Panorama sobre mudanças na forma de produção agrícola no Brasil

Uma reflexão sobre as mudanças no modelo de agricultura que levaram nosso país a um sistema de produção que transformou agricultores em meros agentes de passivos

Por Luis Miguel da Costa

Ouça este conteúdo na íntegra

Bom dia, boa tarde, boa noite, bípedes! Espero que estejam bem na medida que a realidade brasileira permite. Diferente do habitual, onde tento elucidar algumas questões sobre clima, meio ambiente e a ciência de maneira geral, hoje eu trago um breve contexto e reflexões que me surgiram durante uma disciplina do meu curso, chamada de “Desenvolvimento Agroindustrial e Políticas Agrícolas”, ministrada pelo Prof.º Dr. José Giacomo Baccarin, que já atuou no INCRA como superintendente, entre outros cargos ministeriais de 2003 a 2005. 

Primeiramente, vamos a um breve contexto, começando com as mudanças no destino da produção agrícola no Brasil. Isso acontece quando o agricultor tradicional deixa de produzir somente como forma de subsistência e se torna um ativo de mercado. Ou seja, quando a produção deixa de ser diversificada em sua propriedade e o excedente dessa produção comercializado na forma de venda ou troca por outros produtos de necessidade básica em feiras livres ou até mesmo com vizinhos, e passa a ser especializada em um ou dois produtos para produção comercial intensiva. O “mercado” passa a determinar o que deve ser produzido, apesar do processo de produção não se alterar. 

Isso deve-se ao fato de que a relação de compra e venda não se dá mais entre iguais, mas sim entre grandes conglomerados e agroindústrias e os agricultores.

A mudança desta relação acarreta também a mudança do que chega nas prateleiras para o consumidor, pois agora há o envolvimento de outros setores – de serviços, processos e de terceiros, desde o início da produção até o produto final.

Todas as mudanças citadas até o momento também alteram a forma de consumo final, pois agora o consumo de alimentos diminui, mas a alimentação aumenta. E o que isso significa? Significa que cada vez mais consumimos os produtos já processados, como por exemplo, o consumo do açúcar em sua forma primária diminuiu nos últimos anos, porém a quantidade média de açúcar consumida aumentou, pois os produtos que consumimos contém o açúcar de uma forma já processada.

Essa mudança nos hábitos alimentares deve-se, além da pressão da agroindústria, também ao fenômeno da urbanização, que tem como premissa o trabalho fora de casa, gerando a necessidade de alimentos práticos, ou seja, em grande maioria, produtos gerados na agroindústria que foram altamente processados. 

Voltando ao início: como foi possível que houvesse a mudança no destino da produção agrícola?

Em 1965, foi estabelecida no Brasil uma política agrícola que não alteraria a nossa estrutura fundiária, mas sim a modernização dos sistemas agrícolas: o Crédito Rural, que estabeleceu que todos os bancos (públicos ou privados) passassem a ofertar esta modalidade de crédito, emprestando dinheiro para agricultores, muitas vezes até com juros negativos.

Essa política agilizou o processo de modernização do setor, o que implicou na ampliação de setores como o de tratores e insumos agrícolas, que passaram a ser adquiridos pelos agricultores para aumentar a produção e, a partir de então, as cadeias produtivas ficaram cada vez mais especializadas.

Imagem de Charles Echer por Pixabay

Em resumo, podemos pontuar que a política de crédito rural, sem a alteração de bases fundiárias, deu início a todos os processos de mudanças da agricultura de subsistência (familiar), para se tornar um grande complexo de serviços agrícolas, no qual o agricultor passa a ser só mais um entre milhares que produzem a mesma matéria prima para atingir a cota de multinacionais de determinado produto. 

O agricultor não tem mais a posse do conhecimento e do desenvolvimento de tecnologias, já que essas passam a chegar nele por consultores e afins, tornando-os agentes passivos na agricultura moderna. 

Além de que, do ponto de vista de segurança alimentar, quanto maior o número de pessoas envolvidas na cadeia de produção, maior a possibilidade de existir alguma queda na qualidade nutricional do que é ofertado. 

Espero que vocês tenham gostado dessa leitura e que se permitam refletir um pouco sobre o tema. A apostila base da disciplina vocês podem acessar aqui. Pretendo continuar com a minha série de textos de ciência, já que sou apaixonado por divulgação científica (espero que vocês também gostem! Aqui você encontra todos os que eu já produzi), mas também pretendo continuar com alguns artigos sobre novas indagações a respeito desse tema que considero de extrema importância e relevância para entendermos como chegamos onde estamos.

Ver +

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *