[PERFIL] Seu Toninho, o primeiro vendedor de chá mate

|Por: Ethel Rudnitzki

É hora de rush em Botafogo, na Zona Sul carioca. Quem passa apressado e de vidros fechados pelo trânsito do bairro mal repara nos antigos cortiços nas calçadas de pedras, da época da colônia, nem muito menos nas figuras que circulam por ali.

Já aqueles que passam mais devagar, com fome, ou com os vidros abertos, não deixam de perceber o idoso vendedor de sinal, na rua São João Batista. De voz inconfundível, aparência nostálgica e segurando seus já famosos amendoins torrados, Antônio dos Santos, conhecido como “Seu Toninho”, está a postos para mais um dia de trabalho.

Nascido em Campos, no estado fluminense, esse senhor de 85 anos foi o primeiro vendedor de mate na praia de Copacabana. Ele andava as areias do posto 4 ao 6 inúmeras vezes ao dia carregando uma cestinha de biscoito de polvilho e dois bujões, um com o chá e outro com limonada, cada um com 28kg. Contudo, se questionado sobre a saúde de suas costas ele responde com um sorriso largo: “eu tô na pista”.

Sua pele negro-avermelhada, já bem desgastada e enrugada, não esconde os anos passados debaixo do sol. Seus olhos também são pista: azuis de cataratas, ainda não lhe tiraram a visão, mas denunciam sua trajetória de vida.

Se a tez, a vista e a idade já não permitem que Seu Toninho leve a rotina que tinha quando mais novo, seu humor ainda é o mesmo. Famoso por fazer piadas e cantorias na praia e, talvez por isso, vender tanto chá mate, ele faz jus à fama no sinal onde trabalha agora.

Ele trocou a paisagem que tinha para o horizonte do Atlântico, pela rua asfaltada que termina com um portão enferrujado de cemitério. Porém, continua com a rotina pesada de vendedor e esbanjando suas manhas marketeiras.

Sambista e mangueirense desde sempre, aproveitou a aptidão pelo ritmo musical para vender seu mate. “Já chegou o pidão, já chegou o pidão, não pode ver ninguém com Da-matte na mão” ou então “Da-matte você é uma gostosura, foi proibido pela censura”, são algumas das melodias inspiradas em marchinhas de carnaval que ele entoava pelas areias de Copacabana na década de 60.

Seu Toninho trabalhava para a Da-Matte, a primeira fabricante do chá a vendê-lo em bujão na praia. Ele foi pioneiro nas saídas pelas areias carregando duas grandes latas da bebida antes que fosse um hábito bebê-la em frente ao mar.

Em pouco tempo, a profissão de vendedor ambulante de mate se popularizou, e muitos se interessaram em ser como Seu Toninho. Por isso, ele conta: “Nos primeiros anos não deixei de levar meus bujões à praia nenhum dia de sol”.  

A Da-matte era uma empresa carioca dos anos 60, com sede nos fundos do Mercadinho Amarelo, na altura do Posto 4, em Copacabana. Lá, os donos da fábrica, Santoro e seu filho (também conhecido como Toninho), ferviam o mate em enormes panelas de mais de 50 litros durante a madrugada, para que ele estivesse “fresquinho” quando os vendedores viessem buscar.

Esse frescor de chá caseiro era um dos diferenciais que fazia os banhistas comprarem a bebida em grandes quantidades, mas Seu Toninho lembra que a receita do mate de bujão também tem alguns outros segredos: o açúcar cristal para adoçar e o processo de mexer, que cria a espuma, estão entre eles. A limonada também dava o toque especial no chá, e até hoje divide espaço com o mate nos ombros dos vendedores.

Com o tempo, outros fabricantes começaram a vender mate na praia e a Da-matte, por ser menor, não resistiu à concorrência. Hoje a marca predominante é a Matte Leão, que recentemente foi comprada pela Coca-Cola.

A alta demanda e o aumento das fábricas de mate fez com que o chá de galão perdesse um pouco sua qualidade e o gostinho de caseiro. No fim de 2009, após muitas denúncias como o uso de água não filtrada e até suja na feitura do chá, a Prefeitura do Rio de Janeiro proibiu a venda de mate e limonada em bujão por questões sanitárias. Porém, como estava em pleno verão e a sede era grande, protestos de ambulantes e banhistas trouxeram o mate de volta em pouco tempo.

Depois disso, a situação só melhorou para os vendedores. Em 2014, eles se tornaram patrimônio cultural imaterial da cidade do Rio de Janeiro pelo Decreto nº 35.179 do prefeito Eduardo Paes, o mesmo que havia proibido a venda do chá anos antes. Os ambulantes também precisam de alvará para trabalhar e têm direitos trabalhistas garantidos. A Prefeitura estima que sejam aproximadamente 1.200 deles nas praias, vendendo desde mate até “pau de selfie”.

Na época de Seu Toninho não era assim. De qualquer maneira, ele conseguiu criar seus dois filhos e formá-los no ensino superior. Um deles é musicista e a outra é nutricionista. Orgulha-se também de ter dois netinhos e de estar casado há 45 anos. Mas mesmo com sua missão cumprida, ele continua vendendo amendoim no sinal de Botafogo. É verdade que ele tem gosto por vender, mas a vida de ambulante também não dá trégua.

 

* Essa matéria foi publicada originalmente no antigo portal Nota de Rodapé

 

Ethel Rudnitzki
Redatora e repórter na Agência Jovem de Notícias

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