Qual o sentido da educação para os jovens?

A ideia de juventude como uma etapa exclusiva de preparação para o futuro perpassa o imaginário social e está implícita em diversas políticas voltada a esse público. Nesse sentido, a educação aparece como elemento fundamental. A pesquisadora Helena Abramo, no entanto, alerta que ser jovem envolve questões mais complexas, marcadas por uma série de experimentações. “Não se trata apenas de prepar-se para o futuro, mas de participar de forma experimental de uma série de instâncias da vida social”, explica.

Abramo participou hoje, 31, do painel sobre ‘Relevância, sentido e não discriminação no Ensino Médio’, no segundo dia do Seminário Regional ‘Educação Secundária na América Latina e Caribe’, que acontece na cidade de Bogotá. A mesa também contou com as presenças de Guillermo Scherping, da Escola de Professores do Chile e da estudante chilena, da Assembleia Coordenadora de Estudantes Secundários, Eloísa Gonzales.

A partir dessa compreensão da vida juvenil como fase de experimentações, a pesquisadora Helena Abramo propõe novas questões sobre a relação entre jovem e escola. Onde está o jovem no universo escolar? Que papel tem a educação na vida dos jovens? Além da formação, de que mais se compõe a vida do jovem?

A pesquisadora chama a atenção para a necessidade de se levar em conta, além da educação, os demais direitos dos jovens. Observa que, especialmente quando se formula politicas públicas para a juventude, há uma tendências a considerar apenas o aspecto da formação e preparação. “O jovem está sempre no lugar de aprendiz, poucas vezes está no lugar de quem também produz, de quem tem o direito ao trabalho, ao espaço público”.

Pesquisa

Abramo apresentou alguns dados da pesquisa Juventudes Sul- Americanas: Diálogos para a construção da democracia regional, desenvolvida entre 2007 e 2009, realiza com jovens dos países do Mercosul, revelou que a violência é considerada o maior problema enfrentado pelos jovens, seguido pela falta de qualidade na educação que lhes é ofertada. Em terceiro lugar aparece a falta de oportunidade de trabalho decente.

Quando questionados sobre o que é mais importante para a juventude de hoje, o tema do trabalho se sobrepõe muito ao tema da educação. Mais de 50% frente aos 29% que consideram que estudar e obter um diploma é mais importante.

O estudo mapeou as sete principais demandas dos jovens da América do Sul, entre elas, educação pública e de qualidade, trabalho digno e criativo, acesso aos bens culturais e possibilidade de produção, transporte público, segurança e meio ambiente. A questão da participação aparece como condição para que essas demandas se concretizem.

A demanda por educação, sintetiza a necessidade concreta de uma escola que faça sentido na vida do jovem, com currículos adequados a sua realidade e que permita a conciliação dos estudos com o mundo do trabalho.

 Concepções de qualidade na educação

Guillermo Scherping falou sobre a disputa de sentidos em torno da concepção de educação de qualidade. De um lado há uma ideia de qualidade baseada nos critérios do mercado, marcada pela lógica da competição e do rendimento. Por outro, a perspectiva de educação como direito e possibilidade de desenvolvimento humano integral, que leva em conta o contexto, valoriza o processo e a evolução formativa.

Para ele as políticas públicas educacionais são contraditórias, uma vez que suas formulações tem como proposta a promoção da educação integral, mas sua implementação enfatiza concepções contrárias, de classificação e monitoramento de resultados. Scheping ressaltou que não se pode perder de vista a importância de uma educação pública e gratuíta.

 O sentido da Educação

A estudante Eloísa Gonzales, provocou os participantes a pensar em quem define o sentido da educação. Para ela, não são os atores envolvidos no processo educativo o quem define o sentido da educação, conduzida numa lógica de mercado, oposta aos interesses dos estudantes.

A estudante ressaltou que a violência e a repressão com que são tratados os alunos tem impossibilitado que eles possam discutir sobre o sentido do processo educativo. A expectativa do jovem ao ingressar na escola – de se desenvolver e preparar-se para o mercado de trabalho – tem sido frustrada por um modelo de escola que apenas reproduz material e ideologicamente os mecanismos de exclusão social. Eloísa destacou a demanda dos os estudantes chilenos por uma ressignificação da escola, a criação de um sistema nacional de educação pública, gratuita de excelência e com controle social.

Sobre o evento

O Seminário é uma iniciativa da Campanha Latino Americana pelo Direito à Educação e do Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF), em parceria com o Instituto Internacional de Planejamento da Educação Unesco/Buenos Aires, a Oficina da Unesco em Santiago (Chile), a Organização dos Estados Ibero-americanos para a Educação, a Ciência e a Cultura e a Comissão Econômica para a América Latina (Cepal). A Coalização Colombiana pelo Direito a Educação será a anfitriã do evento.

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