Primeiro de Abril é muito mais do que o Dia da Mentira

Emilae Sena (Virajovem de Salvador, BA) e Alan Passos (historiador) | Imagem: EBC/Creative Commons

 

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Dia dos tolos, dos bobos ou Dia da Mentira. O 1º de abril ainda é lembrado por muitos dessa forma. E muita gente não perde a oportunidade de fazer uma pegadinha, de contar uma mentirinha para os amigos nesse dia. A informação mais difundida sobre origem das brincadeiras do 1º de abril surgiu na França no século 16. Naquela época, na Europa, o calendário mais adotado era o Juliano, criado no ano de 45 antes de Cristo pelo general romano Caio Júlio César (101 – 44 a.C).

Mas esse calendário não era seguido por todos e muitas aldeias e paróquias celebravam o ano novo na festa da Anunciação, em 25 de março. Alguns esticavam o ano velho até 31 de março e só comemoravam o réveillon em 1º de abril, data que aconteciam trocas de presentes e animados bailes noite adentro.

O calendário Juliano apresentava alguns erros na contagem dos dias. Por isso, em 24 de fevereiro de 1582 foi promulgado pelo Papa Gregório 13 um novo calendário que, por sua iniciativa, passou a ser conhecido como calendário Gregoriano, que instituiu que o ano novo se iniciaria em 1º de janeiro.

A França foi um dos primeiros países a adotarem o calendário Gregoriano, mas com resistência (ou confusão) da população, que continuou a comemoração do ano novo na antiga data, em 1º de abril. É nesse ponto que está a questão do surgimento do chamado “Dia da Mentira”. Alguns gozadores começaram a ridicularizar esse apego, enviando aos adeptos do antigo calendário Juliano, apelidados de “bobos de abril”, presentes estranhos e convites para festas inexistentes. Com o tempo a galhofa difundiu-se por todo o país a ponto de  hoje estar espalhada por todo o mundo ocidental.

Entretanto há outra hipótese para explicar o “Dia da Mentira”. Segundo o historiador Joseph Boskin, professor da Universidade de Boston, a data seria reminiscência de uma antiga festa romana, em que era costume os trotes durante o equinócio de primavera. Nessa perspectiva, os trotes do 1º de abril seriam anteriores às mudanças realizadas pelo calendário Gregoriano.

 

Dia da mentira no Brasil

Não há consenso sobre a origem da brincadeira do Dia da Mentira no Brasil. Mas ao que parece, começou a ser difundida em Pernambuco, onde circulou o periódico chamado A mentira, lançado em 1º de abril de 1828, com a notícia do falecimento de Dom Pedro, desmentida no dia seguinte. A última edição do periódico saiu em 14 de setembro de 1849, convocando todos os credores para um acerto de contas no dia 1º de abril do ano seguinte, dando como referência um local inexistente.

 

Ditadura Militar*

Em 31 de março ou 1º de abril de 1964, o presidente constitucional João Belchior Marques Goulart foi deposto por um golpe de Estado que fuzilou a democracia e pariu uma ditadura. O marco da queda de João Goulart é sua partida de Brasília, na noite de 1º de abril de 1964. Ele aterrissou em Porto Alegre de madrugada do dia 2 e resolveu não resistir. Na mesma madrugada, era empossado presidente o deputado golpista Ranieri Mazzilli, que presidia a Câmara.

No Rio, onde se concentravam os contingentes das três Forças Armadas, pode-se considerar que o golpe se consumou pelas 16h de 1º de abril. Mais ou menos naquele horário, os tanques do Exército que protegiam o Palácio Laranjeiras o abandonaram e estacionaram centenas de metros além. Passaram a defender o Palácio Guanabara, onde estava o governador golpista Carlos Lacerda.

A data do golpe é, portanto, em 1º de abril de 1964. Os fatos são claros.

 

*Trecho retirado do blog Outras Palavras.

Originalmente publicado aqui.

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