O PODER DA ORALIDADE

No artigo IV da série do Grupo MovaNos, vamos conhecer mais sobre o valor ORALIDADE. Debate sobre as sociedades ágrafas, as manipulações e o poder do discurso nas sociedades do mundo. 

Por Franciene Glória

A história da humanidade é baseada na oralidade, juntamente com a linguística, que varia de acordo com as regiões e classes sociais. Muitas sociedades do continente africano eram ágrafas – sociedades que não desenvolveram um sistema próprio de escrita.

Essas etnias se comunicavam através de pinturas, imagens, símbolos e pela oralidade. 

Os Incas – civilização sul americana – eram um povo que tinha regras e leis que regulamentavam a convivência mesmo sem escrita. Nos países da África a oralidade é um valor muito importante. Em todo seu território são falados mais de dois mil idiomas. A manutenção de crenças, idiomas e costumes ancestrais dão valor a ORALIDADE.

Os símbolos Adinkra, que nos últimos tempos têm se difundido e ganhado notoriedade, são de tradição Africana. Formas gráficas, imagens que representam palavras ou conceitos. Ainda hoje se mantém viva a história do povo Akan que se espalha pela Costa do Marfim e por Gana.

Há uma tentativa de esvaziamento histórico das referências africanas e com isso tentam apagar tudo àquilo que vem de África, atribuindo suas descobertas a outras origens.

Os europeus colonizaram inúmeras regiões africanas, como a região do Congo, onde atuou o Rei Leopoldo II da Bélgica entre 1895 e 1908. Atuaram na exploração da borracha e do marfim. Esse Rei deteve um largo capital financeiro, aumentando suas riquezas particulares e assim fizeram a história do mundo pela ótica etnocêntrica que eles escreveram.  

Pode-se dizer que Oralidade é como fruto do espírito (Gálatas 5:19–21).

Na perspectiva cristã, quando não possuímos ou não desenvolvemos os frutos do espírito ao longo da vida, fragilizamos as nossas relações interpessoais. Por exemplo, relações que precisam ser encerradas, mas ainda se mantém por falta de diálogo; comunicação familiar; a boa oratória em uma oportunidade no mercado de trabalho; cultivo das amizades e etc.

Os Griots são os contadores de histórias que preservam tradições milenares por meio da fala e de sua atuação nas etnias africanas. Diferente da civilização ocidental que prioriza a escrita, os Griots são respeitados em todo território e fazem parte da história da região.

No Brasil, os contadores de história são os compositores, sambistas, arquitetos, mães de santo, nossos avós.

Uma infinita lista de sábios, criadores e artistas que possuem um papel fundamental na construção de nossos valores identitários. Graças a eles, revisitamos e recriamos nossas tradições, histórias, artes, culturas e as religiões. 

Oralidade como uma lógica cidadã

A Ditadura Militar no Brasil assassinou pessoas inocentes e retirou direitos civis na época. A população brasileira desconhece sua história porque falta oralidade. Os alemães que passaram pelo Nazismo, sentem vergonha de seu passado e por isso construíram história a partir dos fatos vividos naquela época. O Museu do Holocausto, por exemplo, é um espaço para que esse fato nunca seja esquecido.

No Rio de Janeiro temos o Museu do Negro, tombado em 1938 e oficialmente fundado em 1969 depois de um incêndio. Lá encontramos esculturas, fotografias, objetos e documentos que contam a história dos escravizados e das religiões de matriz africana. Uma forma de preservar essa memória. Mas é pouco conhecido, pouco falado. Localiza-se na Igreja Nossa Senhora do Rosário e São Benedito dos Homens Pretos.

Por definição, Beth Marcuschia nos diz que noção de oralidade está estreitamente relacionada ao uso da modalidade oral da língua em práticas sociais e discursivas, tanto no que se refere à sua produção, quanto no que diz respeito à escuta. Oralidade está relacionada ao saber falar, se expressar, ouvir e interpretar as palavras que você recebeu.

Em nossas sociedades vemos a manipulação do discurso. Mentiras viram verdades.

As eleições municipais, estaduais e federais baseiam-se na oralidade de seus candidatos. O Poder do discurso, como nos fala o teórico Michel Foucault. A partir dele (o discurso) controlamos, organizamos, selecionamos e redistribuímos as regras e normas.

Políticos dominam as massas com seus discursos fajutos e demagogos. Vivemos na era das FAKE NEWS, onde uma simples mensagem de Whatsapp vira corrente de desinformação com mais de 30 mil compartilhamentos e conclusões equivocadas. Atuamos muitas vezes nos territórios das incertezas e do dito pelo não dito. 

Foto: Francisco Proner/ Farpa Fotocoletivo

Pensemos em três personalidades que são marcas de discurso e oralidade em suas trajetórias: Adolf Hitler; Papa Francisco e Jair Bolsonaro.  Os três são personalidades influentes que detêm ou detiveram o poder do discurso em algum momento histórico.

Hitler, com seu discurso eugenista, xenófobo e cristão, concretizou o extermínio de uma população e por dominar bem a oratória, instigou a Segunda Guerra Mundial onde criou os campos de concentração. Aproximadamente 6 milhões de judeus foram mortos.

Jair Messias Bolsonaro foi vereador, deputado estadual e deputado federal representando o Rio de Janeiro. Atualmente como presidente da República do Brasil tem atuação polêmica e discursos controversos, divide opiniões e polariza a sociedade brasileira.

Papa Francisco é o 266º papa da Igreja Católica e o atual chefe de estado da cidade do Vaticano. Consciente das ações desumanas da igreja católica, Francisco tem pedido paz, amor e o perdão aos fiéis

Na era tecnológica, as informações estão na palma de nossas mãos. Os influencers têm milhões de seguidores e o que mais fazem é usar da oralidade.

Como o nome já diz, eles influenciam seu público. Dominam a ORALIDADE por suas propagandas online. Será que esse espaço virtual tem sido usado adequadamente para ensinar algo às pessoas? 

Oralidade está ligada à territorialidade e a circularidade. Precisamos fincar nossos pés em nossas raízes. Aprender a investigar, questionar, ouvir mais, saber falar, se explicar, permitir e crer que a palavra transformará o mundo em um lugar melhor para as gerações futuras.

A palavra tem potência, ela é sagrada! Respeite esse valor. 

Franciene Glória é atriz do Grupo MovaNos. Quer conhecer mais o trabalho do Grupo MovaNos? Acesse a página deles no Facebook. Quer falar com eles? Envie um e-mail para movimentonosso@gmail.com

Ver +

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *