Os contos da vida – o valor da Ludicidade

No artigo VII da série dos valores afro brasileiros, Laura Borges escreve sobre o valor LUDICIDADE. Apresenta uma perspectiva de sua experiência sobre a infância, repensa e reescreve esse lugar e cita criança negra e nosso compromisso com essas infâncias. 

Por Laura Borges


Hoje eu venho falar do valor afro civilizatório Ludicidade. Para aqueles que não conhecem,  vamos começar explicando o que é algo lúdico. O lúdico tem origem do latim ludus, que tem o significado para jogos e divertimento.

A Ludicidade tem como o seu principal objetivo a diversão. É a fase de nossas vidas que vemos diversão em tudo! É a idade da infância, é nessa fase que experienciamos o que é ludicidade. Ela tem um importante papel na nossa aprendizagem, pois ao praticá-la a criança ganha conhecimento corporal, desenvolve os relacionamentos interpessoais no ambiente que habita e ajuda a facilitar para crianças com dificuldade de aprendizagem, pois os processos educacionais que incentivam esse conceito na sua prática a tornam significativa.

O prazer da diversão faz com que a criança socialize, incentivando o respeito ao próximo e desenvolvendo sua individualidade, pois estará aprendendo mesmo sem perceber. No ato de brincadeira a criança desenvolve os processos de cognição, sua afetividade e cria os aspectos motores essenciais.

Um ato lúdico se caracteriza pela ideia do jogo, da brincadeira e da leveza da infância. É aquele famoso faz-de-conta quando encaramos os personagens da vida real e não temos a responsabilidade de sê-los, pois tudo acaba em um passe de mágica.

Crianças negras ao ar livre. Ao centro, uma criança brinca com barbantes.
Photo by Alex Radelich on Unsplash

E não pense você que o lúdico poderá ser somente para as crianças, os adultos também precisam de ludicidade em suas vidas. Assim como as crianças a ludicidade facilita a aprendizagem de um adulto, cria um desenvolvimento social, cultura e pessoal.

Ancestralidade nas brincadeiras

Assim como os dons que muitos gostam de dizer que são herdados de seus familiares, as brincadeiras de nossos avós e nossos pais também atravessam as gerações. Quando nossos pais se sentam na sala de estar e nos ensinam brincadeiras que em suas épocas eram divertidas, a ancestralidade surge claramente nesse momento.

Quando aquilo que era considerado passado, é renovado nas gerações atuais, jamais será esquecido pois nos foi ensinado.

Há uma mudança no cenário das interações entre os sujeitos que compreende a infância. A globalização trouxe a tecnologia, que acabou por facilitar muitas coisas em nossas vidas, mas de outro lado, simplificou a experiência do contato e das relações entre as pessoas reais, pessoas ao vivo.

Crianças negras jogando futebol num gramado cercado por um muro de pedras.
Photo by Belle Maluf on Unsplash

Quem não sente saudade de quando saíamos às ruas com nossos amigos para jogar uma partida de queimada? Quem não se lembra do jogo da memória, do teatro de lanterna com o uso de sombras, da brincadeira do elástico e etc? Todas essas são brincadeiras de origem africana, ensinadas por nossos pais e que, coincidentemente, são interações advindas de nossos ancestrais.

Com a modernização, a facilidade que foi proposta às crianças dos novos tempos, fez com que elas perdessem o interesse do contato com o outro pessoalmente, já que a tecnologia já lhe oferece um contato virtual. Mas, além disso, também existe o fato dos pais se preocuparem com seus filhos nas ruas, pois assim como cresce a tecnologia, crescem também os índices da violência urbana.

Desconstrução da Infância

Se olharmos a letra canção infantil do Cesar MC vemos a desconstrução da ingenuidade e da pureza inerentes a essa faixa etária. A música traz a realidade do mundo atual e a perspectiva da criança negra. Quando pequena, e mesmo ao crescer, se depara cotidianamente com o racismo, por conta da sua origem social e seu histórico advindos de regiões periféricas e favelas.  Mostra que ao crescer a criança percebe as ações ruins no mundo hoje e o quanto a crueldade pode vir do ser humano.

O mundo não é uma fábula, um conto de fadas, mas ainda existe esperança para que isso tudo acabe, por meio dessa nova geração que está por vir.

Quando o ator está em cena e no meio da peça vem um branco em sua cabeça, qual será a sua saída? Bom, basta que ele use uma ferramenta muito poderosa, a criatividade! O ator em cena quando improvisa se baseia em um traço lúdico, pois a criatividade se relaciona com a ludicidade.

Boi boi boi, Boi da cara preta. Até quando teremos que nos proteger apenas por ter a pele negra?

Essa é a verdadeira pergunta: Até quando? Até quando teremos que ensinar nossas crianças a sempre deixarem suas mãos a vista quando avistar um policial branco nas ruas? Até quando teremos que ver nossos irmãos serem assassinados de forma brutal e ouvir de seus assassinos: “Estávamos apenas nos defendendo?” Até quando teremos que ver pessoas guardarem seus pertences ou segurarem suas bolsas quando passamos do seu lado?

Pois é, não é fácil nascer negro em um país racista como o Brasil. Agora conseguimos entender bem aquelas canções que ouvíamos quando éramos bem pequeninos. Agora as batatinhas que nascem e se esparralhavam pelo chão são todas as crianças que nasceram em lares pobres e que sentem desde muito novas a desigualdade no seu cotidiano, seja em sua educação, sua questão social ou até mesmo em sua cor de pele. Não é simples para uma pessoa preta e periférica fazer de sua vida uma linda canção somente com o “dó ré mí fá” que lhe foi apresentado quando era uma criança.

Pois o “Dó” é a dor que sente por perder um amigo de infância por uma bala perdida, em uma troca de tiros na comunidade em que vive. O “Ré” é a resistência que precisa ter quando vemos uma notícia na televisão, onde um policial mata brutalmente um homem negro enforcado porque em sua visão ele era “suspeito” por ser negro. O “Mi” é o “Mistério” que ainda não foi desvendado sobre que matou Marielle Franco. E o “Fá” é a falta de amor ao próximo no mundo em que vivemos hoje.

Crianças negras sorrindo.
Imagem: Unsplash

Não precisamos das borboletinhas nas cozinhas, já que temos as mulheres para nos servir. E se eu te disser que as mulheres não foram feitas para lhe servir? E se eu disser que elas querem ser advogadas, médicas, caminhoneiras, eletricistas, atrizes, jogadoras de futebol? E se eu te disser que elas querem ser o que elas quiserem ser? Você ainda vai “amá-las” ou elas só servem para lhe servir?

Pirulito que bate-bate, Pirulito que já bateu, pensei que deixamos as canções infantis para trás quando crescemos, mas fui ver a taxa de violência contra a mulher e vi que ainda existem homens que acham que as mulheres são como esses pirulitos. 

Nascer mulher em um país onde agora existe “estupro culposo” é triste, mais triste ainda é ter que explicar em pleno 2020 que um NÃO É NÃO. 

Se essa rua fosse minha, se esse país fosse meu eu exigia mais respeito ao próximo, mais segurança para as nossas crianças, liberdades para as mulheres e mais amor seja para quem for.

Laura Borges é atriz do Grupo MovaNos. Quer conhecer mais o trabalho do Grupo MovaNos? Acesse a página deles no Facebook. Quer falar com eles? Envie um e-mail para movimentonosso@gmail.com

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