Projeto Eco Escola: Entrevista com Valmir Miranda

Projeto social liderado por Professor de Geografia em Escola no Grajaú, Extremo Sul de São Paulo, já reflorestou mais de 1.500 árvores na região desde 2016.

Por Kaique Menezes da Silva

Professor Valmir Miranda em seu “habitat natural”, com as mãos na terra plantando! Foto de arquivo pessoal.

A periferia da Zona Sul da Capital paulistana tem sua história atravessada pelos efeitos dos grandes movimentos de modernização operados no centro da cidade…

Com um selvagem processo de urbanização e especulação imobiliária (movimento onde sujeitos compram propriedades e as mantém vazias para valorizá-las no tem) o destino da classe trabalhadora foram as periferias da cidade, como é o caso do bairro do Grajaú, um dos mais populosos e violentos.

Esse processo de urbanização foi especialmente cruel com a vegetação nativa, a da mata atlântica, nos territórios urbanizados caoticamente, acabando na extinção de amplas áreas verdes que deram lugar aos labirintos de concreto, blocos e asfalto das nossas quebradas.

Foto: Arquivo pessoal

E é nesse território, o do Grajaú, mais especificamente na Escola Estadual Professor Carlos Ayres, que desde 2016 acontece um grande projeto de ecocidadania, educação ambiental, sustentabilidade, reflorestamento e geografia – O projeto Eco Escola.

Como se fosse ontem, eu, Kaique Menezes, me lembro de ver entrar, empolgado como nunca, uma das minhas grandes inspirações, o professor de Geografia Valmir Miranda, pela sala da 7ª série C. Com seu sorriso de cara a cara, falou a todos e todas:

Vamos plantar?

E foi assim que tudo começou. Primeiro com aulas sobre sustentabilidade, entendendo quais eram os motivos sociais, políticos e econômicos de termos um espaço escolar e urbano em harmonia com o meio natural. Depois o debate sobre as desigualdades espaciais.

“Por que no Morumbi, em Higienópolis, na “Cidade Jardim” (bairros que concentram a população rica da cidade) há uma árvore a cada esquina? Há mata ciliar próximo do rio?” nos provocava a pensar o professor. E por fim, a mão na massa: uma campanha de arrecadação com toda a comunidade escolar, as idas ao Sesc Interlagos e, finalmente, o processo de reflorestamento e revitalização da fachada da escola.

Onde antes tínhamos plantas mal cuidadas e agressivas, com muito trabalho coletivo, abrimos espaço para frondosas palmeiras que mudaram a vista de quem chegava ao espaço.

Mais que isso: no interior da Escola, onde havia uma pequena horta agroecológica, também plantamos outras espécies nativas junto de nossa pequena composteira. Foi no ano de 2016 que esse lindo projeto se iniciou. Mais do que simplesmente plantar, foi o processo de aprendizagem através da vivência no espaço, através de práticas ecológicas e geográficas.

Fachada da E.E. Carlos Ayres depois da ação do projeto. Foto de Arquivo Pessoal.

Amplos foram os debates sobre as desigualdades e necessidades socioambientais nas periferias, amplas as discussões sobre descarte de lixo, participação comunitária, abandono, depredação e da ausência de projetos públicos que foram suplantadas pela nossa atuação, professor, estudantes, comunidade escolar organizada e autônoma que forjaram uma verdadeira experiência de eco-cidadania no extremo sul, onde o Estado chega eficientemente com a repressão e precariamente com cultura.

 Após a experiência de 2016, o projeto continua se desenvolvendo com novas perspectivas, com a reciclagem do óleo de cozinha como uma atividade geradora, sendo o Professor Valmir seu principal entusiasta. Reflorestando e impactando através de atividades sustentáveis várias áreas do Grajaú, Jardim Castro Alves, Parque América e outros bairros do extremo sul, em ação conjunta com suas várias turmas de alunos e alunas.

Até 2021, o professor estima que já foram plantadas mais de 1.570 árvores desde o início do projeto!

Mas ninguém melhor para falar dessa experiência senão ele próprio. Grandes e sábias são as conversas com esse verdadeiro mestre. Compartilho com vocês agora uma entrevista que fiz com o professor Valmir para falar sobre o projeto, realizada no mês pandêmico de março de 2021:

Kaique Menezes: Professor, quais foram as suas motivações para iniciar o projeto eco escola?

Professor Valmir Miranda: Eu estava passando na frente da escola [E.E. Carlos Ayres] e vi um monte de lixo e entulho, jogados na porta da escola. Eu olhei para aquilo e falei: Meu Deus! É meu aluno que estuda aqui… Eu vou mudar essa situação. Foi assim que eu me motivei, eu olhei para aquela situação negativa e horrorosa e falei: Eu vou mudar esse espaço, porque é meu aluno que estuda aqui! 

KM: Na sua percepção, qual foi o real impacto do projeto Eco escola no território até agora? 

PVM: O impacto foi positivo porque não ficou restrito apenas ao nosso projeto na escola.  Esse projeto se ampliou, ele foi às ruas, às praças, à outras escolas do entorno, foi para as vias públicas! Muitas árvores que a muito tempo tinham o espaço dela reservado, mas que foram vandalizadas, os alunos fizeram questão de repor essas árvores. Então, foi um projeto que foi além das expectativas! Você começa de uma maneira… Você fala: Eu vou fazer isso!  E de repente você faz muito mais, porque o retorno foi espetacular!

KM: Como você observou a participação das estudantes durante o processo do projeto?

PVM: “Tet a tet” (rosto a rosto), acho que essa é a palavra!  A participação dos alunos foi fundamental!  Eu não conheço nenhum professor na cidade de São Paulo, que tenha a disponibilidade de pegar um domingo, à tarde, deixar a sua família e junto com os alunos ir a lugares para buscar mudas de árvores, participar de palestras e trazer as mudas no braço, justamente pelo prazer de plantar! E não foi um número pequeno, foi um número exorbitante! Não tenho aqui o número exato de quantos alunos foram…. Cada domingo, cada participação… O número é gigantesco! Então no “Tet a tet” (rosto a rosto) foi que eu vi essa participação ativa do aluno. Começou com 5 alunos falando “Eu vou no Sesc domingo”! Daí você vê eles indo e se multiplicando! “Ah, daqui 15 dias eu vou novamente, daqui 15 dias vou novamente…” então a participação, se formos jogar isso em número de pessoas é uma coisa, mas se você vai ver a participação nos domingos é incalculável!

Foto de Arquivo Pessoal.

KM: Qual foi a reação da comunidade escolar (pais e demais comunidade) durante o processo?

PVM: A reação da comunidade, por mais tímida que seja, está presente. Querendo ou não as pessoas veem o que a gente faz, mesmo que elas não digam que estão vendo ou a gente não perceba que elas estão vendo, elas estão ali! Porque se deixa escapar… Tiveram pais de alunos que participaram com a gente, que foram [plantar] com a gente! Hoje, eu não posso passar na rua que as pessoas já identificam: “Ah, olha o professor do projeto, olha o professor das árvores, olha o homem das árvores!” Então não tem como desvincular da comunidade, ela reage conforme as coisas vão acontecendo… Conforme você vai fazendo! Você tem que lançar propostas, que toda a proposta boa é aceita pela comunidade. Agora nós estamos pensando um projeto, dentro desse projeto, que atenda às necessidades da comunidade pós pandemia. Vai dar certo porque agora a gente está pensando diretamente na comunidade! 

KM: Você acredita que ser um projeto social na periferia da cidade o tornou mais difícil?

PVM: A dificuldade que existe nos projetos sociais na periferia, é que se tornam mais difíceis pelo fato de não haver investimento. As pessoas não pensam a periferia como um todo, mas como uma coisa à parte, então dá uma impressão que a periferia não tem valor… E querendo ou não, essa violência simbólica é absorvida pela comunidade periférica, essa comunidade acaba reproduzindo o descaso das políticas sociais, ausentes. Então, ela reproduz a falta de valor, de valorização desse espaço periférico. Essa é a maior dificuldade que existe, porque você precisa trabalhar as mentes, as consciências, para que elas saibam o valor que tem… É difícil, né? Você tem violência simbólica gigantesca que destrói a dignidade das pessoas com o espaço e ela não vê valor no espaço que residem… É muito louco isso!

Foram adicionadas marcações para preservação de identidades. Foto de Arquivo Pessoal.

KM: Qual foi a maior dificuldade e a maior felicidade com o projeto?

PVM: A Felicidade é o sorriso que coloco no rosto do meu aluno!  Ele faz no primeiro momento, não está entendendo nada do que está acontecendo…. ele faz mecanicamente e de repente você percebe que ele entendeu a sua proposta! E daí ele faz com prazer, e deixa de parecer uma obrigação… Primeiro que a proposta é revolucionária, uma coisa diferente, dificilmente alguém faz, quando faz é dentro do muro da escola.  Eu consegui fazer fora da escola!  Quando eles entendem a proposta eu penso “Caramba! Ele entendeu o que eu quis dizer, sem dizer absolutamente nada… Foi fazendo que entendeu!” E é essa a maior felicidade!  A dificuldade é romper com a mentalidade, somos padronizados a todo o tempo, desde criança você tem que fazer tudo igual… Como se fosse um robô, repetindo as mesmas coisas, e daí você pensa “Meu Deus, é possível fazer isso!” e tem de perguntar, arriscar… A dificuldade é essa! Dar o primeiro passo, quando você o dá, acontece e é surpreendente porque acontece de várias maneiras diferentes e assim a felicidade é maior do que a dificuldade.

Foto de Arquivo Pessoal.

KM: Quais são os tipos de árvores plantadas? Por que elas?

PVM: O meu lugar no mundo, onde eu nasci, onde eu fui criado, onde eu estou é o meu lugar. Então é essa reflexão que eu faço e interfere no meu trabalho. Eu não vou plantar nenhuma árvore que seja estrangeira. Se eu quiser ver uma árvore estrangeira no seu bioma, se quiser conhecer um eucalipto da Austrália, vou lá na Austrália e o vejo lá, colorido, lindo lá,  no lugar dele.  Aqui é Mata Atlântica, cidade de São Paulo, então vou priorizar a Mata Atlântica, que é a mais linda do planeta! Mais diversa do planeta, a mais espetacular do planeta! Para que vou admirar o que é do outro se eu tenho aqui!? Então eu fiz questão de valorizar a Mata Atlântica, de conhecer a Mata. Hoje eu me arrependo de algumas árvores exóticas ou espécies não nativas que eu plantei quando criança, mas porque eu desconhecia, hoje jamais vou pegar uma planta que seja estrangeira. 

KM: Professor, qual é a meta do projeto? 

PVM: A meta do projeto, se eu conseguir beneficiar 250 mil famílias com essa nova proposta pós-pandemia, com os recursos que nós vamos fazer através da sustentabilidade… Esse ano a gente focou na reciclagem de óleo, vamos fazer aquilo que eles estão chamando agora na moda de empreendedorismo, mais claro, se eu for fazer empreendedorismo vou fazer é o empreendedorismo social! Que é o que eu sempre fiz, mas que hoje é classificado de uma outra maneira.  Se eu conseguir atingir esse bairro periférico chamado Grajaú e seu entorno, já serei muito feliz! Porque eu queria impactar uma pessoa, eu Acredito que eu já impactei… Se eu conseguir beneficiar um bairro inteiro… Meu Deus do céu acho… Acho que eu já terei cumprido a minha missão! A minha meta é conseguir beneficiar a todas as famílias do Grajaú, direta e indiretamente.

KM: Quem tiver o intuito de ajudar o projeto, que pode fazer nesse momento?

PVM: Nós vendemos, trocamos, nós fazemos qualquer negócio (ou quase qualquer negócio) em prol do óleo reciclável que muita gente joga nas pias… Nós queremos para nossa escola, e daí vamos transformar esse material em recursos, em produtos que vão ser fornecidos para a comunidade aqui da periferia. Então se as pessoas doarem, fazer qualquer coisa que nos auxilie, curtirem as nossas páginas nas redes sociais, compartilhar as nossas ideias e incentivar, acho que já estão ajudando. Quando você  dá um posicionamento, uma opinião, uma ideia, junta-se a nós nessa pegada pedagógica e ecológica nos ajuda em muito!

Foram adicionadas marcações para preservação de identidades. Foto de arquivo pessoal.


Esse é o projeto Ecocidadania, o qual eu, junto de outras centenas de alunos, da 8º série C e B de 2016 e de outras turmas tivemos o prazer de participar! Uma experiência muito única de autonomia nas quebradas, liderada por um grande professor da geografia, é um projeto ecocidadão que através das palavras e da ação está em movimento por uma melhor escola, um melhor bairro, uma melhor sociedade construída por nós mesmo em harmonia da natureza! 

Ajudem a compartilhar nosso projeto! Doem óleo usado e vamos levar a ecocidadania por todos os cantos e rumo a 5 mil árvores! 

Ponto de Coleta: Escola Estadual Professor Carlos Ayres. Avenida Dona Belmira Marin, 595, Grajaú, São Paulo – SP, 04846-010, Brasil – Procurar o Professor Valmir ou o Grêmio Estudantil.

Cartaz de divulgação do projeto

 Para acompanhar o projeto siga nas redes sociais: 
Professor Valmir Miranda – https://www.facebook.com/valmir.b.miranda

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