Pessoas de Santa Maria: histórias de moradores de uma cidade gaúcha

“Tentando falar de Santa Maria, uma pessoa de cada vez…”. É esta a proposta da página  Pessoas de Santa Maria, criada em 2014 pelo jornalista Marcelo de Franceschi dos Santos para contar as histórias que florescem na região central do estado do Rio Grande do Sul e que compõem a identidade da cidade.

O projeto colocou em evidência muitos rostos e vidas que escolheram Santa Maria para construir uma família, desenvolver seu talento, desenhar seu caminho. As narrativas encantam, ensinam e surpreendem. E o projeto deu tão certo que as histórias compartilhadas na rede vão compor um livro que será distribuído gratuitamente entre a população do município gaúcho.

E para conhecer mais sobre a trajetória desse projeto, a Agência Jovem de Notícias (AJN) conversou com o Marcelo, que atualmente é mestrando em jornalismo. Confira!

 

AJN – Como e com qual objetivo surgiu a ideia de criar a Fan Page “Pessoas de Santa Maria”?

Marcelo de Franceschi – A ideia surgiu a partir da página Humans of New York, que também retrata os cidadãos da metrópole estadunidense. Eu já fazia fotografias de protestos de rua da cidade, de manifestações como a Batalha dos Bombeiros e também de algumas viagens, então juntei essa ideia com a minha vontade de fazer um projeto com uma frequência maior.

Os objetivos são despertar a empatia, a percepção, o diálogo e a solidariedade dos leitores e demais pessoas da cidade, assim como combater preconceitos e sensos comuns; para que as pessoas se coloquem no lugar dos outros, e que considerem as outras condições e possibilidades; tentem se lembrar de ver seus pontos em comum e também suas diferenças. A gente tem os nossos problemas e dificuldades, é preciso cuidado para não fazer julgamentos injustos.

Outro objetivo é que as pessoas se deixem fotografar, pela autoestima e consciência de como são. Uma parte das pessoas ainda não está acostumada com a presença de uma câmera, acha que a fotografia é algo solene, que exige preparação, quando pode ser algo casual e igualmente importante para a sua história.

 

AJN – Como acontece a aproximação com as histórias que são publicadas na página?

Marcelo de Franceschi – Quando eu fazia as fotos, dependia muito. Às vezes eu andava na rua e via alguém que podia se dispor a falar e posar. Se a pessoa não quisesse mesmo, eu agradecia e ia embora. Em outras vezes, pedia sugestões para amigos e convidava pelo Facebook algum conhecido.

 

AJN – O que você destacaria sobre a importância da página para as pessoas da cidade?

Marcelo de Franceschi – Acho difícil afirmar sobre os efeitos nas pessoas que leem porque a maioria do pessoal que lê e visualiza não costuma comentar muito se chegou a entender um pouco mais de algo ou de alguma situação. Eu torço pra que elas comecem a se perguntar o que fariam no lugar dos entrevistados ou se perguntem sobre si mesmas. Espero realmente que seja um estalo para um processo de um pensamento mais complexo.

O que eu ouço mais de concreto é de amigos ou conhecidos que gostaram ou que se identificaram com as histórias, pois acabam externalizando mais facilmente pela proximidade comigo. Tinha vezes que eu me apresentava pra alguém desconhecido e dizia que fazia a página e às vezes a pessoa reconhecia, pois já conhecia a página. Acho que o impacto maior é nas pessoas retratadas, pois já ouvi que ficaram com uma autoestima maior depois da publicação, o que me deixa bastante feliz.

 

AJN – E para você, qual foi a importância da experiência da página?

Para mim foi um exercício profissional que me permitiu conhecer e retratar muitas pessoas legais de uma das cidades que mais gosto. O que mais me mudou – e espero que nos outros também – foi na questão de não comparar nenhuma pessoa com outra e nem me comparar com outra. A gente tem muito disso na nossa cultura, como se só houvesse um modo “sucedido” de viver. Isso na realidade não existe, cada um vive como quer e como pode desde que não importune os outros. Sem falar que cada pessoa tem origem e condições diferentes da outra, todavia a gente tem algumas necessidades em comum, como educação, saúde e respeito. Acho que me fez estranhar mais o discurso arrogante e meritocrático que circula no nosso senso comum.

 

AJN – Pelo que observamos nas informações da Fan Page será lançado um livro com as histórias. Poderia comentar um pouquinho sobre essa conquista?

Marcelo de Franceschi – Todo ano, a Câmara Municipal de Vereadores de Santa Maria seleciona um ou dois projetos de livros para a publicação e distribuição gratuita na cidade. Eu tentei pela segunda vez e nessa fui selecionado. Eu, uns dois amigos e o diagramador, que tive de contratar, estamos trabalhando na melhor maneira de fazer uma boa edição que vai ser lançada na Feira do Livro de Santa Maria, em maio de 2017. Vão ser 1500 cópias impressas, as pessoas vão poder ir no lançamento e buscar a delas, retornando fisicamente as fotos e as falas para a cidade. Os livros ainda irão para escolas e instituições culturais, educacionais e de pesquisa, não podendo ser comercializados.

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Agora que você já conhece a história desse projeto super bacana, que tal acessar a página e conferir as histórias reais ali compartilhadas? Que tal, inclusive, pensar em aplicar essa ideia na sua cidade?

Só pra você sentir o gostinho dessa iniciativa, leia abaixo algumas histórias publicadas na página:

 

“Sou de Salvador, Bahia. Ah, viajo o Brasil todo, boto a mochila nas costas, meus trabalhos, e vou, cara e coragem. Não é por falta de opção, é por opção minha. Tenho uma família estruturada. Meu pai é sargento aposentado e minha mãe é Oficial de Justiça. Acabaram aceitando o jeito que eu sou. Pai viu que não tinha mais jeito mesmo ‘Esse aí não adianta mais, não’. Fiz faculdade, estudava Belas Artes na Escola de Belas Artes na UFBA. Trabalhava em madeira, fazia caminhões, bonecos. Também fazia pinturas com azulejo no dedo. Modelava em argila. Abandonei tudo, falei ‘Ah, não tenho paciência, não’. Cada dia eu vou aprendendo uma coisa nova, uma coisa diferente.

Eu nunca vou dizer que eu sei muito, porque a gente tá aprendendo todo o dia, né? Em Natal, teve uma vez muito doida com a polícia, não gosto nem de contar. Quase morro nesse dia. Me sequestraram. Me olharam, passaram, depois me olharam de novo. Eu tava sozinho, me chamaram ‘Vem cá’. ‘Algum problema?’, ‘Ainda não, entra aí’. Aí entrei e começaram a fazer pergunta. Me levaram pra dentro de um canavial, fiquei de 10h até 8 da noite apanhando, dentro dos canavial, com fome, spray de pimenta. Só porque eu não era da cidade, eles cismaram comigo. Falou que lá em Pipa, que é lugar turístico, falou que lá não é lugar pra mim, não. Eles me abandonaram na BR depois. Fui andando até a próxima cidade. Foi uma que, ‘Deuzulivre’, não quero passar mais nunca.

A polícia é muito bárbara, muito malvada. Lá eles abusam de nós. Matam até inocente na rua, que não tem nada ver. Cismou, pegou na madruga, bota dentro da mala e dá fim. Eu senti aqui a polícia muito tranquila. Lá não, lá você tá de boa na rua, ele para e já quer lhe bater, agride, não pode fazer um ai, já vem com os problemas de casa, tá ligado? Desconta em você na rua.

Eu gosto de arte, sempre gostei da arte. A arte é o motivo de eu existir. Se não fosse ela, eu não seria nada. Através da arte, ter uma mente aberta, sabe? Pra entender as pessoas, entender as coisas da vida. Que ninguém é igual, né? Lidar com o ser humano, aturar o ser humano, tem que tá em contato com a natureza, tem que tá com energia.”

 

“Eu sou de Livramento. Me chamo Sol – Sol Inti – como sou conhecido na América, eu fui batizado pela comunidade quíchua. Fui batizado como Arlindo Freitas. Agora eu tô parando na casa de um camarada, o Beto. Com 8 anos eu fui pra cidade e com 12 anos eu cai no mundo. Eu fui menino de rua em Porto Alegre nos anos 60 e tô até hoje na rua. Por isso que eu digo, 50 anos de repressão. Nunca foi liberado, permitido você apresentar arte na rua. No Brasil, principalmente. Eu fazia instrumento desde criança, não existia brinquedo pra comprar, eu fazia, tinha que tocar escondido. Mas a minha mãe pegava e botava no fogo, era coisa ruim, o instrumento era coisa do demônio, né?

O meu avô quando tinha 4 ou 5 anos, ele colheu uma moranga e pegou o caule e fez o instrumento pra mim. E daquilo ali já vi que existia instrumentos, e depois eu via que o pessoal tocava gaita-ponto, pandeiro, e comecei a fazer instrumentos de corda com crina de cavalo, lata de azeite. E faço muitos instrumentos criados. Instrumento de corda, n’goni, rabeca em bambu e porongo, kalimba, macumba, kabulete, pau-de-chuva, trutruca.

Na verdade isso aqui é uma trutruca. A origem dele é uma trutruca. A trutruca é de 2 metros até 4 de tamanho, e depois eu comecei a fazer ela menor, porque eu não podia carregar. Só que o povo chama ele de saxofone porque ele tem as curvas. Sax nem é instrumento, Sax é o nome do cara, né? Adalphe Sax. Mas nunca fiz pra ganhar dinheiro. Eu paro no lugar, colho o bambu na época, trato o bambu porque tem que cozinhar porque o bambu ele cru produz um fungo, né? Esse fungo é prejudicial a saúde. Esse aqui tem 17 anos comigo. Eu sempre grito assim: obrigaado Yeshua por ter me ensinado a fazer um instrumento pra tocar pra levar alegria pro povo! E assim mesmo eles me proíbem de tocar. Mas depois de mim virá o som das metralhadora. Aqui eu venho tranquilo porque aqui é o lugar pra isso.

Eu gostaria que as pessoas procurem a se conscientizar mais e buscar mais o ser humano. As pessoas tão muito individual, muito individualista. Nessa civilização, os filhos são inimigos dos pais e os pais são inimigos dos filhos. A educação vem de berço, jamais uma escola vai dar uma educação pra ninguém. Os filhos não têm atenção dos pais. O pai não tem tempo de dá carinho pro filho porque na hora que o filho tá em casa é a hora que ele tá na frente da televisão, ele tem que assistir a novela e aquilo ali é gostoso e emociona ele, ou o futebol. E se o filho atrapalha, manda ficar quieto. Então na hora que não deve mandar o filho ficar quieto, é que ele manda. Nessas hora o filho se joga na rua e esperneia e chuta. Mas na hora do jogo ‘Fica quieto que eu tô assistindo o jogo’. A mãe é a mesma coisa.

Então se eles não educarem nos primeiros passos, a escola nem a Universidade não vai educar. Nem a polícia, vai matar mas não educa. A educação está dentro de casa. O estudo vem das faculdades, da Universidade. É como eu digo assim: se eu sou feliz, é porque sofri; se eu sou feliz, é porque vivi; se eu sou feliz, é porque senti. Tudo de mal, eu esqueci; e tudo de bom, eu tenho aqui, pra dividir com meu irmão. Nunca me faltou nada. Eu viajei 18 países sem um centavo no bolso”.

 

Araciele Maria Ketzer é jornalista, tem 24 anos e é mestranda em Comunicação Midiática pela Universidade Federal de Santa Maria (UFSM).

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