Povos indígenas buscam alternativas de resistência pela comunicação

|Por: Diego Teófilo e Augusto Ramos, do Virajovem Belém (PA) | Fotos: Jéssica Delcarro/Acervo Viração

Segundo o censo demográfico realizado pelo IBGE em 2010, foi constatada a existência de 305 etnias de indígenas no país, com 274 línguas, somando uma população total de 896.917 pessoas, distribuídas em 505 territórios, sendo alguns deles localizados em áreas urbanas.

Recentemente, foi aprovada no Congresso Nacional a Proposta de Emenda Constitucional (PEC) 215, que transfere do Poder Executivo para o próprio Congresso a prerrogativa de demarcações de terras indígenas, a titulação dos territórios quilombolas e a criação de unidades de conservação ambiental. Isso quer dizer que deputados e senadores, muitos dos quais são latifundiários e possuem interesses diretos na exploração destas áreas e na expulsão dessas populações, podem passar a decidir sobre o destino dos povos indígenas futuramente.

Vivemos em um momento histórico em que o atual Congresso Nacional é o mais conservador desde 1964, e possui representação ruralista de mais de 50%, com 257 deputados nesta bancada. São eles os maiores responsáveis pela violência nos conflitos que envolvem as disputas por áreas de terras indígenas e, sobretudo, pela omissão e ausência do Estado no sentido de garantir direitos desses povos.

A pesquisa Indígenas no Brasil – Demandas dos Povos e Percepções da Opinião Pública, realizada pela Fundação Perseu Abramo e Instituto Rosa Luxemburgo Stiftung, com etnias indígenas de todas as regiões do país, revela que os maiores problemas dos povos indígenas da atualidade são relacionados a terra como os conflitos, invasão, perda e abandono, seguido de falta de acesso a saúde e educação, respectivamente.

Para superar este cenário, onde o processo de invisibilização é pautado no campo da educação quando o mesmo tem as suas narrativas negadas nos livros didáticos, deturpadas pelos grandes meios de comunicação e pouco assistido pelo Estado brasileiro, os povos indígenas, assim como outros segmentos, buscam alternativas para se comunicarem.

Um dos estereótipos que precisam sair do imaginário da sociedade é que as populações indígenas vivem somente isoladas e que ao terem contato com as novas tecnologias passam a perder sua identidade enquanto populações indígenas. É preciso, portanto, compreender que os próprios índios construíram por anos suas formas de se comunicar e que a comunicação também é essencial na manutenção das relações.

Participantes jovens do Encontro da Rede Índios Online, em Ilhéus (BA), em setembro de 2012

Resistência na rede

Seguir avançando é o grande desafio, criar as condições de acesso e apropriação de novas tecnologias e instrumentalizá-la para emancipação coletiva e enfrentamento de violações de direitos é a alternativa inteligente para superar as desigualdades e construir parcerias estratégicas com outros parentes de etnias irmãs para sobrevivência de nossa cultura, assim surge o portal Índios Online, uma rede que reúne diferentes etnias num canal de diálogo, encontro e troca. Um de seus objetivos é facilitar o acesso à informação e comunicação para diferentes povos indígenas, estimular o diálogo intercultural, conhecer e refletir sobre a nossa situação atual. Ou seja, um espaço virtual para comunicar e construir um outro olhar sobre as populações indígenas rompendo com a visão colonizadora.

Para o integrante da Rede Índios OnlineFabrício Titiah, da etnia Pataxó Hahãhãe, “os usuários da rede usam o portal para esclarecer determinados assuntos, fazer denúncias de determinadas coisas que não estão funcionado na comunidade e para dar visibilidade às suas comunidades. Nas retomadas de nossas terras, as mídias, em geral, criam uma outra visão, distorcendo nossa imagem, transmitindo uma péssima ideia aos expectadores. É nesse momento que a atuação dos jovens indígenas com a rede Índios Online nos ajuda fortemente a divulgar o que está acontecendo e quem somos realmente”, afirma.

Desde quando entrou no ar em 2004, o portal da Rede Índios Online teve mais de 5 milhões de visualizações, 4.252 matérias publicadas, participação de 921 usuários de 35 etnias de 16 estados Trata-se de uma rede composta por voluntários que buscam o desenvolvimento humano, cultural, social e econômico de suas nações e benefícios para todos os seres vivos sem distinção de nacionalidade, raça, cor, crenças. Trabalhando constantemente para sua qualificação e conquista de autonomia, a rede conta com apoio da ONG Thydêwá, de Ilhéus (BA), do Ministério da Cultura e outros parceiros.

 

* Essa matéria foi publicada originalmente na Revista Viração edição 110

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