Podemos lançar um outro olhar sobre o Afeganistão?

Neste artigo especial para a Agência Jovem, Mona Perlingeiro nos convida a olhar para o Afeganistão sob outras óticas, além das imagens de terror e intolerância que a grande mídia nos mostra. Aqui você vai encontrar referências para orientalizar suas fontes sobre o povo e a cultura afegã.

Por Mona Perlingeiro*

No dia 14 de agosto, os Estados Unidos anunciaram a saída de suas tropas do Afeganistão, e o resultado todo mundo já viu: pessoas tentando fugir desesperadamente do país e imagens de homens e mulheres com turbantes e véus, falando uma língua que é incompreensível para os brasileiros.

Mas será que podemos lançar um outro olhar sobre o Afeganistão?

Uma das formas de leitura sobre as consequências da saída das tropas norte-americanas do país são baseadas nas vestimentas usadas pelas mulheres no Afeganistão, e imagens emblemáticas de pessoas com roupas mais curtas circularam na internet mostrando um país que era mais progressista nas décadas de 60 e 70.

Contudo existem alguns problemas (graves) em torno dessas imagens: a maioria delas são  do Irã, país localizado ao oeste do Afeganistão e que, por acaso, não é a mesma coisa.

Fotografia de estudantes iranianos na década de 1970.

Esta imagem foi uma das que mais circularam pela internet na última semana, para usar como exemplo sobre como a sociedade afegã regrediu em suas liberdades individuais, especialmente para as mulheres. O questionamento que fica é: deveria a medida da roupa da mulher ser a régua para o mundo refletir sobre a liberdade?

Dito isto, vamos entender um pouco da história…, mas antes, vejam onde o Afeganistão se localiza no mundo:

Figura 2. Mapa. Divulgação
 Figura 3. Mapa do Afeganistão. Divulgação

O Afeganistão é um país asiático em um ponto geopolítico estratégico. Historicamente, o local teve uma função de trânsito de produtos e pessoas que atravessavam o Mediterrâneo e Oriente Médio a caminho da Índia e da China, ou seja, é um lugar que sempre esteve na mira de diversos países, especialmente o Império Britânico e o Império Russo. Por esta razão, o país foi uma peça política importante para a coroa britânica ao longo do século XIX, principalmente por sua proximidade com a Índia, que era entendida como a “grande joia da coroa britânica”.

Após a assinatura do Tratado de Rawalpindi em 1919, os ingleses permitiram a fundação artificial de um país, criando uma grande colcha de retalhos étnicos, que não levavam em conta as diferenças entre os indivíduos que habitavam o território. Ao mesmo tempo, também havia interesse de controle da região por parte dos russos, e o Afeganistão estava no centro dessas disputas, mesmo após a sua independência.

O fato é que, os povos afegãos estavam muito mais ligados a uma ideia clânica e tribal sobre a composição de sua comunidade, do que a um Estado único, ou seja, os interesses imperialistas também fomentaram diversos conflitos internos no país.

Os principais grupos étnicos do Afeganistão são:

  • Pashtu (42% da população)

Nesta foto está Sharbat Gula, a “Menina Afegã”, da etnia pashtu, em registro de Steve McCurry e que virou capa da National Geographic em 1985.

  • Tadjique (27% da população, descendem dos iranianos)
Homem Tadjque em Cabul, Afeganistão. Fotografia de Naimat Rawan.
  • Hazara (10% da população, descendem dos mongóis)
Figura 4: Divulgação
  • Uzbequis (9% da população, descendem dos turcos)
Fotografia de Naimat Rawan.
  • Aimaq (4% da população, descendem de tribos nômades persas)
Figura 5: Divulgação

Um breve contexto histórico para entender os acontecimentos atuais

Em 1979 houve uma ocupação soviética no território afegão, com objetivos de eliminar até mesmo o islã da região, no entanto um grupo de guerrilheiros formado por egípcios, líbios e sauditas foram para o Afeganistão lutar junto com a população local contra a União Soviética. Esses guerrilheiros ficaram conhecidos como mujahidin.

Os Mujahidin no Afeganistão, 1987.

Então, o que estava acontecendo no Afeganistão antes da visibilidade que houve após a ocupação do exército norte-americano a partir de 2001?

1.  Obrigatoriedade do uso da burca para mulheres;

2.  Proibição da mulher de estudar e trabalhar;

3.  Proibição da música e do cinema, entre outros.

Aí vocês perguntam: a religião islâmica prega esse tipo de coisa? A resposta é não.

Por isso, o debate tem que ser em torno das liberdades individuais e a construção de um país democrático, e não a medida da roupa das mulheres ou a extinção do islã. Levando em conta, sempre, que os protagonistas do debate em torno do futuro do Afeganistão devem ser a própria população.

Saldos da guerra

Em quase 20 anos de presença americana no Afeganistão, o saldo é de 24 mil soldados americanos mortos e mais de 500 mil vidas afegãs ceifadas, incluindo a de 64 mil soldados. O fato é que o exército afegão não foi bem treinado e, portanto, dificilmente conseguirá combater a retomada de poder por parte do Talibã.

A problemática disso é que o governo americano declarou recentemente que o Afeganistão é culpado por essa derrota.

Neste momento, o Talibã tem feito declarações sobre uma possível renovação de suas práticas, mas a maioria da população afegã não crê que as promessas sejam reais, e muitos temem pela própria vida, especialmente as mulheres.

Curiosidades sobre o Afeganistão

Curiosidade 1:

Egito, Líbia e Arábia Saudita são países árabes, mas o Afeganistão não é! A questão é que o expansionismo do islâmico ultrapassou as fronteiras dos países árabes. Nesse sentido, a cultura islâmica/árabe tem uma influência muito forte e marcante em muitas dessas sociedades, incluindo o Afeganistão, onde quase a totalidade da população é muçulmana.

Curiosidade 2:

Mujahidin é plural de mujahid, que significa “guerrilheiro” ou “aquele que se empenha na luta”. A luta seria a JIHAD, palavra muitas vezes traduzida como “guerra santa”, mas que não tem necessariamente um significado bélico dentro da religião islâmica. Fato é que a jihad é uma “luta” ou “esforço” que é travado pelo próprio indivíduo para se manter na fé e caminho islâmico, mas cuja interpretação pode ser a de expandir essa luta a ponto de manter grupos e populações reféns de uma interpretação da fé e da luta.

Curiosidade 3:

Os EUA financiaram os mujahidin, já que também tinham interesse na derrubada da ocupação soviética; nesta época o mundo estava em plena Guerra Fria. Depois de 10 anos de luta houve uma vitória do Afeganistão em cima da URSS, porém são criados outros problemas internos e com esse “vácuo” no poder, outros sete grupos se organizam, e uma guerra civil é travada em território afegão. Contudo, um grupo específico se destaca, e em meados dos anos de 1990 o Talibã chega ao poder e instaura a Sharia.

Curiosidade 4:

A Sharia são leis baseadas no livro sagrado dos muçulmanos, o Alcorão, ou seja, a partir de uma certa interpretação das escrituras sagradas é feito todo um sistema jurídico. Mas qual é o problema disso? É que as interpretações variam, e até mesmo quem é muçulmano pode se sentir oprimido/a pelas decisões tomadas em cima dessas leituras. É o que está acontecendo neste momento com o povo do Afeganistão.

FATO IMPORTANTE:

Em 1988 é fundada pelo saudita Osama Bin Laden no Paquistão a Al-Qaeda, grupo que planeja os atentados de 11 de setembro de 2001 nos Estados Unidos. Durante os atentados, Bin Laden estava localizado no Afeganistão, e foi a partir dessa informação que os EUA iniciaram uma guerra no país e, segundo os americanos, eles também queriam desempenhar um papel de estruturação de uma democracia liberal por ali. No entanto, o Talibã nunca deixou de existir e continuava comandando algumas regiões rurais do país, mesmo com a presença americana.

Dicas e Curiosidades sobre o mundo Islâmico e o Afeganistão

Feminismo Islâmico e educação

Você já ouviu falar em feminismo islâmico? Uma das principais intelectuais desta corrente foi a marroquina Fatima Mernissi, que entre outras coisas afirmava que “há espaço para a mulher no islã, mas existe um patriarcado se apropriando das palavras e as interpretando conforme lhes convém”.

Aliás, você sabia que a primeira universidade do mundo foi criada por uma mulher muçulmana no Marrocos? A Universidade Al Quaraouiyine foi fundada por Fatima Al-Fihri em 859 d.C.

Na verdade, para o islã é imprescindível que todos seus seguidores saibam ler e escrever, especialmente na língua sagrada que é o árabe. Por essa razão, é errada a interpretação de que mulheres não devem ter acesso à educação.

A socióloga Fatima Mernissi (1940 – 2015)

População LGBTQIA+

Quer saber mais sobre questões LGBTQIA+ no Afeganistão? Procure pelo ativista Nemat Sadat.

O que seguir nas redes sociais?

Atualmente é possível ter acesso a algumas informações diretamente nos perfis de pessoas que vivem uma cultura e religião diferentes. Tenha muito cuidado com informações mal contadas e fontes não confiáveis de notícias.

Aqui você encontrará alguns perfis interessantes que tratam sobre  islã e cultura do Oriente Médio e/ou Ásia, incluindo o Afeganistão:

Práticas locais que violam o direito das crianças e adolescentes

Bacha Posh: prática cultural em algumas partes do Afeganistão, na qual meninas se transformam socialmente em meninos por demandas familiares.

Bacha Bazi: escravidão sexual e prostituição infantil, onde meninos pré-adolescentes e jovens são vendidos a homens ricos e poderosos para entretenimento. A prática foi legalmente proibida, mas ainda existem relatos de sua permanência no país.

ATENÇÃO: Essas práticas não têm nenhuma ligação com os ensinamentos do islã.

Arte

Busque pela cineasta afegã Sahraa Karimi @sahraakarimi.

Divulgação Imovision

Conheça a artista e professora afegã Shamsia Hassani @shamsiahassani.

Figura 9. Reprodução Instagram / @shamsiahassani

A reflexão que fica é:

Quando nos distanciamos de outras pessoas por sua cultura, religião e etnia, quais sentimentos criamos sobre elas?

Por isso, aproximem-se.

*Mona Perlingeiro é Consultora em Migrações na Viração Educomunicação. Aluna de pós-graduação em Globalização, Poder e Sociedade na Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo (FESPSP). Graduada em Ciências Sociais pela Universidade Federal de São Paulo. Pesquisa temas relacionados ao Oriente Médio e países islamizados há 15 anos, e em 2015 foi intercambista pela Rede Educacional pelos Direitos Humanos em Palestina/Israel (FFIPP).

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