Obsolescência programada: a vida cada vez mais curta de nossos dispositivos

A obsolescência programada é algo que todos nós conhecemos, consciente ou inconscientemente. Afeta a durabilidade de nossos dispositivos tecnológicos e, portanto, tem um peso econômico considerável em nossos orçamentos pessoais. O que estamos menos acostumados a considerar são suas consequências e a forma de conter o fenômeno.

Por Belén López Mensaque, da AJN Argentina* | Tradução: Redação AJN Brasil

O lixo eletrônico é um dos resíduos que mais cresce no mundo: estima-se que até 2025, serão gerados 53,9 milhões de toneladas por ano. É equivalente ao peso de 145 edifícios Empire State. Esses dados são do International Recycling Bureau.

O Greenpeace acrescenta que muitas das centenas de materiais de que são feitos aparelhos elétricos e eletrônicos são tóxicos: quando descartados, podem poluir o meio ambiente e afetar a saúde das pessoas.

Por que tantos dispositivos são descartados?

Como podemos mudar essa situação e as consequências que ela gera?

A resposta pode estar no que é conhecido como obsolescência programada e nas organizações que estão trabalhando para combatê-la. Obsolescência programada significa que os produtos são projetados para parar de funcionar após um certo tempo.

Seu fracasso não é inevitável de forma alguma. Em vez disso, é causado intencionalmente pelos fabricantes. O documentário espanhol  “Compre, Jogue Fora, Compre” fornece evidências baseadas em fatos de como essa obsolescência nasceu no século XX. De acordo com a pesquisa do filme, foram os fabricantes de lâmpadas que o “inventaram” para reduzir propositalmente a vida útil das lâmpadas, que passou de 2.500 horas para apenas 1.000 horas.

Um Trailer do documentário, publicado pelo jornal El País em espanhol, no YouTube

“Acontece também que você compra um eletrodoméstico, alguma coisa quebra e fica mais barato comprar um novo do que consertar. Isso também é obsolescência programada”, diz Belén Macchi, da Fundación Equidad, uma organização que recicla computadores não usados ​​e os doa para pessoas que não podem pagar por um.

O consultor de e-commerce e tecnologia Hipólito Giménez Blanco completa o quadro ao constatar que, há alguns anos, muitos aparelhos eletrônicos podiam ser desmontados e consertados com mais facilidade do que hoje.

O exemplo mais tangível é o dos smartphones: anos atrás, se a bateria falhasse, os usuários poderiam comprar uma e substituir a antiga por conta própria; hoje, a maioria dos telefones celulares não pode ser aberta, muito menos consertada por um usuário comum.

Um caso recente: a Apple vai pagar 3,4 milhões de dólares a consumidores chilenos por obsolescência programada. Em abril deste ano, a gigante da tecnologia concordou em indenizar pelo menos 150 mil usuários chilenos que denunciaram a empresa por obsolescência programada de alguns modelos de seu icônico iPhone. A ação coletiva apontou que os smartphones começaram a funcionar mais devagar após certas atualizações de software. A Apple já havia admitido em 2017 que diminuía a velocidade dos dispositivos conforme as baterias se desgastavam e diminuíam no desempenho, de modo que consumissem menos energia e durassem mais. Os consumidores, ao contrário, afirmaram que isso foi feito para forçá-los a comprar novos equipamentos.

Esse caso teve um desfecho favorável para os consumidores, mas nem sempre é fácil estabelecer se houve ou não obsolescência programada.

“A tecnologia está se tornando cada vez mais complexa e às vezes é difícil determinar se por trás da ação de uma empresa existe uma intenção deliberada de encurtar a vida útil de um produto ou se é um avanço tecnológico que o torna obsoleto” explicam os advogados Agustin Grimaut e Gastón Salort da GS Digital, empresa que assessora empresas de base tecnológica.

Embora este seja o primeiro caso na América Latina, a Apple já havia enfrentado esse tipo de ação no passado nos Estados Unidos, França e Itália. Em 2020, a empresa se comprometeu a pagar até 500 milhões de dólares aos consumidores dos EUA pela obsolescência programada novamente em iPhones.

A pandemia de Covid-19 acelerou a digitalização em muitos setores ao redor do mundo. Diante das restrições impostas pelos governos, muitos trabalhadores tiveram que se adaptar ao home office enquanto os alunos tiveram que se acostumar com as aulas virtuais: ambos os eventos aumentaram a compra de computadores e smartphones.

Na Argentina, por exemplo, a venda de certos computadores aumentou até 400% durante a quarentena de 2020.

Apesar de sua crescente difusão, apenas 15% do lixo eletrônico é reciclado globalmente. Especificamente, na América Latina e no Caribe, o setor de reciclagem não é totalmente desenvolvido pelos governos. E estima-se que a região gere 7 quilos de lixo eletrônico per capita por ano, em contraste com uma média global de 6 quilos, segundo relatório do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), GSMA (organização de operadoras de telefonia móvel em todo o mundo) e no Pólo Sul.

“Dispositivos elétricos e eletrônicos são uma mistura complexa de centenas de materiais (um telefone celular tem entre 500 e 1.000 componentes diferentes), contêm metais pesados ​​como chumbo, mercúrio e cádmio, produtos químicos perigosos e PVC (cloreto de polivinila), um tipo altamente tóxico de plástico”, afirma o Greenpeace.

Se esses resíduos vão para aterros ou lixões, eles começam a se decompor, gerando líquidos e gases que poluem o meio ambiente e a saúde humana, afirma a entidade. E se esses líquidos acabarem nos cursos d’água, eles vão se espalhar por todo o meio ambiente.

Composição química básica de um smartphone

A reciclagem pode ser uma das maneiras de reduzir o lixo eletrônico, mas não resolve o problema subjacente. Como argumenta Belén Macchi, “a obsolescência planejada já está acontecendo e continuará acontecendo. O que podemos exigir é que as coisas sejam fabricadas com materiais recicláveis ​”.

E que os custos de reciclagem são mantidos sob controle. Na verdade, na maioria das vezes, os custos de coleta e separação nos processos de reciclagem são maiores do que a receita obtida com os materiais recuperados, segundo relatório do BID. Isso pode representar (e representa) um obstáculo econômico no caminho das empresas propensas à reciclagem.

As próprias empresas de tecnologia tentaram outras soluções, mas não tiveram sucesso. “Houve diferentes propostas a nível global para fazer coisas com componentes desmontados e nunca prosperaram, por falta de apoio, ou porque não deram resultado, ou porque não é negócio”, explica Giménez Blanco. Um deles era o “Ara”, o plano do Google de fabricar telefones celulares modulares com peças intercambiáveis, para que os usuários pudessem adicionar funções aos seus dispositivos e renovar as peças que pararam de funcionar. Isso teria estendido a vida útil dos telefones, mas em 2016 o Google anunciou que não iria continuar com o projeto.

Por outro lado, alguns países já possuem legislação específica sobre o assunto. Desde 2016, o Chile possui uma lei de gestão de resíduos, responsabilidade ampliada do produtor e promoção da reciclagem: entre outras coisas, visa responsabilizar os produtores pela coleta e reciclagem dos materiais usados ​​na fabricação de seus produtos.

Embora uma lei desse tipo seja um grande avanço, os especialistas destacam que pode ser difícil de ser aplicada na região. “Acredito que na América Latina o que acontece é que os assuntos urgentes não nos permitem lidar com os importantes. As empresas ainda não sabem como vão pagar os impostos e pedimos que regulem e controlem o circuito desde a compra da matéria-prima até o lixo gerado”, afirma Agustín Grimaut.

Embora regulamentações desse tipo possam ser positivas do ponto de vista ambiental, elas também podem gerar efeitos negativos nas economias nacionais. “Permito-me desconfiar do verdadeiro alcance que a legislação pode ter. É raro que uma indústria seja modificada por uma lei”, afirma Gastón Salort. “A única coisa que eles vão conseguir (com leis como a do Chile) é que em uma semana as empresas estejam se esvaziando e se mudando para a África, China ou um país latino-americano que não tenha essas regulamentações”, acrescenta. Grimaut também afirma que, se não houver consenso pelo menos das grandes empresas de tecnologia que definem a tendência (Apple, Samsung, Xiaomi), é muito difícil tomar medidas eficazes contra a obsolescência programada.

No entanto, Jessica Giménez (Diretora no México de Assessoria de Sustentabilidade da empresa de auditoria KPMG) afirma que “uma cidadania consciente que exige das empresas práticas mais sustentáveis ​​de desenvolvimento de produtos pode mudar o cenário de obsolescência planejada das grandes empresas”.

Hoje em dia, as formas alternativas de comunicação ajudam os consumidores a entrarem em ações judiciais coletivas, algo que era impensável anos atrás. Foi o caso dos usuários chilenos do iPhone contra a Apple. “A tecnologia traz muitos problemas, mas também traz a solução para sinistros. Porque faz isso nas ações coletivas, as reivindicações são muito mais vocais, pois são muito maiores, e são muito maiores porque a comunicação é muito mais fácil”, diz Grimaut.

Ele conclui que um único caso de ação coletiva provavelmente não significa nada para as grandes empresas de tecnologia, mas se vários processos começarem a surgir em diferentes países, torna-se cada vez mais complicado para eles navegar na força global de consumidores.


*Belén López Mensaque vive em Córdoba, Argentina. É jornalista graduada em Comunicação Social. Foi trainee sobre mudança climática com Al Gore por meio de sua organização, a Climate Reality. Acredita que o jornalismo tem que ser uma ferramenta para melhorar o mundo.

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