Para entender a urgência da crise climática

A crise climática não é sobre temperatura, a crise climática é essencialmente sobre gente. Pra fazer o que precisa ser feito, é necessário estabelecer metas transformadoras.

Por Igor Vieira

A crise climática não é sobre temperatura, ainda assim, no mundo inteiro continua a ser tratada como um assunto exclusivo de aquecimento e derretimento de geleiras quando, na verdade, a crise climática é essencialmente sobre gente. Esta crise, que chamo de transversal, serve como um lembrete de que pra fazer todo o trabalho que precisa ser feito, é necessário apertar bem os cintos e estabelecer metas ambiciosas e transformadoras.

Quando falamos sobre resolver a crise climática, falamos sobre integridade e franqueza, da forma mais dura e combativa: transformar tudo que existe e adaptar a forma que se vive no planeta. Em palavras miúdas, pressionar o planeta com as emissões de carbono no ritmo que temos vai continuar a nos colocar em cenários irreversíveis que obrigarão a humanidade a se adaptar até chegar num ponto impossível de se controlar. Eis aqui a grande crise para as pessoas.

Há quase duas décadas o mundo começou a apresentar certa esperança com acordos climáticos propostos. Anos se passaram e o planeta se encontra numa grande crise política que entrava a ação de políticas efetivas de participação social e mudança sistemática na forma que se lida socioeconomicamente com o meio ambiente. Por trás disso, há interesses poderosos de indústrias, como a dos combustíveis fósseis que historicamente vem financiando campanhas de ofuscamento e incentivo à descrença a crise climática.

A maior parte da sociedade global ainda olha para tudo o que tem acesso, vivem e sentem em relação ao clima de forma não prioritária porque, na maior parte do tempo, há um confronto com projetos que esfregam nas nossas caras que existem problemas mais graves e que precisam de mais atenção individual para resolvê-los, nos tirando do foco do problema real e nos separando da consciência de que a crise climática perpassa pela existência humana.

A urgência das pessoas é sobreviver

Enquanto isso, refugiados, famílias pelo mundo inteiro retiradas de suas casas, populações em periferias urbanas, povos originários, povos indígenas, estão em grande vulnerabilidade e são as pessoas mais atingidas pela crise climática. Esses são os verdadeiros rostos da crise e não possuem tempo para disse-me-disse de quem é o culpado por tudo isso e quem cobra sem apontar soluções.

A urgência das pessoas é sobreviver. É o instinto natural primeiro da humanidade, a sobrevivência, e é por ela que pessoa em situação de vulnerabilidade tem lutado nas últimas décadas. A crise climática é, portanto, um dos sintomas da desconexão que criamos com o nosso modelo de desenvolvimento que engole as pessoas e explora os recursos naturais de forma desenfreada.

Quando pensamos em resolver o problema sem atacar o predador, vamos continuar fazendo adaptação e mitigação por fazer e assim, nunca vamos atingir o coração do monstro.

As diversas camadas e nuances da crise climática

Há uma especificidade sobre a crise climática: a diversidade de camadas e nuances na forma em que ela se apresenta. As mudanças do clima como uma dessas camadas neste cenário de crise podem catalisar formas de participação política, social e econômica. A sociedade global tem passado por choques tremendos causados por desarranjos econômicos, desastres naturais associados a efeitos climáticos extremos, invasões territoriais e até guerras.

Historicamente, as diferentes sociedades encontraram formas de se recuperar desses eventos perturbadores e temos todos os sinais entregues de que com a crise climática não vai ser diferente. O que difere aqui é que (pra população comum) é difícil mensurar exatamente de onde vem ou o que está por trás da crise climática.

É quase que um inimigo invisível: a guerras possuem uma motivação, invasões de território vem com alguém por trás, desastres naturais têm uma causa. Porém não há um só diagnóstico para a causa da crise climática e isso faz com que a crise de pessoas se intensifique. Fica difícil lutar contra ela num sistema que te confunde o tempo todo sobre as causas reais e quando o conhecimento científico que a comprova não é traduzido de forma acessível para os mais afetados.

A dificuldade de tornar a ciência do clima acessível à base aumenta a dificuldade de participação popular no processo de construção de mudança de paradigma. É necessário trazer a diversidade de quem está na linha de frente para solucionar problemas que acontecem todos os dias, por todos os lugares com gente comum como você e eu.

Para além dos acordos internacionais, é preciso identificar a importância das pessoas, colocando-as como parte resolutora dos problemas causados pela crise. Isso já está acontecendo on ground em vários lugares do mundo, de forma orgânica através do já falado instinto de sobrevivência humana, entretanto, isso precisa começar a ser colocado em consideração nos espaços de tomada de decisão formais pelo mundo todo.

Pessoas como agentes de transformação e impacto recebendo recursos de quem inflamou/inflama a crise climática para pôr em prática, por meio de suas culturas e nuances, soluções para os problemas causados pela alteração do clima – Quem polui e destrói tem a obrigação de investir na solução da crise.

É hora de combater o sistema

É tempo de considerar a atuação no combate ao sistema que gerou a crise climática atropelando pessoas, considerar a atuação numa direção que acreditamos sem responder ou perder tempo com a comunicação violenta que nos provoca diariamente.

Articular pessoas para que conheçam mais sobre advocacy*, mobilizando estratégias que furem a bolha ambientalista que vivemos com inovação. É tempo de considerar escuta, de valorizar o caminho que chegamos e mudar o que entendemos como sustentável. Isso tudo porque quem está no contra fluxo do sistema também faz mobilização social, e precisamos disso para construir uma nova economia que gere justiça climática.

Em termos de história do planeta todos os marcos ambientais, principalmente os negativos, foram associados à transformação econômica. É tempo de trabalhar novas formas de comunicar e fazer advocacy, tornando palpável a ideia dessa nova forma de viver o mundo com pontos de convergência que priorizem a pauta socioambiental. Assim estaremos priorizando as pessoas e levando todos e todas junto.

*Advocacy – Prática de cidadania ativa, consiste em argumentar e defender causas, objetivos e/ou direitos. Podendo em muitos casos influenciar a criação/ajuste de políticas públicas e tomadas de decisão. O exercício do advocacy pode auxiliar de forma direta na diminuição de desigualdades e injustiças promovendo mudanças sistemáticas.

Igor Vieira é pernambucano, engenheiro ambiental, especialista em oceanografia e mestre em engenharia ambiental. Articula sobre mudanças climáticas, pesquisador de água e saneamento. Atualmente é coordenador regional no WIL Brasil by Waterlution.

Imagem: Fridays For Future


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