Pesquisa aponta que parte da população não se reconhece na TV aberta

Tulio Bucchioni, da Redação | Imagem: Acervo AJN

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Uma pesquisa recém-divulgada pela Fundação Perseu Abramo revelou dados interessates acerca da percepção da população sobre os meios de comunicação brasileiros, com destaque para a percepção sobre as emissoras de televisão. Feita pelo Núcleo de Estudos e Opinião Pública (Neop) da fundação, a pesquisa “Democratização da Mídia” indicou também o avanço da internet como meio principal de acesso à informação sobre o Brasil e o mundo, podendo, em breve, desbancar os jornais impressos – ainda dominantes quando o assunto é acesso à informação. Se considerada a soma de portais, blogs e sites consultados a partir do compartilhamento de outras pessoas nas redes sociais, a internet já ultrapassa os jornais impressos.

A pesquisa foi realizada entre o meio de abril e o começo de maio deste ano e ouviu 2.400 pessoas acima dos 16 anos, em áreas urbanas e rurais, em 120 municípios nas cinco regiões do Brasil.

 

Controle social de conteúdo

De acordo com a pesquisa, 70% da população brasileira não sabe que as emissoras de televisão aberta são concessões públicas. Quando questionadas, a maioria das pessoas entrevistadas (60%) afirmou acreditar que as emissoras fossem empresas privadas como “qualquer outro negócio”; no que se refere ao conteúdo veiculado pelas emissoras, 71% dos entrevistados posicionaram-se a favor do estabelecimento de regras para se definir a programação veiculada.

O controle social do conteúdo, por meio de um órgão ou conselho capaz de representar a sociedade foi a opção escolhida pela maioria dos entrevistados para regular a programação da televisão aberta, sendo a resposta escolhida por 46% dos participantes da pesquisa. A auto-regulamentação, que já ocorre atualmente, vem em segundo lugar, sendo preferida por 31% dos entrevistados; por fim, 19% mostraram-se favoráveis a um controle governamental.

Para se ter ideia, no caso da publicidade de bebidas alcoólicas, 88% dos participantes da pesquisa aprovam uma mudança na legislação brasileira, sendo que 44% pedem seu banimento da TV ou restrição à “horários noturnos e de madrugada”. Sobre a programação voltada para crianças, 39% dos entrevistados afirmam acreditar que o conteúdo voltado para crianças e adolescentes é negativo para sua formação, enquanto 27% o consideram positivo.

Quando o assunto é imparcialidade, apenas 11% não acham que a mídia é imparcial, enquanto 21,9% afirmaram acreditar que a mídia exponha os fatos sem privilegiar um lado. A maioria, no entanto, 65%, relativiza a confiança na “parcialidade e neutralidade” da mídia, ainda que não afirmem categoricamente que a mídia não é imparcial.

 

Representação na TV

No que diz respeito à visão dos entrevistados sobre representação na televisão, isto é, como as brasileiras e brasileiros e a cultura brasileira são retratados, entre outros aspectos, os dados da pesquisa “Democratização da Mídia” não são menos surpreendentes.

A maioria dos participantes da pesquisa, 61%, acredita que a televisão brasileira concede mais espaço para os empresários do que para trabalhadores em sua programação; 44% consideram que o noticiário das emissoras veicula notícias majoritariamente relacionadas com as cidades de São Paulo e Rio de Janeiro.
Em termos de diversidade e pluralidade cultural, 54% afirmam que a TV não mostra a variedade do povo brasileiro, sendo que 22% afirmam existir uma verdadeira invisibilidade no que diz respeito à representação de determinados setores da população brasileira. O machismo e o racismo também são evidenciados nas respostas dos entrevistados: para 17%, as mulheres são representadas na TV desrespeitosamente “quase sempre”, enquanto que para 47%, apenas “às vezes”; para 52%, a população negra é menos retratada na televisão do que deveria. A maioria dos entrevistados acredita que a população negra é “quase sempre” representada com desrespeito (49%), enquanto 17% acreditam que apenas “às vezes” negras e negros são representados com desrespeito.

Esses dados parecem explicar porque quase a metade dos participantes da pesquisa, 43%, afirmam não se reconhecer na programação difundida pela TV aberta. Apesar da maioria, 88%, assistir à TV aberta diariamente, 25% afirmam se verem retratados negativamente, e 32%, ou seja, apenas pouco mais de um terço, se veem positivamente. Em linhas gerais, 56,7% dos entrevistados acreditam que a abordagem dos problemas do Brasil na televisão é menor do que deveria ser.

 

Direito à comunicação

O estudo foi recebido com grande entusiasmo por parte dos defensores do pleno direito à comunicação no Brasil, no dia de seu lançamento em São Paulo. No site da Fundação Perseu Abramo, Daniel Castro, coordenador institucional da fundação, destaca a necessidade de se discutir o papel da mídia pública na sociedade brasileira. “A ausência de audiência na televisão pública, registrada pela pesquisa, mostra que não há uma política de comunicação deste segmento. A televisão pública poderia estar nos ambientes públicos, como aeroportos, hospitais, o que aumentaria sua audiência”, diz Castro.

Nesse sentido, a TV pública protagonizaria um papel essencial, capaz de reverter o quadro apontado pela pesquisa e sedimentar a prática educomunicativa, quando se abre espaço para que grupos e coletivos criem seus próprios programas para serem veiculados nas emissoras de televisão do País.

 

Publicado originalmente aqui.

Gabriel Cruz

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