[PERFIL] Erica de Freitas, uma mulher negra no audiovisual

“Eu abri o curso com 30 vagas para meninas negras, 177 se inscreveram. Mais de um terço eram brancas. Percebi que a situação era mais grave do que eu imaginava”, conta Erica de Freitas, nova professora da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Desde criança ela troca o dia pela noite assistindo filmes de TV aberta na madrugada e, nessa idade, já havia decidido que queria “fazer cinema”. Os planos eram ser diretora ou roteirista, mas por sua condição social, cor de pele e “falta de berço”, não tinha tempo para esperar a vida lhe dar uma oportunidade. Quis então tentar entender como as pessoas viviam de cinema e descobriu que o filme só acontece se tiver um bom  projeto por trás. Hoje, ela ministra um curso de produção executiva na área de audiovisual chamado “Visionárias”, na UFRJ, que também é objeto de estudo para perceber o espaço que as mulheres negras ocupam nesse mercado.

A vida de Erica sempre pareceu ligada ao cinema: sua história parece ter sido escrita por um roteirista dramático e dirigida por um romântico. Depois de ter descoberto o que é “família”, já adolescente, ter quase morrido atropelada, e até vivido em situação de rua; aos 34 anos, ela tira do papel seu projeto de ensinar as mulheres as possibilidades e trâmites de se fazer cinema no Brasil. O “Visionárias” surgiu a partir de seu pré-projeto de mestrado que busca mapear o espaço ocupado pelas negras no mercado audiovisual. “Não existem nem 30 negras que fazem cinema na maior faculdade do estado!” Seu espanto a fez perceber que precisava ampliar as vagas de seu curso – inicialmente destinado apenas às negras – para mulheres periféricas de outras etnias que também não fazem parte dos “bem nascidos” do audiovisual, como diz Erica.

Alunas do projeto Visionárias

 

Mercado de Trabalho

Em cinco minutos de entrevista, seu celular, sob o alcance dos olhos o tempo todo, vibra pela sexta vez. “Ah, é o cara de um projeto que eu estou fechando, estava falando com ele pelo Skype antes de te encontrar. Desculpa pelo atraso também, quarenta minutos é muito tempo! Mas é que final de ano, eu ando muito corrida e não consigo deixar as pessoas na mão”, ela diz sorrindo envergonhada.

“A mulher negra no mercado de cinema é mal remunerada, muitas vezes ela não assina pelas funções que ela desempenha”. Talvez por isso, Erica seja tão dedicada. Com os olhos expressivos, decorados com piercing na sobrancelha que sobe e desce dependendo da declaração, ela explica que apesar da Ancine (Agência Nacional de Cinema) ter uma política invejável de fomento no ramo, ainda faltam preocupações em relação à representatividade feminina e, principalmente, negra. “Desde quando foi fundada, há quinze anos, as políticas públicas aconteceram, mas o problema está na instrumentalização”. É por isso que passou a ser fundamental na vida de Erica ensinar mulheres a fazerem “uma boa defesa da proposta de seus projetos, despertá-las para a existência dos editais para ver que é possível! Se não despertarem, a Ancine nunca vai entender que há essa demanda”. Erica explica com toda a calma e doçura – características da sua voz – que produção executiva nessa área é o conjunto de ações que garantem a legalidade e a prestação de contas de todo aquele projeto, parte financeira, contratual, gestão correta de distribuição dos recursos e a garantia da entrega do processo. Ou seja, todo o planejamento prático detalhado. “Eu já estou acostumada a explicar tudo isso, a mulher ainda não tem espaço nesse campo dos negócios”.

Seu celular a interrompe, dessa vez com uma ligação: “Ah, era a minha esposa, Dade. Daqui a pouco ela está vindo pra cá”.

Desligando rapidamente o telefonema, Erica conta que nesse primeiro semestre com as alunas da UFRJ, percebeu que as meninas tinham um problema sério de auto-estima e a ideia de mercado para elas era muito subjetiva. “Quando eu comecei a dar exemplos de filmes de pequeno, médio e grande porte, aquilo era tão surreal e tão distante da realidade delas, que falar que um milhão de reais paga um filme de baixo orçamento, era um absurdo na cabeça delas”.  Junto ao curso, começou então a fazer um trabalho de empoderamento de dizer que sim, suas alunas poderiam se projetar no caminho dos negócios.

 

Identidade e Trajetória

Erica em sua infância

Hoje, apesar de orientar as meninas dessa forma, a produtora e cineasta se identifica muito com essa baixa estima que elas têm. Saiu da casa de seus pais em Campo Grande, aos 17 anos, para viver em situação de rua por cinco meses porque não aguentava a relação com seu pai, Walter. O homem difícil, que a oprimia psicologicamente, obrigando a menina a limpar a casa toda pela madrugada, foi o mesmo que lhe ensinou sobre identidade por ter na pele o mesmo tom de Erica. Walter morou nos Estados Unidos alguns anos estudando inglês e voltou carregado de discos de jazz e blues, e roupas no estilo anos 70.

Foi a partir dessa “estética” de seu pai que, ainda menina, Erica começou a despertar para algo que já sentia, mas não entendia direito o que era: a negritude. Além da identidade que ali brotava, seu pai lhe mostrou as desigualdades sociais que sua cor carrega. “Ele falava muito sobre ser negro. Dava em mim quase um choque de realidade sobre sonhos porque o que sobrou pra ele, daquela negritude que tanto amava, foi o racismo, O abismo social do desemprego, a clareza da falta de inclusão”, reflete.

Filha de uma família sem recursos, muito menos estrutura, Erica entrou no curso de Economia Doméstica em Seropédica na Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ) em 1999. Mas, na verdade, a menina, que não tinha dinheiro nem para a entrada do cinema, queria estar atrás das câmeras. “Eu morria de vergonha de falar isso, as pessoas me olhavam como se eu fosse uma alienígena. Era uma coisa muito fora da realidade delas”, lembra achando graça.

Para conseguir se aproximar de seu sonho, foi fazer “bico” de professora de teatro nas escolas e faxina de vez em quando. Seus pais achavam sua vontade muito “exótica” e não depositavam confiança nenhuma no que ela dizia. “Frequentemente a gente, mulher negra, precisa caminhar muito só. A família, sem querer, acaba não acreditando na gente, acaba nos ensinando um descrédito como uma forma de defesa, proteção. Hoje consigo entender isso”.

Depois de passar as noites na Praça de Seropédica, foi morar no alojamento masculino da faculdade junto com o seu primeiro namorado, Fábio Rangel. Mas o sonho de “fazer cinema” a perseguia em todo lugar que estivesse. Foi a partir desse momento que começaram a surgir os “portais” da vida de Erica, termo que gosta de usar para fazer referência às pessoas decisivas em sua vida, que abriram portas para grandes oportunidades surgirem em seu caminho. “Olha, eu não sei como você vai contar a minha história, nem eu dou conta de fazer um filme dela”, a cineasta gargalha. Uma querida ex-professora de escola chamada Shirley a encontrou no mercado, e como estava se mudando para uma casa grande depois de se divorciar, convidou a menina para morar com ela e as filhas. “Me lembro que a Shirley me disse assim: ‘eu pago até um curso pré-vestibular pra você, mas você tem que me dar uma coisa em troca: passar na faculdade’.”

Em 2004, ela foi aprovada em segundo lugar no curso de Cinema na Universidade Gama Filho e conseguiu 100% de bolsa. A outra bolsa foi para a outra única negra da turma. Ao mesmo tempo, Erica cursava Pedagogia na Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ) e ainda trabalhava dando aulas de teatro nas escolas de Seropédica. Nesse período, dormia em torno de três horas por noite, mas sentia que estava fazendo o que tanto queria, além de conhecer o que era ter mais estrutura. “Eu sempre fui de movimento estudantil, então tinha aquela divisão forte na minha cabeça de quem tinha o dinheiro e de quem não tinha. Estar do outro lado me ensinou muito. Entender que poderia ser normal ter internet em casa, comida, essas coisas”, recorda.

Mas nem tudo foram flores na vida de Erica desde então. Em 2005, um carro em alta velocidade invadiu o set onde trabalhava como diretora de produção quase matando-a, e fazendo uma vítima: seu único colega de trabalho negro. Foi aí que ela chegou à conclusão que não tinha mais tempo para ficar esperando as oportunidades, teria que entender como o cinema funcionava e como as pessoas viviam dele.

Nesse desespero, ela encontrou , enfim, a produção executiva. Criou a Buteco Produções em 2007, em sociedade com mais três amigas, depois ficou dois anos na Bananeira Filmes. Foi através dessa empresa que Erica pôde ter o contato com produção internacional, lembrando com orgulho do processo de inscrever o longa “O Palhaço” no Oscar, e a torcida emocionada de seus colegas de trabalho. Em 2014, foi indicada por um de seus “portais” que mais viu potencial em suas palavras, Flávio Tambellini, como assistente de produção executiva de um dos maiores projetos que já participou, o “Vidas Partidas”, da Voglia. A produtora desenvolve projetos relacionados ao universo da mulher na sociedade brasileira e é um dos locais onde Erica trabalha até hoje. Lá, ela pôde conhecera atriz Naura Schneider, fundadora da produtora, ao lado de quem passou noites trabalhando no filme.

Outra parceira de Erica é Joelma Gonzaga, uma mulher negra, aparentando 30 anos de idade, que ela me apresentou pela tela do seu celular. As duas são sócias na produtora independente “Encantamento Filmes”. Lá, elas produzem uma série de episódios sobre mulheres brasileiras que sofreram com algum tipo de violência de gênero, além filmes sobre as histórias das Orixás femininas contadas através do imaginário das Mães de Santo.

 

Projetos Futuros

Constrangida por ver o telefone tocar de novo, Erica pede desculpas e atende a ligação. “Isso, amor. A gente está aqui na parte de cima do café”. Logo após guardar o celular, ela apresenta sua esposa que acabara de chegar. “Muito prazer, Ariadne!”- diz a moça ao me cumprimentar, sorridente, com a cabeça raspada e a barba feita. Isso mesmo, com a barba feita. Percebendo uma confusão em meus olhos, Erica diz sorrindo: “É normal as pessoas se confundirem. Sim, ela tem barba. E não, ela nunca se hormonizou”.

Ariadne senta conosco e me esclarece. Ela conta que se identifica como mulher e, por isso, sofre preconceito de muitas pessoas, inclusive homens trans, por ter barba, aparentar um rapaz, não ter um nome social masculino nem se tornar um homem por definição. “Eles me dizem que essa minha barba é tudo o que eles queriam ter”, conta Ariadne sorrindo.

A frase que tinha me dito, ao se apresentar ,“Muito prazer, Ariadne”, será o nome do próximo trabalho de Erica na “Encantamento Filmes”. Com a direção e o roteiro feitos por ela, o longa metragem conta a história da esposa e faz duros questionamentos sociais. “A questão é que temos o direito até de não nos definir. Os estereótipos adoecem as pessoas”, diz Erica bem segura de suas palavras. “A Ariadne é na relação muito mais sensível do que eu. Tem um espírito muito mais ligado à feminilidade do que eu! O que prova que, o que parece, raramente é! Não somos projetos para termos pareceristas que nos avaliem”. As duas vão indo embora de mãos dadas e Erica vê, na capa da revista da Livraria Cultura, a chamada do perfil de Angela Davis. Ela pega um exemplar e diz orgulhosa: “ela é outro grande portal!”.

No momento, aguarda o próximo semestre de “Visionárias”. O projeto foi aprovado pela segunda vez na UFRJ.

Sala de aula do projeto Visionárias
Clara Wardi
É estudante de Jornalismo da UFRJ e pesquisadora na área de sociologia e comunicação. Escreve para Agência Jovem de Notícias, Viração e poesia nas horas vagas.

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