O tempo está se esgotando: entendendo o novo relatório do IPCC

Se o aquecimento global ultrapassar a temperatura de 1,5°C, será ainda mais difícil “criar um modelo de desenvolvimento resiliente ao clima”. Em algumas regiões, se o aquecimento global for superior a 2°C, será “impossível”.

Por Marianna Malpaga, da AJN Itália

Tradução: Monise Berno

A janela de tempo para agir contra as mudanças climáticas está se estreitando.

O relatório do grupo de trabalho II do IPCC (Grupo Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas), publicado na segunda-feira, 28 de fevereiro, afirma que “construir um modelo de desenvolvimento resiliente ao clima já é um desafio complexo nos níveis atuais de aquecimento”.

A meta será ainda mais difícil de alcançar se o aquecimento global ultrapassar a temperatura de 1,5°C. “Em algumas regiões – acrescenta o relatório -, alcançar o desenvolvimento resiliente às mudanças climáticas será impossível se o aquecimento global for superior a 2°C”. Para evitar essa hipótese, precisamos de “financiamento adequado, transferência de tecnologia, compromisso político e parceria” e, ao mesmo tempo, também “reduzir rápida e profundamente as emissões de gases de efeito estufa”.

Em algumas regiões, alcançar o desenvolvimento resiliente às mudanças climáticas será impossível se o aquecimento global for superior a 2°C.

O relatório do Grupo de Trabalho II do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas

“Este relatório é um terrível alerta sobre as consequências da inação”, disse Hoesung Lee , presidente do IPCC. A segunda parte do Sexto Relatório de Avaliação (AR6), que será concluído até o fim do ano. “Isso mostra que a mudança climática é uma ameaça séria e crescente ao nosso bem-estar e a um planeta saudável” – acrescentou -. “Nossas ações hoje determinam a maneira como as pessoas se adaptam e a natureza responde aos crescentes riscos associados às mudanças climáticas”.

Segundo o relatório aprovado por 195 governos membros do IPCC, as pessoas e os ecossistemas mais impotentes face aos efeitos das alterações climáticas são também os mais afetados. “Juntos, o aumento da urbanização e as mudanças climáticas criam riscos complexos, especialmente para aquelas cidades que já experimentam um crescimento urbano mal planejado, altos níveis de pobreza e desemprego e falta de serviços básicos” – explicou Debra Roberts, co-presidente do Grupo de Trabalho II do IPCC.

Os riscos das mudanças climáticas

Os eventos climáticos extremos estão se alternando, “causando um efeito cascata que são cada vez mais difíceis de gerenciar”. O aumento das ondas de calor, secas e inundações, que estão ultrapassando os limites de tolerância de plantas e animais, está causando mortalidade em massa em algumas espécies entre árvores e corais.

Milhões de pessoas também estão expostas a “grave insegurança alimentar e hídrica”, particularmente na África, Ásia, América Central e do Sul e em pequenas ilhas e no Ártico.

Este relatório reconhece a interdependência entre clima, biodiversidade e pessoas e integra as ciências naturais, sociais e econômicas mais fortemente do que as avaliações anteriores do IPCC. O relatório sublinha a urgência de uma ação imediata e mais ambiciosa para combater os riscos climáticos. Meias medidas não são mais uma possibilidade.

Hoesung Lee, presidente do IPCC

O caminho a seguir: “salvaguardar e fortalecer a natureza”

“Os ecossistemas saudáveis ​​são mais resilientes às mudanças climáticas e fornecem serviços essenciais para a vida, como alimentos e água”, disse Hans-Otto Portner, co-presidente do Grupo de Trabalho II do IPCC. “Ao restaurar ecossistemas degradados e conservar de forma eficaz e equitativa 30-50% dos habitats terrestres, de água doce e marinhos, as sociedades humanas podem se beneficiar da capacidade da natureza de absorver e armazenar carbono. Desta forma, podemos acelerar o progresso rumo ao desenvolvimento sustentável, mas o financiamento adequado e o apoio político são essenciais”.

Os desafios aos quais a política, o setor privado e a sociedade civil são chamados são muitos, pois as dinâmicas globais que se entrelaçam com as mudanças climáticas são diferentes. O uso insustentável dos recursos naturais, o aumento da urbanização, as desigualdades sociais, as perdas e danos por eventos extremos e a pandemia são apenas alguns exemplos.

As cidades também oferecem oportunidades para a ação climática – edifícios verdes, fontes confiáveis ​​de água potável e energia renovável, sistemas de transporte sustentáveis ​​para conectar áreas urbanas e rurais. Todas essas são iniciativas que podem levar a uma sociedade mais inclusiva e mais justa.

Debra Roberts,  co-presidente do Grupo de Trabalho II do IPCC

Assista a mensagem do secretário-geral da ONU, António Guterres, por ocasião do lançamento do relatório:

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  1. O Brasil no relatório do IPCC – o que podemos esperar do futuro no cenário de mudanças climáticas – ((o))eco 
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Imagem de Photocurry por Pixabay 

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2 Comentários

  • Desconsidere o ponto de interrogação, nas Guianas, vizinhas. Obrigado.

  • Pegando o gancho da situação ucraniana, com seu território dilacerado, não sei se foi reparado, a diminuição do território brasileiro na propaganda do TSE: de 8.511.965 km2, estamos por volta de 8.510.000 km2! Teria sido dado autonomia a base americana na Amazônia??? Temos as Guianas nossas vizinhas? Já pensou se tornam a Amazônia Independente pela Corte Internacional? Já pensou termos que pagar pela umidade da Amazônia que recebemos, evitando o clima desértico que teríamos sem ela? Quantos países gostariam de ter dimensão continental e com regiões tão diversificadas economicamente!!!

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