Opinião | O papel das mulheres jovens na justiça climática

Por Roberto Barbiero – traduzido por Daniele Savietto

Encontrando-se em uma sala de conferências, ouvindo jovens ativistas do clima e saindo com lágrimas nos olhos e um nó na garganta. A reunião consistiu em uma mesa-redonda sobre o tema das questões de gênero e justiça climática, com jovens mulheres do Sul global como oradoras.

Eu entrei no evento por curiosidade para ouvir a intervenção de uma amiga libanesa, que tive o prazer de conhecer apenas através de uma troca de informações nos últimos meses, mas que ainda não tinha conhecido pessoalmente. Assim, começo a ouvir o discurso dela e de outras mulheres que estão sentadas em uma mesa em uma sala lotada. E fico totalmente encantado com a narrativa delas. Essas histórias são sobre África, América do Sul, Oriente Médio… existe um pouco do mundo inteiro. Histórias sobre mulheres e seus sofrimentos, de múltiplas origens.

Elas falam das mudanças climáticas, com secas, ondas de calor, degradação do solo e chuvas cada vez mais fortes. Seus impactos reduzem o acesso à água, alimentos e saúde. Tudo isso exacerba os desafios de toda mulher, especialmente em contextos culturais de profundo sofrimento. Por exemplo, no Senegal, onde muitas meninas ainda são forçadas a praticar a excisão. Além da dor que lhes é imposta, eles também sofrem com a falta de água para se lavar e desinfetar, o que pode lhes proporcionar algum alívio físico. Este último porque há progressivamente menos água e os poços estão cada vez mais distantes e secos.

As oradoras enfatizam que as barreiras que essas mulheres enfrentam são principalmente culturais e sociais. As desigualdades de gênero são as primeiras e mais importantes barreiras que impedem qualquer política climática de obter resultados. São sobretudo as desigualdades que afetam as mulheres e os jovens indígenas.

Neste momento, alguma das oradoras compartilha sua experiência pessoal. “A violência à qual nossa terra está sujeita é a mesma que a que nosso corpo sofreu.” Não importa quem disse isso, o tempo parou por alguns segundos. Acho que todos na sala ficaram profundamente comovidos com um turbilhão de emoções. Lágrimas não resistiram a cair. E com um simples gesto de completa solidariedade feminina, as mulheres no palco dão as mãos e um lenço para secar essas lágrimas.

A barreira cultural que afeta essas meninas as força a enfrentar mil dificuldades, mesmo quando trabalham em suas organizações. Elas são jovens e têm idade suficiente para se casar e ter filhos, algo que “normalmente uma mulher tem que fazer” em muitos países. E, portanto, ser uma ativista climática é estigmatizado.

No entanto, o compromisso dessas mulheres persiste, e elas apresentam exemplos de projetos e ações, também por meio da música e do teatro, com o objetivo de treinar, educar e apoiar as mulheres na aquisição dos recursos necessários para lidar com os diversos desafios. Além disso, elas capacitam essas mulheres a contribuir para promover mudanças culturais em suas comunidades.

A questão de gênero foi finalmente trazida para as conversas da COP, é mencionada nos discursos e um plano de ação específico, o Plano de Ação de Gênero, foi adotado em Bonn durante a COP23. Este é um passo importante, mas ainda há um longo caminho a percorrer e é necessário garantir recursos financeiros mais adequados para poder traduzir o plano em ações concretas e incisivas.

Na tela ao lado da mesa dos palestrantes, destacam-se as palavras “Não podemos combater as mudanças climáticas com apenas 50% da população”. Se, hoje, o chamado da COP de Madri é abordar o problema das mudanças climáticas como uma emergência real, também é necessário reconhecer que há uma emergência de gênero que parte do reconhecimento e remoção das barreiras culturais, sociais e econômicas impostas por um sistema de desigualdade e violência contra as mulheres. Saio da sala com um soco no estômago, mas, ao olhar para essas jovens, sinto que elas são as líderes de que precisamos hoje. E a esperança volta.

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