Precisamos do dia em que brancos tenham consciência de sua branquitude

Por Mariana Assis e Juliane Cruz

Sempre que se aproxima o dia 20 de novembro, um grande fenômeno acontece no interior de uma parcela significativa da população. Você provavelmente conhece alguém que sofre com isso – inclusive, pode ser você mesmo.  Entre os sintomas desse fenômeno, estão o desejo incontrolável de gritar para o mundo sobre a necessidade de se reservar um dia para celebrar a “consciência humana” e uma coceira estridente na mão para compartilhar o recorte de um vídeo onde o ator Morgan Freeman diz que precisamos parar de falar sobre racismo para que ele deixe de existir. Você tem sentido isso nos últimos dias? Temos más notícias, são sintomas de branquitude.

Bran-qui-tu-de. Essa palavra parece incomum, né? Mais incomum ainda é encontrar pessoas, sobretudo brancas, que entendam seu significado.

Esse termo, enquanto conceito, diz basicamente que os sujeitos brancos compõem um grupo social pois, como tal, compartilham experiências e perspectivas comuns no mundo. Entretanto, por se terem como o padrão da sociedade, naturalizam os espaços que ocupam a ponto de não conseguirem enxergar que as questões sociais que os atravessam os localizam nesses lugares.

Os sujeitos que pertencem a grupos sociais privilegiados possuem essa característica como diferencial: uma extrema dificuldade para se enxergar enquanto grupo. Ao falar sobre quem mora no Nordeste, é utilizado o termo nordestino, mas quem no sudeste do país se denomina sudestino? Nos referimos a quem vive na periferia como periférico, mas não nos referimos a quem vive nos centros como “centrista” – na verdade, esse termo não tem relação alguma com o grupo social que vive no centro das cidades e nem os dicionários online foram capazes de apontar um antônimo para o termo “periférico”.

A branquitude se tem como a figura universal de humano. Brancos que conseguem entender isso compõem o que sociólogos chamam de branquitude crítica. Mas muitos brancos sequer refletem sobre seus privilégios. Com isso, vem as consequências: dominam a produção bibliográfica, não percebem e muito menos se incomodam por só eles ocupam lugares de poder, ditam o que é certo ou errado, num viés irrealista no contexto brasileiro em que mais da metade da população é negra.

 

Não se reconhecer enquanto um grupo específico faz com que os sujeitos não percebam os privilégios que possuem por compô-lo e tampouco questionarem a respeito das vilipendiações que cometem ao assumirem essa postura. E isso significa continuar em uma posição de conforto, não agir para que as estruturas da sociedade se transformem e ela se torne mais inclusiva.

 

Quando a pauta é o racismo, o não-reconhecimento dos sujeitos brancos enquanto grupo social influencia na manutenção dessa opressão porque ela é estrutural. Isso porque nossa sociedade se estruturou tendo como base o racismo, posto que a escravidão foi o alicerce do acúmulo de capital – social, econômico, cultural, entre outros – que proporcionou aos sujeitos brancos uma posição de poder. Isso tudo significa que o racismo atravessa as experiências de todos os sujeitos, logo os parâmetros que temos de mundo são racistas. Por esse motivo, discursos da branquitude, que servem para mantê-la e reforçá-la enquanto padrão, também são apropriados por pessoas negras.

 

O processo de entendimento de ocupar um lugar social desprivilegiado é duro. Acordar sabendo que a cada 23 minutos um jovem negro é assassinado no Brasil ou abrir o jornal e não se ver representado de forma positiva é doloroso. Dessa forma, há que se ter um esforço para conscientização dos negros sobre seu lugar na sociedade, que muitas vezes é negado com denominações do tipo: “Você nem é tão negro assim. É moreninho”, “O racismo só existe porque falamos dele, somos todos iguais”.

 

Nessa perspectiva localizamos a fala de Morgan Freeman, que é compartilhada principalmente por pessoas brancas para validar seus argumentos, num tom de “viu? Até os negros concordam com a minha ideia”. Como se uma pessoa negra sozinha fosse capaz de representar as ideias do grupo social inteiro. Mais uma vez a branquitude escancara um de seus privilégios: o de ter espaço para se subjetivar de múltiplas formas, não carregando pesos de uma ideologia que busca limitar os espaços que os sujeitos podem ocupar.

 

Esse recorte da fala do ator representa tudo o que uma ideologia necessita para se manter: se naturalizar. Não falar sobre racismo é fechar os olhos e calar a boca diante de um sistema de opressão. Não falar sobre racismo não faz com que os mais de 500 anos de um país que se construiu e se mantém por esse sistema se apague. A branquitude faz isso desde a abolição, tentando criar a ideia de uma falsa democracia racial. Não falar sobre racismo só faz com que não tenhamos consciência dele.

 

Os sintomas da branquitude afetam inclusive as pessoas que possuem discurso revolucionário. Não adianta uma pessoa que não vivencia determinada opressão assumir o posto de salvador da pátria, como uma correspondente oficia,l e falar sobre o que se passa. A história foi marcada sob essa perspectiva e a estrutura continuou a mesma. Óbvio que houve avanços, ainda que mínimos, mas note que nossa preocupação é em reafirmar que temos voz. Os oprimidos precisam falar sobre o que lhes afligem e sobre o que lhes faz feliz. As vidas pretas importam, apesar do Brasil fazer um esforço enorme para o contrário.

 

Quanto à proposta de criação de um dia para celebrar a consciência humana, não é das piores. Nele, nós poderíamos nos organizar para pensar em nosso papel na sustentabilidade da vida no planeta e na luta pelos direitos humanos (e, cá entre nós, feriados são momentos de um intenso alívio dentro do sistema capitalista, né?). Entretanto, mesmo assim, para que haja uma consciência humana, é necessário que entendamos que somos múltiplos e vivemos em condição de desigualdade por conta de questões estruturais.

 

20 de novembro. Essa data marca a celebração de Zumbi dos Palmares, guerreiro que subverteu o sistema e lutou contra a escravidão – período onde negros não eram sequer vistos como humanos – criando uma resistência capaz de salvar a vida – e a existência – de muitos. Viva Zumbi! Viva Dandara! Viva a todos os que lutaram e que lutam pela liberdade e pelos direitos humanos!

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