Pantera Negra: Muito mais do que um filme de herói

Por: Jefferson Rozeno/ Foto: Divulgação MARVEL STUDIOS 

O filme Pantera Negra estreou em solo nacional em fevereiro deste ano e já pode ser considerado como um dos maiores e mais importantes filmes da última década. Recordista de bilheteria no mundo e muito bem avaliado pela crítica internacional, a história do super herói vai muito além dos clichês deste gênero cinematográfico.

Muito pode ser falado sobre o filme, a fotografia impecável, a trilha sonora empolgante, o equilíbrio perfeito entre ação, drama e comédia e os cenários de tirar o fôlego. Mas vamos falar de algo que transforma Pantera Negra em algo muito além de um simples filme: representatividade.

O majestoso personagem foi criado na década de 60, nos Estados Unidos, em um momento muito doloroso para a comunidade negra no país, e foi o primeiro super herói negro dos quadrinhos. Na mesma época surgiu o “Partido dos Panteras Negras”, um grupo que lutava pelos direitos civis da população negra no país, que era marginalizada e segregada. Apesar de haver controvérsias, de acordo com o criador do quadrinho isso não passa de uma coincidência.

Assim como o quadrinho, o filme chega em um momento muito importante na valorização do povo negro. Vale lembrar, que a obra é considerada por muitos críticos como o filme mais politizado da Marvel, que apostou no jovem e talentoso cineasta Ryan Coogler, fã declarado da produção brasileira “Cidade de Deus”, que a partir de sua identidade enquanto negro e periférico soube, com sensibilidade e precisão, captar a essência do filme.

O elenco é um espetáculo a parte. Majoritariamente afrodescendente, o filme conta com os mais prestigiados nomes do cinema americano. Chadwick Boseman que interpreta Tchala o pantera, o Vilão Michael B. Jordan, conhecido por seu papel em Creed (spin off de Rocky), a poderosa General interpretada por Danai Gurira, a Michonne de The Walking Dead, além da ícone da moda e vencedora de Oscar pelo filme “12 anos de escravidão” Lupita Nyongo, que faz a guerreira e par do protagonista.

A construção de um filme que tem em seu elenco, direção e bastidores comandados por negros parece até irrelevante aos olhos do senso comum, mas não é! A representatividade tem um papel fundamental e importante na vida de qualquer pessoa, se sentir mais forte, mais belo, mais corajoso através de um exemplo, uma referência, não é uma ideia nem um pouco fora comum.

Falar sobre o filme Pantera Negra e não abordar uma relação pessoal com o filme é quase inevitável. Durante muito tempo enquanto jovem, negro, periférico e amante de super-heróis, cinema popular e histórias em quadrinhos, nunca imaginei que este dia chegaria. Embora poucos e carregados de estereótipos, falo com orgulho dos super-heróis negros dos quais tive a honra de me espelhar: super-choque, Tempestade, a versão negra do Lanterna Verde (que se tornou branca em seu filme solo), enfim, entre os poucos personagens negros, eu nunca havia os visto destacados em uma tela de cinema.

Então Pantera Negra veio e a identificação chegou, muito além do esperado. Eu não só me vi no personagem protagonista (o que já seria ótimo), mas em todos os outros personagens que, de alguma forma, são parecidxs comigo, dos protagonistas aos coadjuvantes. Principalmente nos detalhes, que por muitos passariam despercebidos, a começar pela trilha sonora comandada pelo brilhante rapper ganhador de 7 prêmios Grammy, Kendrick Lamar, pelas roupas e acessórios de influência africana,  pelos diálogos que propositalmente carregavam um sotaque “africanês”, pela tecnologia, riqueza e beleza territorial da nação fictícia “Wakanda” e principalmente nos personagens que em muitos tons de negro e tipos de cabelo exalam beleza, força e poder. Uma nova realidade, muito diferente dos outros papéis cheios de estereótipos em que a sociedade associa diretamente ao negro nas produções audiovisuais (empregada doméstica, segurança, motorista, prostituta, mulata do carnaval, malandro etc.)

No alto dos meus 21 anos, eu nunca havia me conectado em um filme como ocorreu em Pantera Negra, durante a sessão de cinema e em meio a lágrimas e uma satisfação quase que infantil, me vi em um espaço ocupado por gente igual a mim, assistindo e prestigiando gente igual a mim. Em um passado não muito distante, enquanto criança sonhadora e carente de referências positivas, ter tido essa experiência teria aliviado muitas dores que hoje já conseguem cicatrizar.

Não é Pantera Negra o que vai causar a mudança que este mundo precisa, mas é o que  mostra que é possível alcançá-la um dia.

 

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