Por que é tão difícil para jovens negras terem acesso ao mercado de trabalho?

No dia 07 de dezembro passado, fui convidada pela Agência Jovem de Notícias a acompanhar, de forma virtual, o webinário “Desafios na inserção de jovens mulheres negras no mercado de trabalho”, promovido pelo Mude com Elas. Nesse texto, trago algumas reflexões sobre as dificuldades que jovens negras enfrentam quando falamos de empregabilidade e carreira.

Por Victoria Souza

Eu realmente não sei como começar esse texto. Falando de racismo? Falando de desigualdade social? Falando das inúmeras vezes que uma pessoa negra precisa explicar sobre as dificuldades enfrentadas no mercado de trabalho dependendo do tom da sua pele? 

Por que é tão difícil para jovens negras terem acesso ao mercado de trabalho?Muitos diriam que o acesso ao trabalho está difícil para qualquer um, que é o momento da economia, que não deveríamos separar as pessoas pela sua cor, afinal pessoas brancas também estão desempregadas e bla bla bla. O Brasil é o retrato das desigualdades sociais, e isso nunca foi tão evidente, mas principalmente, nosso país é o retrato das desigualdades raciais. Já disse por aqui inúmeras vezes, o quanto uma pessoa negra precisa “correr” mais do que outros grupos étnicos em todos os sentidos!

Imagem por Christina @ wocintechchat.com / Unsplash

Ser uma mulher preta e periférica é uma combinação praticamente explosiva quando se vive em um país racista, classista e machista. Essas duas condições juntas, automaticamente significam menos chances de desenvolvimento, seja esse desenvolvimento relativo ao mercado de trabalho ou acadêmico.

A pandemia deixou ainda mais exposta uma problemática que já vem ocorrendo há muito tempo (desde que a lei áurea foi falsamente assinada): a cor da pele de uma pessoa pode ser crucial para o acesso à oportunidades. No que tange à inserção profissional, mulheres negras enfrentam mais dificuldades do que outros grupos. Falando de salário, por exemplo, a pesquisa da Box1824 em parceria com a Indique Uma Preta constatou, em 2020, que uma mulher negra recebe menos da metade do salário de um homem branco. Aliás, outra recente pesquisa apontou que 705 mil homens brancos (1% da população brasileira) têm renda maior do que 33 milhões de mulheres negras no país.

Esses dados nos fazem pensar que a mulher negra nunca foi alforriada!

A mulher negra passou da senzala para a casa grande com o desejo de uma sociedade racista de que ela continuasse servindo os outros grupos, mas agora, no formato de racismo velado.  Essas mulheres estudam, muitas vezes mais do que homens brancos, e depois de muito sacrifício ocupam as mesmas posições, mas ainda assim, não conseguem equiparar os salários, sendo remuneradas bem abaixo do que produzem por conta de sua cor.

O que é interessante (se é que podemos denominar assim) é que as mulheres negras começam a trabalhar muito antes do que os outros grupos étnicos, o que não significa que elas atingirão sucesso profissional ou se aposentarão mais cedo. Muito pelo contrário, com o baixíssimo salário e poucas oportunidades de desenvolvimento, essas mulheres continuarão trabalhando para sobreviver e vivendo para trabalhar. 

Esse trabalho árduo, iniciado muitas vezes como trabalho infantil, é informal, precário e imposto, como por exemplo o direcionamento delas aos trabalhos domésticos, de limpeza e assistência a outras famílias – como babás e empregadas. Esse tipo de trabalho não exige tanta qualificação profissional e, ao mesmo tempo, em alguns casos, impede que a mulher possa se especializar e conquistar espaços diferentes, seja nas universidades ou em postos de direção em empresas. As poucas que conseguem são conhecidas como vencedoras, e quem não chega lá, pela falácia meritocrática, é porque não se esforçou o suficiente, afinal “Todos podem vencer na vida” e “Querer é poder”!

Todos podem vencer, exceto quando o sistema te boicota; te proibindo de por os pés na universidade pública (“Cotas são movimentos racistas e injustos”), te proibindo de participar de processos seletivos para trainee (“Um absurdo existir processo seletivo exclusivo para negros”), te proibindo de chegar na liderança de grandes empresas (“Porque não dá para nivelar por baixo”). Não é difícil encontrar essas frases nas postagens, falas e pensamentos de algumas pessoas.

Do RH ao CEO, diversidade é só uma palavra bonita ou um chamariz de investidores alucinados com a “moda” do ESG (sigla em inglês para Governança Ambiental, Social e Corporativa), porque nas fotos de comemoração de final de ano da “firma”, a verdade é que não se veem os tais times diversos. Resumindo: por conta da cor da sua pele, o sistema te boicota, apesar de muitas pessoas acreditarem que o racismo velado do mercado de trabalho é uma espécie de teoria da conspiração.

 Imagem: Edson Lopes Jr / A2AD / FOTOS PÚBLICAS

É extremamente desigual o simples ato de procurar e se candidatar a uma vaga de emprego. As mulheres questionam: Será que devo alisar meu cabelo? Será que posso aparecer no primeiro dia com meu turbante ou minha trança? Questionamentos aparentemente sem sentido, mas que norteiam a vida de diversas mulheres negras que se acostumaram a seguir um padrão para “pertencer” ao local de trabalho e se parecer mais com os outros colaboradores.

Essa difícil realidade passa a mudar de perspectiva há pouco tempo, já que a sociedade passou a dar um pouco mais de importância para o tema “diversidade e inclusão”.  De fato, ainda existe muita propaganda de diversidade falsa nas empresas, como a chamada “Diversity washing” (lavagem da diversidade), pela qual as empresas se intitulam diversas, mas não são. No entanto, a crescente desigualdade de oportunidades começa a não ter mais espaço no mercado de trabalho, graças à intervenção de movimentos e projetos sociais como o Mude com Elas. Com o apoio e suporte desse projeto, jovens negras começam a ter mais acesso a oportunidades no mercado de trabalho, que clama há algum tempo por mais diversidade.

Através de parcerias com atores diversos e empresas, o objetivo do Mude com Elas é auxiliar na inserção de mulheres jovens negras no mercado de trabalho. Dadas as informações que compartilhei acima sobre racismo, nossas desigualdades sociais e a necessidade de ampliar a diversidade, a realização de discussões concretas, pesquisas e ações educativas que modifiquem esse cenário é crucial, pois essas ações têm o poder de melhorar a vida de jovens que ingressam em um mercado ainda muito competitivo e pouco inclusivo.

No dia 07 de dezembro passado, fui convidada pela Agência Jovem a acompanhar, de forma virtual, o webinário “Desafios na inserção de jovens mulheres negras no mercado de trabalho”, promovido pelo Mude com Elas com o objetivo de fortalecer o debate urgente sobre o enfrentamento das desigualdades de acesso ao mercado de trabalho e geração de renda de jovens mulheres negras, que são as mais atingidas pelas crises econômica e social. O evento, mediado por Micoli Cerqueira (Mude com Elas), contou com a participação de Ana Minuto (Potências negras), Maria Sylvia (Geledés) e Stephanie Felício (Uneafro), além de jovens multiplicadoras do Mude com Elas. 

Existem inúmeros desafios para inserir jovens negras no mercado de trabalho – vão desde o racismo estrutural até a ineficiência do estado em criar e executar políticas públicas para diminuir as dificuldades enfrentadas por esse grupo. Ainda há muito o que ser feito para contornar essa realidade, e o primeiro passo é parar de falar de diversidade e começar a fazer a diversidade acontecer efetivamente.

Sim, começamos a empretecer os espaços de trabalho muito tardiamente, mas é importante notar que os progressos começam a ser vistos, mesmo que timidamente, com empresas incluindo mais negros em cargos de liderança e de tomada de decisão. Ações afirmativas são cada vez mais necessárias e a juventude negra nunca precisou tanto de movimentos como o Mude com Elas está realizando. 

Apesar desses avanços e necessidade dos atores citados, as jovens negras também precisam entender que a luta por equidade é uma luta cansativa e solitária, pois as políticas públicas nunca foram feitas para elas e que muitas ações afirmativas são estratégia do “velho marketing”, que insiste em reinar nas empresas.

Precisamos entender nosso poder de ação positiva e a responsabilidade de sermos a geração que irá contribuir para que as próximas mulheres negras não encontrem apenas homens brancos e cis em cargos de liderança, para que não existam mais poucas mulheres negras em um processo seletivo de trainee, para que não sejam as mulheres negras as que não tiveram outra opção no mercado de trabalho a não ser aceitar cargos operacionais… enfim, para que elas não encontrem mais tanta dificuldade e racismo como encontramos hoje ao longo das nossas vidas profissionais. Como faremos isso? Ocupando os espaços e criando novos espaços!

Se você quiser, te convido a assistir a íntegra do webinário, disponível no canal da Ação Educativa no Youtube:Webnário “Desafios na inserção de jovens mulheres negras no mercado de trabalho”:

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