Político de estimação e a ignorância no voto

Alguns comportamentos sociais pré programados no cérebro contribuem para escolhas sem reflexão crítica e contribuem para o acirramento da polarização política

Por Victor Augusto Capellari

Alguns dias atrás estava conversando com um amigo, quando inocentemente perguntei qual era sua opinião acerca do vídeo de um youtuber Henry Bugalho, pela expressão dele descobri que não conhecia o canal, mas foi a pergunta feita em seguida que me desmotivou, “ele fala bem ou mal do presidente?”

Talvez para outras pessoas essa pergunta não carregue nenhum valor específico, mas eu estou cansado de ouvir variações dela. Parece que falar sobre política se resume a falar bem ou mal de um político, e fazer exatamente o oposto quando estiver tratando de alguém com pensamento minimamente diferente, fugindo de qualquer análise mais aprofundada sobre a atitude tomada / negligenciada e seu impacto na nossa sociedade. Tal atitude se torna imediatamente nefasta quando realizada pelo político escolhido para vestir de inimigo.

Parece que cada vez mais entramos numa dinâmica de políticos de estimação. Quando defendemos ‘o nosso’ com unhas e dentes, passamos da fase do “rouba mas faz”, que contribuiu para lotar o cenário político de indivíduos que na maior parte do tempo apenas roubam. Agora estamos em um novo tipo de fase, ainda mais doentia e desligada da realidade: uma era de cancelamento de antigos aliados e adoração bizarra de figuras políticas, que parecem ganhar um ar messiânico na visão de certa parcela da população.

O maior problema nesse cenário é que, enquanto seres sociais, temos o hábito de repetir comportamentos de nossos semelhantes. Afinal, se muitas pessoas fazem aquilo de uma maneira, só pode ser a maneira certa, como evidencia este experimento da sala de espera, que testou a conformidade social:

Em uma sala repleta de atores, todos levantam ao escutar uma sirene. Aos poucos, novas pessoas são introduzidas na sala e os atores retirados, mas o comportamento de levantar-se ao ouvir a sirene continuou, mesmo depois de todos os atores terem saído, O comportamento padrão se seguiu, sem que ninguém presente na sala soubesse explicar o motivo de realizar aquela ação.

Manada de Zebras

Esse é um mecanismo criado pelo bem da nossa sobrevivência como espécie: na savana não haveria tempo para decidir ou refletir sobre tudo, então era comum o grupo inteiro aderir a regras ou crenças, mesmo que essas, na prática, não sirvam para nada.

Por isso, é comum nosso cérebro economizar na decisões, principalmente naquelas que considera inferior ou repetitiva, ou você se lembra como escova os dentes, ou pensa antes de pegar o celular ao acordar. Esses hábitos são memórias de trabalho tão bem enraizadas que nem chegamos a perceber sua realização.

Esse processo ficou evidenciado no experimento do Centro Bernstein de Neurociência Computacional, em Berlim: cerca de dez segundos antes de você conscientemente tomar uma decisão, como o momento de apertar um botão, seu cérebro já havia escolhido por você.

Por esses e outros motivos, colocamos nossa confiança e o peso da responsabilidade em outras pessoas, nossos representantes. Todavia, quando passamos a votar ou fiscalizar a política, sem usar nenhum senso crítico, acontece que nossa própria habilidade de avaliar criticamente fica mais frágil.

Para exemplificar esse efeito, a filósofa Hannah Arendt cunhou o termo ‘banalização do mal’, no qual se separa valores éticos individuais do comportamento do grupo. Por essa teoria a filósofa explicou, na época, como tantas pessoas aceitaram as atitudes do partido nazista e seguiram Hitler.

Sem querer extrapolar esta reflexão, é preciso entender que existem mecanismos que tornam mais fácil não pensar muito sobre política e simplesmente comprar o pacote, marginalizando qualquer nuance como parte do outro lado, para não gastar energia refletindo por conta própria desenvolvendo um teor crítico, mas não compreendemos que o campo da política é onde realmente são tomadas decisões: se continuarmos a agir nas urnas como num campo de futebol, a escolher um time, me preocupo com o que o futuro nos reserva.

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2 Comentários

  • […] O problema é que muitas pessoas têm dificuldade em aceitar essa responsabilidade, e permitem que outros guiem suas escolhas, e nessas de passar a responsabilidade para terceiros, corremos o risco de perder nosso senso crític… […]

  • Muito bom! Meus parabéns.

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