“O Nó é o que constrói Nós”

Chegamos ao terceiro artigo da série especial em parceria com a Ashoka Brasil, que apresenta perfis de 10 jovens transformadores pelo futuro da democracia.

Por Gelson Henrique*, Jovem Transformador pela Democracia

Foto: UNICEF/BRZ/Rafael Duarte

Sou Gelson Henrique, um jovem preto de 21 anos cria de Campo Grande, Zona Oeste do Rio de janeiro, ativista pelos direitos humanos desde os 15 anos e produtor cultural. Sou uma construção coletiva, que vem de longe, gerado por uma baiana e um carioca, ambos pretos.

Desde a infância, entendo o poder da coletividade e a força da comunidade para a garantia da nossa existência enquanto pessoa singular e como povo conectado por memória e experiências de vida. São os nós que me trouxeram até aqui — e entendo os “nós” como entrelaçamentos de fios.

É através do entrelaçamento das nossas vidas que a gente vai criando “nós”, a galera que permanece quando o bicho pega. Nos caminhos que trilhamos, há laços que permanecem. A gente percebe que alguns “nós” estão conosco inclusive no olho do furacão, que é onde o b.o acontece na prática. A gente se articula, mobiliza, constrói e fazemos coisas efetivas para garantir a dignidade humana dos nossos.

Quanto mais fios compõem um nó, mais resistente ele fica, não é mesmo? Portanto frente a um Estado Racista, que possui a violação dos direitos humanos como sua coluna vertebral, a gente precisa construir coletivamente entre nós desde sempre.

Entendendo isso, junto com mais cinco jovens de diferentes localidades do Rio de Janeiro, construí o CIJoga (Caravana Itinerante da Juventude), que tem como principal objetivo estimular a participação política e social de jovens de periferia e favelas. Em suma, quer concretizar e viabilizar o artigo 4º do Estatuto da Juventude: “O jovem tem direito à participação social e política e na formulação, execução e avaliação das políticas públicas de juventude”.

Quero ver mais jovens elaborando políticas públicas, e não sendo apenas público alvo. Somos nós que precisamos estar nos diversos espaços da sociedade civil organizada. E, para isso, a gente escuta e estimula conversas. Para fazer com que eles entendam tamanha genialidade que há dentro de cada um, que percebam as estratégias que tivemos que criar para permanecermos vivos desde o dia do nosso nascimento. Por isso, sempre nos remetemos aos mais velhos, que vieram construindo os nós, criando sabedorias coletivas das quais bebemos hoje para construir a emancipação do povo preto.

Chegamos aqui, portanto falaremos de futuro.

O que tenho a dizer é: a partir do momento em que eu conheço os nós de onde eu vim, eu sei para onde vou, valorizando a cultura preta e nossa ancestralidade, respeitando nossos mais velhos, construindo estratégias com nossos contemporâneos, para garantir um bom lugar para os nossos mais novos.

O levante preto taí, e a cara neste momento é dos meus irmãos, jovens, de periferias e favelas que criam gambiarras desde sempre frente ao racismo, e isso só tem sido possível por buscarmos a nós enquanto povo. Em tempo, gostaria de citar um grande pensador campograndense, meu tio: “Surrique, nós somos nó, e é isso que eles temem”.

Para a branquitude, no entanto, nos tornamos nós no “pior” sentido da palavra, que é o que impede, que é um problema difícil de resolver. Somos um problemão mesmo, até porque estão tentando nos exterminar há anos, de diferentes formas, e continuamos aqui. Pedindo licença a nossa mais velha Conceição Evaristo para citá-la: “Eles combinaram de nos matar, e nós combinamos de não morrer”.

*Cientista social e idealizador do CIJoga – Caravana Itinerante da Juventude, projeto que percorre as escolas públicas do Rio de Janeiro para promover diálogos com as juventudes e incentivar sua participação nos espaços de tomada de decisão. É conselheiro do UNICEF Brasil, mestrando do programa de políticas públicas e formação humana da UERJ e gerente de projetos na Secretaria Municipal da Juventude do Rio de Janeiro.

SOBRE O PROGRAMA

Re-imaginar a participação cidadã dos jovens e um futuro no qual todos, independentemente de sua origem, tenham voz na formulação de políticas e na tomada das decisões que impactam suas vidas. Este é o propósito do estudo Jovens Transformadores para o Futuro da Democracia, realizado pela Ashoka em parceria com a Open Society Foundations.

O programa Jovens Transformadores pela Democracia identifica e apoia jovens cujas iniciativas incentivam o engajamento político, principalmente por parte de populações marginalizadas, que não têm seus direitos respeitados ou que necessitam de apoio para conquistar representatividade no âmbito público.

SOBRE A ASHOKA

A Ashoka é a pioneira e maior rede global de empreendedorismo social. Congrega pessoas e organizações que promovem mudanças sistêmicas para o bem de todos. Dedica-se a consolidar um movimento onde todas as pessoas se entendam como agentes na construção de sociedades justas, sustentáveis e igualitárias. Criada em 1980 e presente desde 1986 no Brasil, a comunidade Ashoka reúne mais de 3.800 empreendedores sociais no mundo (384 no Brasil), além de 300 Escolas Transformadoras e dezenas de Jovens Transformadores. Saiba mais em https://www.ashoka.org/pt-br

Este texto foi originalmente publicado no canal da Ashoka Brasil no Medium.

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1 Comentário

  • Parabéns filho téns a Verve, mais acima de tudo domínio, vivência, trajetória, e douto saber dos, mares que navega em segurança, e ferve nas tuas veias um sangue de guerreiro, leal e destemido disposto a não recalcitrar, nem recuar um milímetro na busca pela apoteose dos seus objetivos, que conquistas com sangue suor e luta, característica ímpar que acompanha o teu berço e todos os frutos gerados do ventre dessa ancestralidade, segue na luz que sempre te iluminou e indica o caminho a seguir👏🏾👏🏾🙏🏿🙌🏾

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