Por uma Pedagogia da Sexualidade, ou sobre a importância da educação sexual

Há sexualidade além do sexo como prática? Neste texto encontramos reflexões acerca do desenvolvimento psicossexual e como a educação formal impacta neste processo de construção e identificação de si.

Por Lucas Schrouth

Sexualidade e desenvolvimento humano1

A sexualidade é um fator universal da vida humana, até mesmo para aqueles que a negam ou reprimem.

Mas o que de fato é a sexualidade?

Ela constitui-se de comportamentos voltados à necessidade de suprir o desejo sexual em suas mais diversas formas de se tornar manifesto. Os debates e reflexões acerca das características que permeiam a pulsão sexual ocorrem há um certo tempo; com o advento da psicanálise freudiana, outro horizonte se abriu no que tange ao desenvolvimento e constituição da sexualidade humana.

Na perspectiva de Freud, o desenvolvimento psicossexual se dá em fases relacionadas ao desenvolvimento interacional próprio do ser humano. Cada uma dessas fases possui suas próprias características e possíveis variações, são elas: fase oral, 0 – 2 anos de vida; fase anal, 2 – 4 anos de vida; fase fálica, 4 – 6 anos de vida; fase de latência, 6 – 12/13 anos de vida, e podem apresentar variações de maturação e transposição. Segundo Freud, dentro dessas fases o objeto de desejo e a zona erógena variam, respectivamente: seios da mãe e boca; controle do esfíncter e mucosa ano-retossigmoidiana; controle da micção e uretra; dessexualização das ações e partida ao desenvolvimento relacional-social; e por fim a genitália seguida de crises narcísicas e de identidades.

Mas analisar de forma retroativa todo esse percurso histórico-psicológico não é tão importante, e decorar todos esses os processos psicanalíticos não é relevante – a questão que levanto nessa coluna é – A VIDA SEXUAL EXISTE ANTES DA PRÁTICA SEXUAL. Aliás, é a partir dela que se constitui, e não o contrário. Portanto, é preciso compreender que a prática sexual, o sexo (como ação), é apenas uma parte de como a sexualidade se manifesta, mas existe um horizonte anterior a essa prática sexual.

A sexualidade é um âmbito da vida humana importantíssima. Existem diversas ciências que dedicam áreas para estudar esse aspecto de nossa natureza, como a psicologia da sexualidade, sexologia e a antropologia. Vemos que, nos últimos anos, o acesso à informação felizmente trouxe progressos gigantes. No entanto, é preciso haver continuidade, organização e encadeamento para que todo esse conhecimento siga fazendo sentido.

Sexo e sexualidade numa perspectiva social2

Jung traz uma visão interessante sobre o caráter privado da sexualidade ao postular sobre práticas do inconsciente coletivo que incorporamos ao nosso inconsciente individual; uma dessas é a ideia de privação, de não elucidação, de não público da sexualidade e do seu entorno. Essa visão remonta à clássica passagem bíblica:

8 Quando soprava a brisa do entardecer, o homem e sua mulher ouviram o Senhor Deus caminhando pelo jardim e se esconderam dele entre as árvores. 9 Então o Senhor Deus chamou o homem e perguntou: “Onde você está?”.

10 Ele (Adão) respondeu: “Ouvi que estavas andando pelo jardim e me escondi. Tive medo, pois eu estava nu”.

11 “Quem lhe disse que você estava nu?”

Gênesis 3.8-11

Paremos aqui e vejamos que antes de comer o fruto proibido, Adão e Eva, que habitavam o paraíso, não tinham percepção de sua nudez: Este é um bom arquétipo para se pensar a tomada de consciência que se dá ao processo de maturação em sociedade, chega um momento em que você encara a si, mesmo que inconscientemente, e tem de ser homem ou mulher – no que é ser homem ou mulher em determinado contexto, onde se dá a consciência da existência do pênis e da vagina e também de seus papéis sociais binários e sua imposição perante a sociedade -, e toma consciência de si.

Portanto, a sexualidade e tudo que dela decorre sempre foi tratado como tema próprio da vida privada. Há de se questionar a origem desse puritanismo que produziu o seu inverso. De fato, ao longo da história a promiscuidade hedonista sempre esteve presente nas mais diversas esferas sociais, apesar do apregoamento burguês da ideia falsa de que tais ‘subversões’ eram práticas de essência das classes ditas inferiores.

O ocidente, construído sob fundamentos cristãos, nos legou certo caráter moralista, puritano e um tanto simplista de sexualidade, reduzindo-a a meras expressões de heteronomalias doentias que legitimavam ações hediondas como abandono parental, estupro e assédio, agressões que recaiam majoritariamente às mulheres e repressões das mais diversas ordens.

É preciso destacar que de fato é nas relações heterossexuais que é possível a reprodução da espécie, fato que foi usado por muito tempo para deslegitimar qualquer outra forma de afetividade. 

Mas é preciso entender que o contrário deste puritanismo obscurantista não é a promiscuidade (também não esclarecedora). Muitos interpretam a realidade entre dois pólos, como um pêndulo contínuo. Há sempre um meio, um encontro positivo entre realidades e, no caso da sexualidade, trata-se de levar a informação e os meios para uma prática mais saudável. Isso só pode ser possível com uma política eficiente de educação sexual e no reconhecimento das pessoas LGBTQIA + como sujeitos de direitos e que devem ser ouvidos e respeitados.

Além da Heteronormatividade e do Pênis

Ao longo dos três últimos séculos, movimentos têm surgido a fim de questionar diversos padrões até então inabaláveis – o movimento feminista e o movimento gay trouxeram, sem dúvida, novas lentes para se enxergar as relações afetivas, sociais e sexuais. Então abriu-se um novo horizonte de paradigmas, um horizonte colorido por assim dizer, e a psicologia no geral contribui bastante para se pensar tais relações além do homem hétero.

Coloca-se em pauta questões como a constituição das demais sexualidades a partir de seus sujeitos: a mulher, como agente de sua própria constituição sexual e que tem voz acerca do que deseja para si, abre um novo campo de estudo, de escuta, de análise e de descobertas. A voz das mulheres pode passar a ser ouvida; outras frentes também foram importantes e ainda são nessa abertura de paradigmas que transpassam os padrões estabelecidos e lutam pela constituição de sujeitos na sociedade, como vemos nos casos do movimento LGBTQIA+, do movimento negro, e nos atravessamentos levantados em suas inter-relações.

O ambiente escolar nesse processo de conhecimento3

Sem sombra de dúvidas a escola, a educação formal, exerce uma força reguladora e até opressora no que é chamada de ‘pedagogia dos corpos’, ou seja, na modelação dos caráteres que estão se formando. Esta perspectiva levanta questões: em que cidadão a escola me formou? Um ser ‘comportadinho’? A que padrão a escola ainda responde? A estas perguntas pode-se responder apontando para os reflexos de nossa sociedade, repressivamente machista, heteronormativa e patriarcal vistos na escola.

Estas características da nossa sociedade impactam na formação de estudantes que, enquanto se desenvolvem cognitivamente no ambiente escolar também atravessam questões emocionais, afetivas e de seu desenvolvimento psicossocial e afetivo e são profundamente influenciados por seu meio, que pode ser ao mesmo tempo acolhedor e repressor, não representativo ou semelhante, diverso ou homogeneizado.

É preciso ter consciência que jovens querem e precisam saber sobre sexualidades, e não podemos apenas dizer que esperem alguns anos; tem de haver alguma resposta de fato esclarecedora. Como professor, certa feita numa sala de 5° ano (alunos na faixa de 10/11 anos) em um papo descontraído sobre sexualidade, uma aluna me disse o seguinte:

– Eu não sei o que eu sou (isto a respeito da sua orientação sexual), só vou saber aos 12 anos.

Vejamos que ela parte, de certa maneira, da teoria freudiana de desenvolvimento sexual – com a qual ela deve ter entrado em contato de forma genérica, visto que de forma abstrata entendeu que o despertar de sua libido está atrelado ao de seu processo de maturação fisiológico. Aí está a importância da educação sexual – não a mera pedagogia dos corpos que visa prevenir problemas ou orientar sobre higienização – que na verdade serve ao enquadramento de pessoas em padrões a elas não apresentados claramente, mas aquela que elucida e acolhe nos momentos em que precisa fazer isso.

Gostou do texto? Confira as Referências:

1 O Desenvolvimento Afetivo e Intelectual da Criança, B. Golse.

2 O Homem e seus Símbolos, Carl G. Jung.

3 O Corpo Educado: Pedagogias da Sexualidade, G.L. Louro (org).

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1 Comentário

  • Desde que eu era jovem, na década de 70/80, que a chamada “heteronormatividade” já dividia o banheiro por gênero, quer em escolas ou colégios, assim como em prédios de empresas! Com 12 anos e 9 meses, fiquei adolescente (1a. ejaculação e espontânea), surgida quando fui atender um colega, que estava na porta da copa da casa em que eu morava, pela atração que as pernas dele me despertaram! Se ele percebeu, foi discreto, até porque conversávamos mais amistosos! Meses se passaram e, no banheiro (naquela época havia mictório, coletivo), um aluno que estudava na sala ao lado da minha e, que havia me paquerado ao passar pelo corredor e, discreto fui ao encontro dele, urinou ao meu lado e, depois no box do banheiro me fez o popular cunete! Conversamos depois sobre a aula que eu estava tendo, de ciências, aparelho reprodutor e, ele até comentou sobre o anus nos é ensinado como órgão excretor e completei a frase que o pênis dele antes também era e naquele momento estava ereto (fiz até oral)! Depois pensei como negar a homossexualidade, se o próprio corpo sinaliza, se a atração flui! Eu e ele, mesmo gênero, nos paqueramos e, sem script, estávamos ali em complementariedade!

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