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O ouro andino: conheça as festas e danças indígenas de imigrantes em São Paulo

Festas populares brasileiras têm muito em comum com festividades indígenas andinas. Imigrantes falam sobre a história de algumas destas celebrações

Por Jenny de la Rosa e Pedro Neves

O ouro na forma de espiga

Junho no Brasil é um mês de festas populares, de cheiros e sabores especiais, dentre eles um parece ganhar a cena inteira da mesa junina, o milho, de origem americana, cultivado em toda a extensão do continente, portanto, elemento das grandes comemorações dos povos americanos, anteriores e posteriores à colonização europeia, o que não é estranho, se pensarmos que este produto tem mais de 7300 anos, mais de 150 variedades e tem acompanhado as grandes caminhadas migratórias antigas e recentes.

Mas, porque junho? No dia 21 deste mês no hemisfério sul acontece o solstício de inverno, fenômeno que passa despercebido pela cultura ocidental, afastado da relação íntima com a natureza e seus impactos em nosso cotidiano, mas, celebrado no sincretismo católico na festa de Corpus Christi ou São João.

Comemorando longe de casa

Em São Paulo, conhecida como a cidade dos mil povos, encontramos Juan, artista boliviano, músico e dançarino imigrante, que compartilhou as lembranças de suas experiências juninas na Bolívia.

Na Bolívia, de 70% a 80% da população é indígena ou descendente. Nos últimos anos, se discute muito o colonialismo, o indigenismo, o racismo; lá é muito forte tanto como aqui. Essas raízes são a consciência dos povos originários e de sua resistência perante estas formas de exclusão.

Descendente de aymaras, sendo sua família uma linhagem de curandeiros, Juan nasceu e cresceu em La Paz. Ele lembra que durante sua infância, na década de 1980, seus pais eram impedidos de falar sobre as tradições ancestrais por medo dos militares, isto fez com que ele não conseguisse disfrutar de celebrações como o Willkakuti, o ano novo Aymara.

Coincidentemente, quando chegou aqui em São Paulo, na década de 1990, os líderes aymaras, quéchua e guarani na Bolívia começam a recuperar essas tradições, como a música autóctone, que sempre o acompanhou. Aos poucos, o jovem Juan foi se aproximando das cerimônias antigas. Enquanto na Bolívia viviam as celebrações de junho, Juan junto com outros integrantes das comunidades as replicavam na diáspora, como forma de se conectar com a sua terra natal.

Juan compartilha:

A gente organiza a cerimônia do Willkakuti, que em aymara significa o retorno do sol, há 6 ou 7 anos somente. É aqui, em São Paulo, que eu me reconheci como descendente de aymaras e reconheço a festa

Em 2019, após o terceiro ano realizando o evento no Brasil, pessoas de outras nacionalidades e brasileiros, claro, integram a festa. Um momento importante da cerimônia é a formação da mesa pelos Yatiris (curanderos, aquele que sabe), que é a preparação para o ritual de agradecimento à Pachamama, que conjuga elementos e símbolos coloridos, alimentos e ervas, como a coca, e o mais importante, a representação dos três universos: manja pacha (mundo interno), akapacha (mundo real), kju pacha (o além).

Depois do ritual, chega a parte da comida, que é comunitária, as famílias ou pessoas levam alimentos para compartilhá-los. O milho, na cerimônia, é oferecido pelos chamakanis, os que conhecem a escuridão, já que o milho amarelo é o ouro, e o branco a prata. Juan conta:

Esse ritual se celebra o dia 21 de junho, que para a cosmovisão andina, encerra um ciclo, e ao mesmo tempo abre outro, através do agradecimento ao sol, que é o pai que nos dá o calor, nos ilumina, nos permite realizar as atividades do dia a dia, ele é energia. Já a terra é conhecida como pachamama, que nos alimenta, nos oferece seus alimentos, ficamos em pé na terra, ela sempre nos recebe, por isso a veneramos. Para nós, bolivianos, esse ano é 5528, porque temos uma herança milenar além da colonização europeia

Residente do centro de São Paulo há nove anos, o indígena equatoriano Rolando Vega não deixa de celebrar o Inti Raymi, mesmo que longe da família e com algumas adaptações. Ele lembra que em Otavalo, local de onde vem, todo 23 de junho, conhecido como o Armay tuta (ritual para limpar a alma das más vibrações), os integrantes da comunidade tomam um banho sagrado nas cachoeiras da região, essa festa se celebra em família, se come e depois se dança durante 3 dias. Porém, aqui em São Paulo, a tradição se adapta:

Um prioste organiza a festa que reúne a comunidade no Parque Dom Pedro e comemoramos o Inti Raymi: aqui celebramos com dança, comida, bebida e um campeonato de futebol, este último como complemento, não faz parte da cerimônia original

O Inti Raymi é considerada a segunda festa mais importante do mundo indígena, depois apenas do Pauka Raymi, que tem como objetivo agradecer ao florescimento das plantas, celebrado em fevereiro. O Inti Raymi acontece em junho em agradecimento a colheita dos frutos e grãos, se agradece à terra, ao sol, o vento e à chuva, que ajuda no crescimento das plantas na terra:

Se houver pelo menos cinco indígenas em qualquer lugar do mundo, pode ter certeza que vão celebrar o Inti Raymi

Desde o início dos tempos, a festa consiste em danças circulares, onde os músicos se colocam no centro do círculo, enquanto em seu redor acontecem as danças:

Os músicos representam o centro do sol, a parte mais quente da estrela. Nós bebemos a chicha, uma bebida feita de milho, que é o ouro andino, o nosso tesouro. Meus avós e pais sempre me disseram que podemos fazer de tudo com o milho, é uma fonte de alimentação variada e por isso é tão importante para nós

Na noite do Inti Raymi, as pessoas também se presenteiam com mote, um milho cozido com queijo, ele deve estar presente sempre nas comidas, de diversas formas.

Aqui no Brasil, não vemos preocupação do governo brasileiro pelas comunidades indígenas, não há interesse em mostrar as tradições ou festas dos povos indígenas brasileiros. Rolando conclui:

Eu queria ir este ano compartilhar o Inti Raymi no Equador com a minha família e amigos, seria importante, porque é a raiz de nossos ancestrais, se eu não valorizo minha herança cultural, meu filho e os filhos dos meus filhos também não vão valorizá-la, e assim vai se perder

Créditos: Oscar Flores

Imagem destacada: Instagram/peru_en_foco

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