O uniforme que eu usava só tem destaque quando há sangue

Para se ter visibilidade, quem não tem privilégios não pode ser nada além de pobre

Por Vitória Rodrigues de Oliveira

Era junho de 2018, e tudo que eu sabia fazer era estudar. Estudar, estudar, estudar. Sem a minha mãe precisar mandar, eu sabia que, para além de (r)existir e amar, enfiar a cara nos cadernos e nos livros era a minha maior salvação. Aos 14 anos de idade, meu tempo se dividia entre escola de manhã e, todo sábado, curso pré-técnico. Com isso, eu queria conquistar coisas através da educação, afinal: quem não quer ajudar a sua família a alcançar sonhos antigos?

Cheguei da escola com o meu irmão meio cansada, mas feliz de ver minha família em casa. Vendo o jornal, eu senti angústia, raiva, desespero, fervor. O Marcos Vinícius tinha a mesma idade que eu. Naquele dia, assim como nos outros, eu cheguei na escola bem, viva, querendo estudar e ver a quem eu tinha afeto. O Marcos também, até porque ele foi encontrar com um amigo para irem juntos pra escola.

Certo que a gente usava o mesmo uniforme da prefeitura municipal do Rio, mas o que nos separa é que ele já não está mais aqui.

Eu usei aquele uniforme dos 5 aos 14 anos.

Desde então, quando ligo a televisão ou rolo uma página de notícias sobre o que acontece no Rio de Janeiro, eu só vejo o uniforme que eu costumava usar na capa de algo quando é pra ilustrar desastre, desaparecimento, violência. Quase nunca é pra mostrar alguma coisa de bom, e quando acontece, é pra romantizar fatos do tipo “adolescente percorre 100 km a pé pra chegar na escola”. Isso é só um exemplo, mas espero que você entenda o que estou tentando lhe contar.

Um dos meus desesperos internos era terminar da forma  que nos pintam, que é um ‘jeito ruim’, saca? Eu afirmo com toda a certeza do mundo que não estaria escrevendo aqui, hoje, se não fossem meus estudos para uma escola técnica. E isso não é uma coisa feliz, é uma coisa triste.

É triste porque o meu medo de não ter um futuro dentro de possibilidades que não são meritocráticas me afetou.

O uniforme que eu antes usei pela vida toda diz muito sobre isso. Diz muito sobre os imaginários que se constroem por você-sabe-quem. Só ver pessoas usando aquela mesma blusa que você morrendo por conta do mesmo poder público que distribui aquelas blusas é doentio. E faz muito, muito mal. É como se vestir aquele pedaço de pano determinasse tudo o que você é: pobre e bandido.

Como eu morava (e moro até hoje) numa cidade que fica do lado da cidade do Rio, naturalmente tinha que pegar transporte público pra chegar na escola. Poder pegar o ônibus envolvia um processo de estar com o Riocard Estudantil, que é o cartão de transporte terrestre para alunos das redes públicas. Para conseguir aquele cartão, além de pedir uma declaração escolar, você tem que enfrentar o caos de um dos centros de emissão do cartão. Aguentar a aglomeração de pessoas das mais diversas faixas etárias no mesmo lugar, junto com a demora e o calor, não é fácil.

Um belo dia eu e meu irmão fomos pra pontos anteriores aos habitualmente usados por estudantes de uma determinada região da Pavuna pra conseguir viajar sentados. Entramos no 944 e meu cartão não passou, e a gente tinha que chegar em casa logo pra cuidar da minha avó. Eu imaginei que o motorista do ônibus teria compaixão em me deixar entrar pela porta da saída do ônibus, mas o que aconteceu é que ele disse que não deixaria ‘gente como eu’ entrar por ali. O que fizemos foi ir andando naquele sol de matar até o centro do bairro.

E mesmo que a gente tenha ido andando chorando com o que aconteceu, agora eu entendo que no fundo ele não queria dizer exatamente aquilo. Isso aqui não é passar pano. O que acontece é que sempre que muitos estudantes que usavam o mesmo uniforme que eu entravam pela saída do busão infernizava a vida do motorista e inclusive a minha.

As mesmas pessoas que estragaram muito da minha experiência de aproveitar e amar no fundamental II, eram as que vandalizavam o ônibus. Eu cansei de estar no ônibus e o motorista parar no meio do caminho porque essas pessoas quebraram alguma lâmpada, uma cadeira, uma janela… Até hoje, eu ainda tenho muita raiva delas. De verdade. Muito sofrimento que ainda carrego aconteceu por conta delas. Mas mesmo assim, sei que não é culpa delas ter que vestir aquele uniforme. Aquele maldito uniforme. Assim como aquelas pessoas, eu cresci vendo violência.

A coisa é que elas foram ensinadas a reproduzir a violência para sobreviver, por incrível que pareça. Ser do jeito que essas pessoas são é uma espécie de escudo.

Existem muitos outros motivos para falar mal destes estudantes. Mas assim como eles eram ou são ruins, muitas pessoas de escolas que não exigiam o mesmo uniforme que o meu agiam da mesma forma.

Ter aquele ‘Rio Prefeitura’ com listras azuis no pano branco era tipo um alvo. Era tipo um alerta de “venha me discriminar!”.

E eu acho que também por isso as pessoas que encontravam comigo, enquanto estava com aquela blusa, ficavam tão surpresas por eu tratá-las bem. Por ser educada. Por ser do jeitinho que minha mãe me ensinou a agir.

Eu digo isso porque todos nós somos ensinados a generalizar pessoas, a pensar do jeito que, mais uma vez, você-sabe-quem quer. Para ser visto e enxergado como pobre, você tem que seguir aquele padrão que querem. Pra você ser pobre, você tem que agir pobre, andar pobre, comer pobre, respirar pobre. Se você não é o que as pessoas esperam que você seja como pobre, então você simplesmente não é. E ponto.

Muito devido a minha mãe, eu sempre dei meu jeito pra ter acesso a cultura, por exemplo. É exceção? É. Mas continuo sendo pobre. Com o meu uniforme, eu sempre estava no cinema durante o oitavo ano. Ia sozinha e com pouca grana, mas ia. No nono ano, eu frequentei com força o Theatro Municipal porque gosto bastante de música clássica. Comecei a juntar grana pra ir ao Rock in Rio.

Meus amigos da época, que usavam aquela mesma blusa que eu, costumavam dizer que eu não era pobre de verdade.

Pra ser pobre você tem que sofrer o tempo todo, não pode ser feliz, não pode. Pobre não pode comer comida boa, não pode ter computador (parcelado em nove vezes) de qualidade em casa, não pode passear (contando os centavos pra grana dar certinho). Não pode usar uma roupa maneira além da blusa da prefeitura. Nike? Adidas? Nem pensar. Só usa relógio roubado! Não pode ler, não pode assistir Big Brother Brasil. Também não pode ouvir pagode e funk. Pobre ouvindo rock? Inimaginável. Não pode respirar. Não pode ter prazer.

O pobre tem que ser pobre e tratado como pobre, pobre aquele que usa um uniforme de gente pobre.

Na cabeça das pessoas, o pobre tem que existir no canto deles mesmos. A gente não serve pra aparecer na televisão feliz, com um uniforme de escola pública, fazendo coisas grandes e que são exceção de quem tem grana. E até mesmo quando alguém que se paga de cool tenta nos enxergar de uma forma mais aproximada da realidade, age como se pobre não pensasse.

Como se fosse só o povo do Leblon que aglomerasse. Como se fosse só filhinho de papai indo curtir uma festa na praia de Ipanema. E te digo: não é a galera da zona sul que leva bala de borracha da polícia quando faz festa de carnaval clandestina. Com toda a sinceridade do mundo, o que digo aqui não é vitimismo, muito menos romantização de fatos.

O que eu enxergo como uma menina que usou o mesmo uniforme que o Marcos Vinícius é que o estudante pobre só tem atenção quando vai embora: ou pros States ou pro céu. E isso dói. Dói demais. Eu acredito que só tem visibilidade quando ocorre a primeira opção. E assim, a atenção para a segunda opção só existe no dia em que se parte deste mundo para outro por conta de bala que dizem que é perdida. Depois disso, não importa mais.

Não importa se morreu indo pra escola. Não importa a dor de uma menina de 14 anos que mora em São João de Meriti. Não importa a perda de uma mãe que prefere morrer do que ver o filho ir primeiro. Sabe por quê? Porque não morreu na Vieira Souto. Porque morreu na Maré. Porque usa uniforme de pobre. E é pobre, pobre. Pobre.

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