O Paradoxo da Escolha: Liberdade ou Aprisionamento?

Esse texto não trará os caminhos para sair ileso do paradoxo da escolha em pleno século XXI, mas pretende incitar o leitor a questionar quão libertárias ou limitantes são as escolhas que preserva em sua vida. 

Por Ana Radaelli

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Há pouco mais de um ano éramos alertados para resistirmos à infopandemia e não sermos consumidos pela negatividade e desespero que o excesso de informações sobre o cenário caótico da pandemia poderia nos causar.

Hoje, trazemos outro alerta no mesmo sentido. Não apenas o excesso de informações sobre temáticas graves e trágicas podem acarretar consequências nefastas para nossa psique, mas também o consumo exagerado de notícias em geral, ao ponto de ficarmos intoxicados pelo excesso de informação, como proposto pelo conceito de Infoxicação, em termo cunhado por Alfons Cornellá no já distante ano de 1996.

O Custo da Liberdade

Dentro do Marketing, o Paradoxo da Escolha já é um conceito clássico, levantado por Barry Schwartz ainda em 2004. Na época, o desejo supremo era por liberdade, principalmente a liberdade de escolha. O mundo já havia passado por revoluções industriais e evoluções magnânimas em termos de capacidade produtiva e especializada de forma a oferecer aos cidadãos exatamente aquilo que eles desejassem.

Tinha-se por certo que desfrutar da multiplicidade de escolhas seria libertador para o ser humano e que isso traria uma melhora imbatível de qualidade de vida. A receita para maximizar a liberdade seria, portanto, maximizar as escolhas. Até que se percebeu que a vasta gama de opções disponíveis se tornava um fardo que consumia tamanha energia no próprio processo de escolha que acabava por diminuir a duração e o regozijo da escolha feita, e até aumentar as chances de uma decisão ruim.

Essa tendência é conhecida no mundo do marketing como Hyperh-Choice, e considerada um gatilho potencial para o Hyper-Stress – exatamente o significado de Infoxicação, o momento em que o acesso à informação passa a ser tóxico e não mais libertador, intoxicando o indivíduo pelo excesso de informação.

Infoxicação – O Envenenamento pela Informação

Ambos os conceitos sugerem que o excesso de opções paralisa ao invés de libertar. Na análise mercadológica, foram realizados diversos experimentos apontando que uma grande variedade de produtos expostos pode atrair mais pessoas às gôndolas, mas atingir uma taxa de conversão mais baixa.

É claro que essa não é uma condição universal e envolve muitas outras variáveis, mas a hipótese de que a dificuldade na tomada de decisão aumenta quando há muitas opções a se considerar é notória e excede a veia comercial. Basta olharmos para nosso próprio cotidiano:

quão difícil é escolher um filme para assistir, qual curso fazer, que roupa comprar, que sabor de sorvete escolher?

Tais escolhas eram muito menos complexas quando as opções eram mais limitadas.

É muito mais simples escolher seu sorvete quando se tem apenas 3 sabores disponíveis, mas é quase impossível ter certeza da escolha de frente a uma vitrine que expõe 30 diferentes sabores. Apenas as primeiras colheradas definirão se ficaremos minimamente satisfeitos ou arrependidos com a decisão tomada.

Deve-se escolher o seu sabor favorito ou experimentar algo inusitado?
Imagem de Taylor Heery via Unsplash

Evolução Humana – A Era da Complexidade

Imagine o efeito dessa indecisão quando encaramos a quantidade de informações a que temos acesso atualmente. Quais são os sites confiáveis? Que comunicador está comprometido com a verdade? Que proposta política está baseada em fatos e não em opiniões? Como escolher qual lado da história apoiar? 

Se já é difícil lidar com tamanha multiplicidade para tomar decisões cotidianas ou formar opiniões gerais, o desafio chega também em esferas estratégicas da vida: escolher um emprego não mais significa avaliar a proposta com maiores probabilidades de sucesso profissional, mas envolve valores pessoais e institucionais, alinhamento de objetivos, imagem social, entre muitas outras questões subjetivas.

Uma decisão outrora simples, hoje carrega consigo toda a diversidade e complexidade da essência humana. Cada decisão suscita o peso de marcar um posicionamento social, muito além de garantir uma fonte de renda ou conquistar um teto para chamar de lar.

Podemos nos perguntar:

não seria melhor, então, diminuirmos as opções e facilitar nossas escolhas?

Provavelmente não, ter menos informação seria um simples retrocesso que resgataria os problemas que já superamos no passado. O que precisamos é apenas aprender a lidar com a infinidade de informações.

E não há fórmula mágica! Esse texto não trará os caminhos para sair ileso do paradoxo da escolha em pleno século XXI, mas pretende incitar o leitor a questionar quão libertárias ou limitantes são as escolhas que preserva em sua vida.

As opções que experimentamos no momento estão nos levando além ou impedindo-nos de caminhar?

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