Qual o papel das pessoas brancas na luta antirracista?

Uma posição crítica à branquitude só pode partir do movimento de se entender enquanto pessoa branca, o que por si é um privilégio, mas de entender a posição de pessoa branca como a do privilégio social em diversas instâncias, que partem do não ser perseguido no mercado ao ter acesso facilitado a determinados espaços de conhecimento.

Por Kaique Menezes da Silva

Enquanto homem cis e na sociedade brasileira racializado como branco, entendo que o primeiro e primordial lugar das pessoas brancas na luta antirracista é o lugar fundamental da posição crítica à ideologia da branquitude que as envolve, nas palavras da professora Cida Bento, o “Pacto Narcísico da Branquitude”.

Sabemos que o marcador “raça” é socialmente construído e reproduzido, é artificial, mas historicamente construído como biológico. E justamente por isso é tão pesado sobre os corpos atingidos diretamente pelos racismos, e como uma pessoa periférica, foi à partir dessa percepção que iniciei meu processo como pessoa branca se inserindo na luta antirracista, que é o movimento de ouvir ativamente o que as pessoas racializadas, pretas, amarelas e indígenas estão falando: suas histórias, suas vivências e suas reflexões sobre essas vivências e situações, e a partir daí me integrar (e não me apropriar) dos espaços onde posso contribuir nessa luta.

Uma posição crítica à branquitude só pode partir do movimento de se entender enquanto pessoa branca, o que por si é um privilégio, mas de entender a posição de pessoa branca como a do privilégio social em diversas instâncias, que partem do não ser perseguido no mercado ao ter acesso facilitado a determinados espaços de conhecimento.

É o de olhar no espelho social, das conversas com outras pessoas e o de propriamente se perguntar: O que significa ser racializado como branco no Brasil? De que forma os meus privilégios se expressam? e principalmente:

Quais são os momentos em que eu produzo ou reproduzo o racismo?

Porque definitivamente não se trata de querer negar as estruturas racistas, é um fato que elas estão consolidadas em nossas instituições e na nossa constituição enquanto indivíduos, vem sendo naturalizadas desde o início do país Brasil, como demonstra nosso passado colonial escravista. São em suma estruturais! Como bem pontua o professor Silvio Almeida.

Tentar quebrar com o pacto da branquitude em que somos inseridos é reconhecer as diversas expressões do racismo: Nas palavras, nos olhares, nos tratamentos, nos sentimentos, no lugares e situações, perceber se estão sendo reproduzidas por você.

E aí vem um movimento crítico consigo, que em primeiro momento é o de ter a sensibilidade de se criticar e constatar seu próprio racismo. Mas é também o momento posterior, o de se formar, de estudar, compreender, entrar em contato com conteúdos que abordam não só o racismo e suas violências, mas de normalizar o consumo das produções de pessoas pretas, indígenas e amarelas, que estão em todos os espaços produzindo os mais diversos conteúdos (assistam o canal Revolta Popular com Marcus Nascimento e Lucas Zacarias), com visões de mundo diferentes das quais nós, pessoas brancas, construímos.

Seja falando de economia, de política ou de alimentação, pessoas racializadas críticas levam consigo, em suas produções, as experiências que passaram, pessoas que não consideram o branco como o ser universal, prática fundamental para combater o racismo.

Mas também, quebrar o pacto da branquitude é o movimento de não se calar ou omitir ao observar e ouvir o racismo agir!

É o não se permitir ouvir xingamentos racistas nas reuniões de família, do questionar as pessoas que estão reproduzindo racismos à sua volta seja na situação que for, é de perceber quantas pessoas racializadas existem nos espaços que você está, é não contribuir para esse movimento de apagamento e naturalização do racismo como a tecnologia de inferiorização dos povos que divergem dos padrões estéticos que dominam a sociedade, em prol dos privilégio de uma classe que tem a cor branca bem definida.

Por fim, pra mim, o papel das pessoas brancas na luta antirracista é ao lado das pessoas pretas, amarelas e vermelhas.

Lógico, observando seus limites dentro dos movimentos e de suas vivências que carregam seus privilégios, questionando os espaços da branquitude, construindo uma análise Interseccional da realidade, como a que propõe Angela Davis, uma análise que leve em consideração os fatores de raça, classe e gênero para todas as situações, de uma luta que é para construir uma nova forma de viver em sociedade, onde essas diferenças não sejam mais existentes, de forma que se possa alçar uma nova forma de viver a vida, uma nova forma que seja coletiva!

Kaique Menezes da Silva tem 18 anos, é morador do Extremo sul de São Paulo, participa do projeto Geração que Move e participou da construção da Revista Viração nº 117 – manifesto antirracista.

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