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Pensando globalmente como povos indígenas na era da mudança climática – Agência Jovem de Notícias

Pensando globalmente como povos indígenas na era da mudança climática

Por Roberta Pisani
Tradução por Jéssica Rezende

2015, Buritizeiro, estado de Minas Gerais, no Sudeste do Brasil. Duas mulheres, duas irmãs Tuxà, guiam seu povo para conquistar 6000 hectares de uma terra que, até o momento, era propriedade do governo brasileiro. Uma terra devastada pelas indústrias de madeira e celulose, pelas imensas monoculturas de eucalipto que monopolizam a paisagem. A lagoa está envenenada, sem peixes. Um cenário que está longe das canções que os ancestrais que viviam naquelas terras costumavam cantar.

Uma terra perdida, T. S. Eliot diria.

“Eu me sentei na praia
Pescando, com a planície árida atrás de mim
Eu devo, pelo menos, colocar minhas terras em ordem?”
(O que o trovão diz, T. S. Eliot)

Depois de 3 anos, este território está florescendo novamente graças à presença do povo Tuxà. Mas o fogo ainda não acabou, e o carvão vivo ainda está queimando. A relação entre o governo brasileiro e os povos indígenas, neste caso o povo Tuxà, é complicada – e o procedimento burocrático para regularizar e legitimar a propriedade dessas terras para os povos indígenas é lento e, muitas vezes, obstruído pelo próprio governo.

Durante uma entrevista, Analia Tuxà, líder do povo Tuxà e uma das duas mulheres protagonistas na reconquista dos territórios em Buritizeiro, disse que após a conquista seguiram as negociações para as terras. Durante o processo, o governo brasileiro propôs que eles aceitassem apenas 10% dos 6000 hectares que conquistaram. Obviamente, eles recusaram.

1992, Patagônia Argentina. A empresa italiana Benetton compra 970.000 hectares de terra que, na verdade, era um território em que vivia uma comunidade indígena – os Mapuches. Apenas alguns meses depois, toda a população Mapuche foi expulsa de seu lar ancestral. Erradicados dos territórios que não foram apenas sua casa, mas também um ponto de referência para toda a construção de sua cultura.

Em 2002, Atilio Curianco e Rosa Nahuelquir ocuparam 385 hectares dessas terras. A empresa italiana ofereceu a eles apenas 7500 hectares – que recusaram a proposta. O conflito em Santa Rosa persistiu até 2014, ano em que o governo reconheceu a posse e o uso de 625 hectares em Santa Rosa para o povo Mapuche. Infelizmente, a discriminação e o empobrecimento do solo dificultaram as condições de vida dessas pessoas – que muitas vezes acabaram trabalhando como mão-de-obra barata e explorada. Além disso, é comum que eles sejam marcados como terroristas se tentarem levantar a voz para clamar por seus direitos.

A mesma coisa aconteceu em Temuco, sul do Chile, em 2016. Machi Francisca, líder espiritual de um dos grupos Mapuche que vivem no Chile, foi presa pela terceira vez por conta de uma denúncia que fez contra empresas que estavam destruindo as florestas nativas ilegalmente com agricultura e corte de madeira.

Ela foi marcada publicamente como uma figura perigosa para o governo chileno e a população civil. Machi só poderia voltar para sua casa muitos meses depois, após uma longa greve de fome e graças à pressão de muitos cidadãos chilenos – mas, principalmente, devido a suas péssimas condições de saúde.

Nesta época, em que todos falam sobre liberdade, realização e determinação de quem somos, como encontrar nosso verdadeiro eu, episódios como os descritos acima não podem ser justificados. É muito fácil fingir liberdade para nós e não para o resto das pessoas que vivem neste mundo. É muito fácil usar a desculpa de um mercado livre e liberal para impor a decisão de alguém sobre a realidade de milhares de pessoas, cuja visão de mundo é totalmente diferente. E é repugnante usar poder, corrupção e dinheiro para conseguir isso. Os exemplos descritos são, na verdade, a história da maioria dos povos indígenas – que todos os dias acordam lutando contra os abusos, a discriminação e a possibilidade de serem expulsos de suas terras novamente e de novo.

 

Mas, felizmente, muitos grupos de povos indígenas – em particular as mulheres – estão começando a criar uma rede sólida, que está crescendo cada vez mais, para contrastar com as corporações e os governos corruptos. Elas estão representando uma facção estruturada que procura reivindicar e lutar por seus direitos como indígenas e também como mulheres. “Não podemos existir sem a nossa terra. Com a nossa terra, eles estão tirando também a possibilidade de nos elevarmos de maneira espiritual. Com nossas plantas ”.

Tuxà significa povo das águas.
Mapuche significa povo da terra.

Ambos povos indígenas estão estritamente conectados com o meio ambiente. Eles são o próprio meio ambiente. Na maioria dos povos indígenas da Amazônia, as mulheres têm uma conexão profunda com a terra; mulheres cuidam de tudo que está relacionado com a agricultura e a colheita, elas desenvolvem um conhecimento profundo do tempo, das pragas e de todas as técnicas necessárias para ter uma boa colheita. Seu conhecimento, originado nas raízes ancestrais, está sendo transmitido de geração em geração.

Mas tudo está ficando cada vez mais complicado. Além da exploração das terras, existe outro grande problema que está colocando em risco as mulheres e os povos indígenas: as mudanças climáticas. Um monstro que muitos consideram apenas um mito, mas que na verdade está queimando florestas, bebendo rios, desequilibrando o planeta. E nós estamos o alimentando. E ele está ficando cada vez maior.

Em Novembro de 2018, 30 mulheres de diferentes partes do Equador se encontraram para discutir sobre como nós devemos agir para combater as mudanças climáticas. Elas sublinharam as consequências da extração massiva de óleos e minerais, a desigualdade que as mulheres têm que enfrentar quando se trata de fazer parte de uma unidade agrícola. No Equador, as mulheres do campo produzem 90% dos alimentos para o consumo nacional, mas apenas 25,4% fazem parte de uma unidade agrícola. Elas também sublinharam a importância de parar com a extração de combustíveis fósseis. Muitas mulheres equatorianas, líderes de movimentos que contrastam com as corporações de combustíveis fósseis, foram submetidas a assédio; violência e também a morte.

As mulheres indígenas do Brasil, Chile, Peru, Equador e Colômbia – assim como outras mulheres da África e da Ásia – não estão lutando somente por suas terras. Elas estão lutando por nós, assim como por elas. Estão lutando contra a violência de gênero e a discriminação que cada mulher – tanto na Europa, quanto na África ou nos EUA ou em qualquer outro país do mundo – precisa enfrentar diariamente. Elas agiram pelo clima, pelas florestas que respiramos e nos mantêm vivos.

Quando você faz parte de uma realidade, é difícil enxergá-la com clareza. Isso é o que está acontecendo no mundo ocidental. Perdemos a capacidade de ver. Pensamos que a globalização significa exclusivamente ter a possibilidade de comprar sushi em todos os países do mundo ou comprar os mesmos sapatos tanto em Milão, quanto em Lima. Na verdade, esta é apenas a parte mais sombria da globalização. A sua maior vantagem é, de fato, a chance que temos agora de ser capazes de “pensar globalmente”, tendo a consciência de que estamos vivendo em um ecossistema maravilhoso e nossas ações têm um peso no que acontece no mundo – de forma positiva e negativa.

Os povos indígenas enxergam nossa sociedade de outra perspectiva. Eles estão conscientes do que estão fazendo e do que está acontecendo realmente, porque eles enxergam os efeitos das mudanças. Porque eles estão vivendo naquele ambiente. A maioria dos ocidentais está vivendo nas cidades, onde é difícil até diferenciar as estações do ano. É óbvio que nós não estamos sentindo tanto os impactos das mudanças climáticas. Nós compramos comida na loja, muitas vezes cultivada em estufas, porque queremos ter acesso a tudo – em todos os momentos. Perdemos o prazer da espera. De seguir o ritmo da natureza. Atualmente, nós estamos dançando hip hop na música clássica.

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