Os desafios de mulheres negras no mundo do cinema

Participei há pouco tempo de uma oficina de cinema e vídeo de um Festival de Cinema da minha cidade: Vitória/ES.

A oficina foi ministrada por um cineasta brasileiro bem conhecido. E ele levou consigo seu cinegrafista e diretor de fotografia preferido.

Para mim, uma das quatro mulheres, a única negra (talvez porque pra fazer a oficina era necessário dar 12 caixas de leite. O que uma amiga fez por mim) e a única da turma a espontaneamente  escolher “fazer o papel” de produção (a função “mãe da equipe”), a semana foi meio que um terror.

Todos os outros da turma queriam ser diretores! Pensa uma produção com 20 pessoas. Dezenove diretores e assistentes de diretores que se revezavam sendo câmeras e apenas UMA produtora. E negra.

Estreia do filme no festival de cinema
Equipe da oficina no festival de cinema

Destaco o ser negra porque, conscientemente quase não se percebe, mas o número de mulheres negras tanto na frente como atrás das câmeras no cinema brasileiro é ínfimo. Diria até que ridículo. Uma pesquisa realizada pelo Grupo de Estudos Multidisciplinares da Ação Afirmativa (Gemaa), da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (Uerj), mostrou que, de 2002 a 2014, apenas 5% dos papeis importantes de grandes filmes brasileiros foi ocupado por mulheres negras. E dessas, houveram anos em que NENHUMA foi protagonista. Também, nesses 12 anos, NENHUM dos filmes de destaque pesquisados foi dirigido ou roteirizado por uma mulher negra. Aliás, mal foram dirigidos ou roteirizados por mulheres. Foram em 84% dos casos dirigidos por homens brancos e 69% escritos por eles.

Isso tudo prova que o ramo do cinema é extremamente racista e machista! Mesmo se eu não soubesse disso, poderia dizer que senti na pele. No entanto, sabendo, empenhei-me ainda mais, por mim mesma e por minhas irmãs pretas, em fazer o melhor que eu podia pela equipe, mesmo sem muito tempo (a oficina produziu um filme em uma semana) e sem recurso. Fiz questão de enviar todos os dias a ordem do dia seguinte feita com base na análise técnica de cada sequência de filmagem, de acordo com o roteiro, e nas condições de tempo e estrutura que tínhamos para filmagem. Acumulei a função de continuísta para ajudar na edição que aconteceria na correria e algumas outras. Dei o meu melhor.

Mas a cada vez que eu precisava pedir que os diretores estivessem atentos com o tempo, porque ainda faltavam muitas sequências a serem gravadas (um dos papeis da produção), o diretor de fotografia convidado pelo cineasta fazia questão de dizer aos colegas na minha frente, sem olhar para mim, que eu deveria ser ignorada. E me ignorava para mostrar como é que faz. Seguia gravando o que queria e até inventava novos planos em algumas sequências para caprichar em me desrespeitar. E os outros machos o seguiam.

O cineasta era um querido(de verdade! Sem ironia… a ironia é do destino). Fez questão de fazer um discurso antirracista quando passamos num caminho perto de umas latas de óleo da marca “Sinhá”. Disse ele, perto de mim: “esse era o nome que as escravas chamavam as senhoras na época da escravidão! Ai, colocam numa lata de óleo… Que absurdo! Eu sinto cheiro dessas coisas de longe”.

Até que, na tarde daquele mesmo dia, eu estava na sala adiantando os créditos enquanto o grupo gravava, e foram me chamar para participar de uma cena que surgiu no improviso.

Desci eu, até animada… Cheguei lá, um colega disse meio sem graça: “você vai distrair as moças da recepção para o rapaz passar. Daí você chega para elas e diz que acabou o café na sala”.

O cineasta querido, então, sem perceber que o colega já tinha falado comigo, veio convicto e me disse: “Então… você vai sair da cozinha, chegar à mesa e dizer para as meninas: acabou o pó de café!”

Eu, no automático, disse: “tá bom”. Até que me toquei, fui até o colega e disse: “Peraí… eu sou QUEM nessa encenação aqui??? Como assim vocês vão LÁ EM CIMA me chamar para fazer a TIA DA COZINHA que faz o café??? Por que não colocaram a loirinha (tinham duas entre as três outras meninas da equipe)?” E ele, mais sem graça ainda, disse: “não leva para esse lado, não, por favor… Nem seria você… ia ser eu (homem, branco, nada pobre)… e eu nem ia sair da cozinha.” Só consegui pensar: “Se seria ele, POR QUE não foi? E se ele não ia sair da cozinha, POR QUE EU IA?”

Para resolver, eu e as meninas que estavam encenando na recepção, por acaso, minhas amigas, mudamos o texto durante a cena. Eu passei a informar a elas que tinha acabado o café na sala de aula e elas diziam que iam providenciar.

Aí, para completar, o tal diretor convidado de fotografia tirou uma foto das três outras meninas, postou no Facebook e o cineasta querido comentou: “as gatas da equipe!” (Lembrando que além delas só tinha eu de mulher). E o dono do post completou: “com elas o set anda”. Como quem diz: “a elas, porque são gatas, a gente respeita”.

Diante disso, resolvi que no dia seguinte eu não ia me desgastar. Eu já tinha feito tudo o que podia e o que era de responsabilidade minha. Então, simplesmente, avisei que eu não ia aparecer para gravar.

No dia do lançamento do filme apareci linda! O cineasta, admirado, fez questão de me fotografar. Meu nome subiu destacado e poderoso nos créditos, no lugar da produção que só eu podia ocupar. Enquanto os vários diretores disputavam nos créditos o mesmo apertado lugar. E, no fim, meu nome, de tanto me propor a ajudar, subiu em quase todos os créditos, para compensar.

Eu, Leandra Barros, na estreia do filme que produzi
Eu, Leandra Barros, na estreia do filme que produzi

Compensador também foi assistir, no dia do lançamento, a uma mostra dedicada à produção de mulheres! E me emocionar ao ver que a primeira exibição foi de um documentário sobre Antonieta de Barros! Além de, provavelmente, minha parente distante, ela foi a primeira deputada estadual negra do país e primeira deputada mulher do seu estado, Santa Catarina. Quase morri de orgulho!

Depois vi documentários sobre as minas negras da cena do Rap Capixaba: Melaninas Mcs, Preta Roots e outras… E para completar, vi Cinthia Caetano, uma querida amiga e irmã preta, protagonizando um curta sobre Gaslighting – que é a manipulação psicológica dentro dos relacionamentos amorosos.

Cínthia é modelo, bailarina e produtora de eventos e, ao ser convidada para fazer o teste para o filme, aceitou ter a primeira experiência como atriz protagonista por considerar o tema importante. Ela contou que já teve uma experiência ruim num relacionamento amoroso: “o Gaslighting afeta muito a saúde da mulher, a auto-confiança, a autoestima, porque ela fica envolvida numa rede de intrigas, de mentiras, e não tem mais fé no seu poder de ação. Ela fica meio sem saída, não consegue sair do relacionamento porque ela depende emocionalmente ou financeiramente. Eu já me senti assim… Me vi duvidando de mim mesma durante muitas vezes. E o processo do filme bem doloroso, porque tocou nessas feridas, mas também abriu meus olhos para coisas que eu não enxergava no meu relacionamento. E de como os relacionamentos amorosos são estruturados como uma relação de poder em que os homens sempre dominam tudo. Por isso o nome do filme: ‘Dentro de Casa’.
Como mulher negra foi maravilhoso, porque eu protagonizei o filme e o espaço para nós, mulheres negras, ainda é muito pequeno nas produções artísticas em geral, não só no cinema. E eu gostaria de me ver mais. Me ver representada. E agora estou representando! Isso é maravilhoso!”

Quando Cínthia me cedeu essa entrevista, ela ainda não sabia, mas horas mais tarde o filme que ela fez seria escolhido e premiado como o melhor filme da Mostra de Mulheres no Cinema, pelo público.

Após a mostra rolou um pequeno debate com as mulheres presentes sobre ser mulher nesse mundo do cinema. Contei para elas minha experiência complicada naquela semana de produção. E elas, que também sofrem com o machismo, a misoginia e o racismo, me entenderam e acolheram perfeitamente!

cena de filme na qual Cínthia está atuando
Cena do filme “Dentro de casa”, de Yasmim Nolasco, protagonizado por Cínthia Caetano

Recebi um e-mail depois, da organização da oficina que participei, pedindo uma avaliação da atividade e perguntando o que eu tinha aprendido que contribuiu para minha caminhada no audiovisual. Perguntei para onde iria a crítica que eu tinha a intenção de enviar. Não me responderam ainda. Acho que só podia elogiar.

O que aprendi foi que é difícil mesmo ser mulher negra no mundo do cinema. E que é preciso resistir, prosseguir e enfrentar.

Temos que produzir os roteiros, contar nossas próprias histórias, ser diretoras, para falar do nosso olhar, nos fortalecer enquanto produtoras e dar a outras irmãs pretas a oportunidade de atuar. Precisamos seguir em frente e ocupar esse lugar. Ocupar o espaço da narrativa e do cinema, nem que seja filmando no celular.

AVANTE, MULHERES PRETAS! TEMOS MUITO PARA MOSTRAR!

Leandra Barros
Leandra Barros, 34 anos
Mulher. Preta. Cristã. Militante por Direitos Humanos. Jornalista. Bailarina. Poetisa. Roadie (a únicA do ES!). Documentarista. Conselheira em Sexualidade. Apresentadora. Produtora Cultural. Missionária. Fotógrafa. Microempresária. Editora. Modelo. Promoter. Repórter. Técnica Metalúrgica. Cenógrafa. Iluminadora. Mochileira. Radialista. Atriz amadora. Videomaker. Blogueira...

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3 Comments

  • É verdade! Mas essa realidade está mudando! Nossa luta e de nossas ancestrais está finalmente fazendo efeito!

  • […] quando nos referimos a mulheres negras sendo premiadas no cinema, esses números são menores ainda. Em 172 edições, as atrizes negras só foram agraciadas seis […]

    • É verdade! Mas essa realidade está mudando! Nossa luta e de nossas ancestrais está finalmente fazendo efeito!

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