta no quarteirão. Perfumados, de camisa limpa e cabelo bem cortado, eles tentam mostrar “boa aparência” como as convenções para se pedir emprego exigem. Essa cena se torna casa vez mais presente não só no Portela dá Trabalho, mas em qualquer balcão de emprego do país. Já que, pela primeira vez desde junho de 2007, a taxa de desemprego entre os jovens entre 18 e 24 anos superou os 20% na média das seis principais regiões metropolitanas do país, segundo os dados mensurados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

As pessoas dessa faixa etária são as primeiras a serem demitidas das empresas por terem menos experiência e tempo de trabalho. Além disso são as primeiras a serem solicitadas a trabalhar quando a família é prejudicada pela crise, obrigando-as a abandonarem seus estudos ou mesmo o sonho dessa possibilidade.

Entretanto, ainda há outros problemas mais básicos e urgentes para que jovens  de classes sociais mais baixas se insiram no mercado de trabalho. Ronald de 22 anos, tem três filhos e mora em uma comunidade de Bangu chamada Vila Aliança. Para ele, desempregado há dois anos, é difícil cumprir as exigências para ao menos comparecer ao processo seletivo. “Tudo envolve um dinheiro”. Ele tem que pagar as passagens, as cópias dos documentos, ter uma “roupa boa” e ainda ter dinheiro para algum lanche, já que saiu de casa às quatro horas da manhã e só vai chegar depois das três da tarde. “Depois dizem que é a gente que não quer trabalhar”, diz o jovem.

Ronald entregando seu currículo na tenda de empregos do Guanabara
Ronald entregando seu currículo na tenda de empregos do Guanabara

Essa frase é conhecida no senso comum sob o argumento de que a maioria das pessoas que não trabalham têm preguiça ou falta de vontade. Ronald diz que chamou mais três amigos para virem ao projeto da Portela, mas eles não puderam por falta de dinheiro. Ele mesmo nem sabe como vai voltar para seu bairro, já que gastou seus últimos tostões num salgado. Mais uma vez vai chegar em casa com as mãos vazias porque ainda precisa aguardar o telefonema dizendo se foi ou não contratado. O rapaz ainda completa dizendo que “sabe-se lá” se vai ter dinheiro para passagem quando, e se, entrarem em contato.

Falando em um microfone no meio do pátio da Portela, Fernando Lobo, representante do RH, dá orientações para os candidatos de como “se portarem” nas entrevistas. “Nós não eliminamos vocês, são vocês que se eliminam”. Segundo o orientador, o caminho é falar apenas o que é perguntado e nunca dizer que se “topa” qualquer emprego, pois cada empresa tem o seu perfil de candidato. “Não nos tentem convencer pela emoção” é o que escutam as pessoas na última fase da triagem antes de entregarem seus currículos. Nesse momento, muitos dos candidatos cochilam, finalmente sentados após mais de duas horas na fila do lado de fora da Portela e de um caminho longo desde suas casas.

Juliana Oliveira de 28 anos, consultora da Qualitá – uma das mais de quinze empresas que participam do Projeto -, aguarda os candidatos, de preferência jovens, em sua mesa de entrevistas. Ela prefere essa faixa etária por serem pessoas, geralmente, com mais disposição e maior compatibilidade com o perfil da vaga que exige de seis a oito horas de trabalho em pé atrás de balcões de lanchonetes. A cada edição do projeto da Portela, ela recebe em média de 400 a 500 fichas preenchidas pelos candidatos para as 50 vagas operacionais. Juliana diz se assustar com a quantidade de desempregados e afirma ver aumentar o número em cada edição do Projeto.

Uma das candidatas a essa vaga é Mariana Ferreira de 17 anos, que busca o primeiro emprego para sustentar a filha de dez meses. Agora, depois de ter terminado o ensino médio, ela não pensa em continuar os estudos com a fralda e o feijão no preço que estão. Com otimismo, diz aceitar qualquer vaga para qual for chamada.  “Não tem como ter uma família agora sem trabalho”, afirma a menina.

A família é o tema que Mariana, Ronald e outros jovens tocam ao se queixarem das consequências do desemprego na esfera pessoal. Segundo eles, o estresse e as brigas devido à cobrança dos parentes em torno de uma resposta de aprovação, e a suas ansiedades para colocar comida em casa criam um clima tenso, prejudicam o ambiente familiar. Buscando fugir disso, o caminho que eles encontram, enquanto não recebem o esperado “sim”, é trabalharem de maneira independente ganhando menos, mas sem depender de um patrão ou aprovação de currículo. É como Ronald se justifica ao ter aberto um salão dentro de casa onde corta o cabelo dos vizinhos em troca de algum dinheiro ou até de roupas se não tiverem como pagar.

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Mariana Ferreira e a prima, Juliana Maria, procurando o primeiro emprego

O Projeto “Portela dá trabalho” já ofereceu sete mil vagas, e em suas últimas edições o número de oportunidades caiu para 1.400, o que mostra um arrocho nas vagas a serem ocupadas, mesmo perto do grande evento das Olimpíadas. Segundo o FMI (Fundo Monetário Internacional), a taxa do desemprego vai seguir aumentando até ano que vem, culminando em 10,2%. Fato que afeta o público mais novo principalmente no âmbito dos estudos, já que muitos precisam abrir mão da faculdade para trabalhar.

Assim, o índice de jovens estudantes e formados no ensino superior é abalado desde 2015 depois de 10 anos de avanço. Entretanto, existe esperança, ou fé como se lê na tatuagem de Ronald, para depois que passarem esses maus tempos econômicos. Quem sabe, açougueiro, frentista, garçonete e etc deixarão de ser profissões desejadas por mera falta de escolha e jovens como Ronald e Mariana poderão terminar seus estudos e terem a carreira de seus sonhos.

É estudante de Jornalismo da UFRJ e pesquisadora na área de sociologia e comunicação. Escreve para Agência Jovem de Notícias, Viração e poesia nas horas vagas.

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