São Paulo – Usuários de drogas são deslocados da praça Júlio Prestes para a praça em frente à estação Julio Prestes, conhecida como praça do Cachimbo, na região da Cracolândia (Rovena Rosa/Agência Brasil)

Por que a Cracolândia resiste depois de tanto tempo?

Não deveria, mas a Cracolândia já faz parte da nossa sociedade, assim como os famosos cartões postais do Masp e da Avenida Paulista. Esse é, no entanto, um cartão postal triste que os governantes querem esconder debaixo do tapete.

Por Victoria Souza

Quando escrevi esse texto, tinha acabado de assistir (3 vezes) ao clipe Ilusão, ainda em 2020. E como dizem, foi pedrada atrás de pedrada. É incrível ver como o poder da música consegue despertar nossos sentimentos mais profundos. Ilusão!

Não tinha nome melhor para essa música, por que todos os dias, quantos iludidos não vão parar na Cracolândia?

Aliás, poderíamos fazer um questionamento aqui: qual o motivo de a Cracolândia ainda existir? Quem ganha com isso, para que não haja um fim? Ou será que todos nós perdemos?

A primeira e última vez que visitei a Cracolândia, foi acompanhada pelos pais. Passei por ali de carro, mas mesmo assim, consegui sentir a atmosfera triste daquele lugar. Os rostos deprimidos, magros, sem vida. Vários corpos, ou “zumbis”, homens e mulheres sem esperança, andando sem rumo, vagando com seus trapos e latas na mão. O que eu senti? Um misto de dor, tristeza e incredulidade. Como é possível existir um lugar como esse?


São Paulo – Usuários de drogas são deslocados da praça Júlio Prestes para a praça em frente à estação Julio Prestes, conhecida como praça do Cachimbo, na região da Cracolândia (Rovena Rosa/Agência Brasil)

Como é possível as pessoas fingirem que isso não existe e continuarem vivendo normalmente?

Eu realmente não acreditei que as pessoas estavam ali naquela situação. Os policiais passam por perto sem fazer nada. Mas o que fazer? Várias pessoas andando para cima e para baixo, sem fazer nada. Mas o que fazer? Entra e sai prefeito prometendo fazer alguma coisa, mas saem sem fazer nada. Mas, o que fazer?!

Essa é a pergunta que não quer calar, leitor (a) amigo (a)!

A pergunta de 1 milhão de dólares. Entramos em um looping infinito tentando, pensando, criticando e argumentando, mas ninguém ainda é capaz de resolver a incógnita que é a Cracolândia. Isso porque muitos acreditam que ela começa entre as estações Júlio Prestes e Luz. Mas, não, eu te garanto que ela começa muito antes:

Começa na criança exposta desde cedo às drogas, começa na falta de orientação da família, começa na falta de políticas públicas para combater o tráfico de drogas, começa na falta de investimento na educação, começa com nossos governantes que não se associam à academia e à sociedade para pensar em soluções sociais adequadas e como diz a música começa na ilusão que as pessoas têm de fugir da realidade.

Fugir é muitas vezes nossa vontade. Fugir da vida, dos problemas, das pessoas que nos incomodam. Por isso as drogas, sejam lícitas ou ilícitas, têm muitos adeptos. Convenhamos que a vida não é fácil e muita gente acha que “viver bem” é viver sempre na euforia. Viver não pode ser sinônimo de sentir sensações de prazer que dominam nossos instintos e nos trazem momentos de tranquilidade e felicidade. Logo no início da música, ouvimos a seguinte frase: “Aquilo que te faz voar, tira o seu céu e o que sobra, é o inferno!”

Será que adianta? Uma parte da música que me toca fundo é dizerem que a “Vida não é filme”. Ou seja, é uma experiência real, mas insistimos em nos iludir e ir para o “surreal”, porque como eu disse acima, viver nem sempre é fácil e as coisas nem sempre sairão da forma como a gente quer.

Falando um pouco sobre querermos “fugir” da vida, não é apenas com drogas ilícitas que fazemos isso. Hoje em dia, o uso excessivo das redes sociais também é uma fuga; as pessoas passam horas assistindo filmes e maratonando séries como uma fuga. E assim vamos fugindo das pessoas, dos problemas, do “mundo cão” e da vida, muitas vezes sem perceber que não adiantou nada, porque os problemas continuam ali, os questionamentos continuam ali. Como fantasmas, tudo isso volta para te assombrar, para te cobrar.

E a vida é cobrador cruel dependendo das nossas escolhas.

Mas como a Cracolândia começou?

Cracolândia em São Paulo. Imagem: Rovena Rosa/Agência Brasil

A deterioração do centro começa em meados dos anos de 1950, mas a região da Praça da Luz começou a ser assolada pela onda de Crack nos anos de 1990. Ou seja, a “ousadia” da Cracolândia em “sobreviver” há mais ou menos 30 anos intriga a todos os paulistanos. Com certeza, muitos dos nossos governantes não conseguem enxergar ali seres que precisam de ajuda, mas sim a vergonha da cidade, que precisa ser “varrida” para debaixo do tapete, como ocorreu em 2014, durante a Copa do Mundo.

O comércio das drogas funciona todos os dias, a céu aberto. São vendidas em barracas e todos sabemos disso, mas certamente ainda falta algo para extinguir esse comércio e entender o que pode ser feito para impedir que as “mini cracolândias”, espalhadas pela cidade, continuem se desenvolvendo.

O investimento nas regiões degradadas da cidade seria uma opção, segundo estudiosos do assunto. Mas, mais do que investir em arquitetura urbana para que as pessoas não cheguem na Cracolândia, precisamos investir na arquitetura humana para que a Cracolândia “não chegue” nas pessoas. Nem todo problema é resolvido com tecnologia: precisamos de investimento em humanização. Um olhar diferente para os dependentes, um olhar diferente para a situação, da união da sociedade em torno do bem coletivo, estudar o tema de forma multi e interdisciplinar, debater o tema e construir uma solução coletiva.

O meu sonho é não precisar passar com meus filhos na Cracolândia, ou então tirá-los de lá como muitas mães tentam todos os dias.

E ao final do texto, você leitor (a) vai dizer que leu todo esse texto e apesar disso, nenhum de nós dois chegamos a uma conclusão. Mas eu vou te dizer: não é bem assim!

Enquanto as políticas públicas não estiverem firmes, enquanto não cobrarmos dos nossos governantes e construirmos uma solução efetiva para a Cracolândia, a conclusão é que não comecemos a Cracolândia em lugar algum. A conclusão é que eduquemos as crianças, que “matemos” as “mini cracolândias” quando enxergarmos que ela começa a se formar, e que levemos essas reflexões para todos que precisam delas, enxergando as pessoas como seres humanos que precisam de nossa ajuda.

Até quando a lata vai chacoalhar?

Quer ler mais? Confira essas referências

  1. Sobre a cracolândia e por que o problema é mais profundo
  2. Onda de devastação pelo crack começou há 27 anos em São Paulo
  3. Traficantes e usuários de drogas deixam a Cracolândia e ocupam outras áreas de SP
  4. Cracolândia vê movimento crescer 21% após dois anos de queda

Ver +

2 Comentários

  • A questão é ampla: Quantas décadas mais os policiais continuarão “secando gelo” e, assistindo um certo “respeito” da Justiça “criando” nas penitenciárias “galerias” que separam os presos pelas facções a que pertencem! Até quando as Autoridades em Saúde cederão aos laboratórios farmacêuticos mantendo efeitos colaterais em suas formulações e ditando que ficarão isentos de indenização caso tais efeitos colaterais venham a se “consumar”, como presenciamos com as vacinas da Covid-19, amplamente divulgado pela imprensa! Até quando assistiremos fumantes e alcoolatras, lutando a cada dia, via de regra, sozinhos e, com “acolhimento” dos traficantes? Para Refletir: Quanto você que vai a campo assistir futebol, paga pelo ingresso/bilhete? Como ouvimos que a Crise Hídrica ou Seca, guerra Ucrânia e Rússia, Crise Sanitária, nocautearam a Economia Brasileira e Mundial, mas Neymar, Cristiano Ronaldo, Messi, bem: continuam sorrindo! Será que seus patrocinadores estão abrindo mão de seus lucros Não tão vultosos, em troca, de ve-los sorrindo?

  • PARABÉNS, pelo seu texto. PARABÉNS por escrever o que é a realidade dessa CRACOLANDIA, paulista.
    Parabéns por mostrar que os nossos governantes, só vêem esse problema, na época das ELEIÇÕES. Logicamente com o intuito de se eleger e nada mais.
    PARABÉNS

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *