OPINÃO: Segregar para proteger é a técnica certa?

foto_metro_rio_divulgacao

opiniãqoKeyllen Nieto* | Imagem: Divulgação

É impressionante como a técnica de segregação continua a ser usada como sinônimo de proteção. Durante anos, tanto nos Estados Unidos quanto na África do Sul, negros foram separados de brancos e, em muitos casos, se argumentou que era pelo bem e a segurança das duas “partes”.

Bem, voltamos a presenciar tal mentalidade na aprovação, pela Assembléia Legislativa de São Paulo (Alesp), do tal “vagão rosa”, que obriga as empresas de transporte urbanos de passageiros a reservarem um espaço exclusivo para as mulheres. Se aprovado pelo governador Geraldo Alckmin (PSDB-SP), as empresas terão 90 dias para se adequarem.

Essa lei significa mais uma vez a culpabilização das vítimas, ao legitimar a mentalidade de que os homens não são passíveis de serem educados para respeitar e controlar seus desejos. Significa também que é na separação e no afastamento do convívio sadio que as autoridades acreditam ter a solução para a violência, o assédio e o desrespeito contra as mulheres.

Incrível

Parece incrível, mas se baseiam no mesmo princípio utilizado nos países muçulmanos mais ortodoxos – dentre outros -, que proíbem as mulheres de andarem sozinhas em espaços públicos, e separam todos os espaços de convívio público para “evitar a tentação” para os homens e “proteger” as mulheres. E tal como essas sociedades nos mostram, os casos de violência contra as mulheres não só não diminuem, como se intensificam na sua crueldade e na sua frequência.

Esse mesmo raciocínio ocasionaria que aquelas mulheres que, por qualquer motivo, não utilizarem os espaços segregadores, sejam interpretadas como coniventes e ocasionadoras das agressões, porque se não estiver no seu quadrado, é porque está pedindo. Até se economizariam o pré-histórico argumento de que estava vestida de forma “vulgar”! O que será então da solidariedade com quem estiver fora desses espaços?

Por outra parte, está também a questão logística: 54% das pessoas que usam o transporte público são mulheres. Como é que um vagão vai comportar todas essas pessoas? De que forma, por exemplo, vão ser divididos os espaços nos ônibus? Com uma corrente entre uma parte e outra do ônibus? Aí, seus acompanhantes homens entram em um espaço, as mulheres no outro, e marcam ponto de encontro depois de descerem?

Fiscalização

Finalmente, quem vai fiscalizar que a separação seja cumprida? E quem fiscalizar, vai considerar que mulheres transgêneras poderão usar o vagão? Ou haverá nesse caso a ideia de fazer mais um vagão para pessoas trans*?

Chega até parecer piada de tão tosca a mentalidade por trás dessa medida. Mas não é engraçado, é aterrador. Sim, aterrador que não se aposte em educação, em campanhas para conscientizar e incultar respeito e autocontrole, convivência sadia entre todo mundo e responsabilização do agressor e não da vítima.

Por uma cidade mais inclusiva, educada e consciente, vamos pressionar para que essa péssima medida não seja sancionada. Porque se o fosse, vai ser mais um “salve-se quem puder”.

*Colunista do site Pau Pra Qualquer Obra (PPQQ), onde este artigo foi publicado originalmente.

Bruno Ferreira
Jornalista, professor e educomunicador. Responsável pelos conteúdos da Agência Jovem de Notícias e Revista Viração.

Ver +

Leave a Reply

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *