O Valor da Memória

No artigo VIII da série dos valores afro-brasileiros, Cauã Oliveira fala sobre a MEMÓRIA. Ela nos torna sujeitos de afeto, humanos, sujeitos sociais.  

Por Cauã Oliveira 

QUEM É VOCÊ? 

Como você se chama? Qual a origem do seu nome? Quantos anos você tem? Onde você mora? Qual a origem da sua família? Você tem irmãos? 

Se você respondeu estas perguntas, fique sabendo que foi graças a sua memória. Ela é responsável por armazenar, recuperar, esquecer, adquirir informações, acontecimentos, conhecimentos e etc. Você já se perguntou como seria viver sem Memória? O simples fato de estar me comunicando, neste momento, através deste texto, e você me compreender, é um ato de extrema complexidade e seria impossível sem a memória.

Ela está presente nas coisas mais comuns do nosso dia a dia como: caminhar, falar e até mesmo pensar, nada disso seria possível sem ela. Já se perguntou o quão complexa ela pode ser? Somos capazes de armazenar conceitos complicados, subjetivos e abstratos como um som, uma cor, um cheiro, uma sensação, uma palavra, uma língua estrangeira e até mesmo uma equação matemática.

A memória, além de tudo, é parte vital daquilo que nos torna humanos, pois no fim nós somos isso, um amontoado de lembranças, experiências e momentos, que nos moldam e definem o que cada um de nós se torna ao longo da vida.

A memória forma identidade. Quando se é criança, ao desobedecer nossos pais, somos punidos. Temos a consciência de que ao reproduzirmos determinada ação, seremos punidos novamente. Quando aprendemos com nossos erros, erramos menos. Essa mesma situação se aplica aos processos de diferentes sociedades. Quando a sociedade revisita os erros cometidos no passado, e os assume, a tendência é melhorar e não reproduzir os mesmos erros.

Mas se temos grupos sociais que negam esses erros e o próprio passado, este tipo de ignorância e descompromisso com a realidade acaba por gerar sérios danos à sociedade, como exemplo temos os negacionistas que incluem aqueles que defendem a terra plana ou os antivacinas.

Criam movimentos hediondos, como os  neonazistas  e racistas.  Tudo isso devido a incapacidade desse indivíduo ou grupo pertencente, de revisitar momentos horríveis na história humana e aprender durante a reflexão. Ou em alguns casos, assumir que esses momentos realmente existiram.

Ilustração mostra a representação de um cérebro no formato de uma lâmpada, com diversos símbolos dentro dele.

IDENTIDADE E MEMÓRIA

A memória pode ser influenciada e até mesmo modificada por questões internas e externas, sociais e culturais, emocionais e educacionais.

Um exemplo disso é a nossa afetividade, que influencia diretamente o processo daquilo que guardamos em nossas lembranças e consideramos especial – para outras pessoas um mesmo evento pode não ser recordado da mesma maneira, pelo simples fato de não ter sido tão significativo para ela.

Imagine o encontro de uma pessoa com seu ídolo ou uma celebridade. Imaginou? O ídolo muitas vezes nem se lembra daquele momento, pois foi só mais um dentre os inúmeros encontros com um fã, mas para o fã, esse é um momento único que pode ser lembrado pelo resto de sua vida.

A memória também sofre influência de outras pessoas. Quando ouvimos um fato narrado que se refere a um evento que presenciamos, como um filme ou uma peça de teatro, de maneira diferente da qual nos recordamos, pode haver uma interferência nas nossas lembranças, fazendo com que a memória do indivíduo se sobreponha sob a nossa, mesmo que a memória do indivíduo esteja errada. Nos perguntamos então: Será que me enganei? Será que estou louco? Será que isso aconteceu mesmo?

Se o preto de alma branca pra você

É o exemplo da dignidade

Não nos ajuda, só nos faz sofrer

Nem resgata nossa identidade

Nossa identidade é definida por nossa memória, e na letra da música “IDENTIDADE”, de Jorge Aragão, encontramos uma série se discussões envolvendo o conceito de identidade, sua relação com a negritude e a história dos negros no Brasil. Diversos trechos da música colocam em questão os temas de discriminação e o próprio racismo. Quando tiver um tempinho, dê uma olhada!

TODOS NOS LEMBRAMOS

A memória está relacionada com a evolução e a vida humana tanto no sentido biológico quanto no social.

Afinal, se estamos aqui hoje foi graças a um antepassado nosso que aprendeu a sobreviver na natureza. Como isso seria possível sem a memória? No social, a própria linguagem é um processo de memória, costumes, hábitos, crenças e até mesmo eventos importantes para uma comunidade.

Ilustração mostra uma praia. na areia, uma caixa, um tronco e diversos relógios com a aparência derretida.
A persistência da memória, por Salvador Dalí / reprodução

Todas as pessoas em uma comunidade possuem memórias em comum, muitas vezes não presenciadas pelos indivíduos em si, porém enraizadas na cultura por eventos marcantes, ou passadas por gerações por aquele parente mais velho. Todo o brasileiro se lembra do histórico 7×1 de 2014; os americanos recordam sempre o 11 de setembro de 2001. Temos outros inúmeros exemplos. Isso é o que classificamos por memória coletiva – a memória de uma sociedade compartilhada por seus membros.

O que é a memória? Depois desta reflexão, fica mais fácil de responder.  Somos eu e você, é a cidade que você vive e as tradições que seu povo compartilha. A memória é a vida e a evolução, o aprendizado e as emoções que temos. São as ruínas de uma antiga civilização, um livro, uma música, a história de pessoas que morreram por serem diferentes.

São aqueles que vieram antes de você, seus ancestrais! E um dia você também vai ser apenas uma memória. Preserve a sua e a daqueles ao seu redor. Seja com as tradições do seu povo ou da sua família, seja a sua própria, apenas se lembre! Exercite sua memória porque sem ela nada disso faria sentido.

Lembre-se do que foi perdido lute pelo o que restou

Irelia – Dançarina das Lâminas do jogo
Ilustração em fundo branco mostra punhos pretos erguidos em sinal de resistência. Texto: "Gomez"

Cauã Oliveira é ator do Grupo MovaNos. Quer conhecer mais o trabalho do Grupo MovaNos? Acesse a página deles no Facebook. Quer falar com eles? Envie um e-mail para movimentonosso@gmail.com

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