Paulo Freire e a etnomatemática: educação multicultural

Ubiratan D’Ambrósio e Paulo Freire nos trazem a possibilidade de pensar e fazer uma educação inclusiva e diversa, que preza pela conexão entre as disciplinas e apoiada na dos estudantes. Neste texto, vamos falar sobre essas proposições

Por Larissa Carneiro

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Uma das lacunas do nosso sistema educacional é a não valorização de diferenças culturais e sociais, decorrente de sua padronização, objetivando a transmissão de conhecimentos ao invés do incentivo de um pensamento crítico. O Programa Etnomatemática, apresentado pelo matemático e professor Ubiratan D’Ambrósio em 2005, questiona esta perspectiva, dialogando com as ideias de Paulo Freire.

O termo Etnomatemática surgiu na década de 1970, junto a críticas acerca do ensino tradicional de matemática. Na obra Sociedade, cultura, matemática e seu ensino, Ubiratan explica: “Criei essa palavra para significar que há várias maneiras, técnicas, habilidades (ticas) de explicar, de entender, de lidar e de conviver com (matema) distintos contextos naturais e socioeconômicos da realidade (etnos)”.

Ou seja, a Etnomatemática designa as diferenças culturais na criação e transmissão de conhecimento.

Lousa com números. Foto: Getty Images

D’Ambrósio idealizou este campo de conhecimento após perceber o foco em civilizações ocidentais no ensino da Matemática em detrimento de outras. No mesmo artigo, ele afirma que todos os povos desenvolveram a matemática e demais saberes a seu modo, conforme suas necessidades: “Ao longo da história se reconhecem esforços de indivíduos e de todas as sociedades para encontrar explicações, formas de lidar e conviver com a realidade natural e sociocultural. Isto deu origem aos modos de comunicação e às línguas, às religiões e às artes, assim como às ciências e às matemáticas, enfim a tudo o que chamamos conhecimento.”

O Programa Etnomatemática, portanto, seria um campo de pesquisa que visa aproximar o espaço escolar de seu contexto social e cultural. O autor também explica que “A ideia do Programa (…) foi ampliada para analisar diversas formas de conhecimento, não apenas as teorias e práticas matemáticas. E é um estudo da evolução cultural da humanidade no seu sentido amplo, a partir da dinâmica cultural que se nota nas manifestações matemáticas.”

Se você já teve contato com o método de educação de Paulo Freire, já deve ter percebido a semelhança entre ele e o Programa: a valorização do contexto em que o aprendiz está inserido. De acordo com Benerval Pinheiro Santos, mestre e doutor em Ensino de Ciências e Matemática na USP, “reconhecemos na pedagogia etnomatemática as mesmas etapas do método de Paulo Freire. Sendo essas etapas esquematizadas em três momentos: da investigação; da tematização; da problematização”.

O primeiro seria a identificação das palavras e dos temas mais importantes para os alunos; o segundo, a associação destes temas e palavras a situações da comunidade e a apreensão de seus significados sociais; e o último, o desenvolvimento de uma visão crítica do mundo, que pode resultar na transformação do contexto. Todo o processo estimula a participação dos alunos, em vez do professor se colocar como o único detentor do conhecimento.

Paulo Freire / Foto: Escola de Gestão Socioeducativa Paulo Freire

Tanto Ubiratan quanto Paulo Freire nos trazem a possibilidade de uma educação inclusiva e diversa, que preza pela conexão entre as disciplinas, que se apoia na realidade dos estudantes e tece críticas ao método de ensino tradicional, heterogêneo e tecnicista. 

Para saber mais, confira as referências e assista ao vídeo abaixo, em que os dois pensadores conversam sobre a educação Matemática.

Quer saber mais? Confira essas referências

  1. Sociedade, cultura, matemática e seu ensino, de Ubiratan D’Ambrósio. Disponível em: https://www.scielo.br/scielo.php?pid=S1517-97022005000100008&script=sci_abstract&tlng=pt
  2. A Etnomatemática e suas possibilidades pedagógicas: algumas indicações, de Benerval Pinheiro Santos. Disponível em: http://www.mat.uc.pt/~mat1287/texto/etnomatematica.htm
  3. Método Paulo Freire de Alfabetização, de Caio Beck. Disponível em: https://andragogiabrasil.com.br/metodo-paulo-freire-de-alfabetizacao/

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